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Uma trajetória dramática atinge a apoteose: Messi é campeão da Copa do Mundo

Parecia que a Copa nunca deixaria de ser cruel com Messi, mas, no fim, substituiu o olhar obsessivo do Maracanã pelo carinho de um beijo como a sua imagem definitiva com craque

Não era hora ainda. Mas Messi não aguentava mais esperar. Havia esperado demais. Havia suportado prorrogação e pênaltis porque a Copa do Mundo decidira ser cruel com ele até o último segundo. A final em Lusail parecia uma consagração e, de repente, transformou-se no teste final. Messi foi aprovado. Estava no palco para receber o prêmio de craque do torneio e desviou para dar um beijinho na taça. O encontro que o mundo do futebol esperava e que tantas vezes pareceu impossível: o troféu do maior campeonato do mundo agora é do melhor jogador da sua geração. De muitas gerações. Há quem diga que de todas elas.

Que este texto não se torne mais um Pelé x Messi, mas os entusiastas do argentino receberam o último argumento. O legado de Messi não estava em jogo no sentido de que seria menor se em vez de Emiliano Martínez defender um pênalti tivesse sido Hugo Lloris. Mas era uma possibilidade de engrandecê-lo com o título que faltava, o título que ele sempre buscou. Fechou a conta com duas finais de Copa do Mundo, 13 gols, o quarto maior artilheiro da história da competição ao lado de Just Fontaine, e duas vezes eleito o craque (mesmo que a primeira seja bem contestável). Nada mal para quem passou a carreira criticado, às vezes com razão, por não comparecer em Mundiais.

Essa lacuna foi preenchida sem espaço para contestações porque a campanha de Messi foi além dos números. Ele não conseguiu o título da Copa do Mundo apenas porque estava no elenco e foi carregado pelos companheiros. Ao contrário, aos 35 anos, foi ele quem carregou os companheiros em muitas situações, como no jogo contra o México ou nos minutos finais nervosos contra a Austrália. Teve frieza e cabeça para converter todos os pênaltis que importavam e exerceu a liderança que dele se cobrava, até emulando Diego nas quartas de final contra a Holanda. A Argentina não foi campeã com Messi. Foi campeã por causa de Messi, e esse é o reconhecimento mais importante para o espaço que essa campanha terá em sua carreira.

Ficou famosa uma frase de Jorge Valdano, antes da terceira final consecutiva da seleção argentina, contra o Chile na Copa América do Centenário, que Messi não joga finais para ganhá-las, mas para ser perdoado. E era o pior tipo de perdão a se pedir porque ninguém nunca soube precisar qual havia sido seu crime. Não cantava o hino? Não jogou no futebol argentino? Tinha uma personalidade fria? Não havia sido campeão com a seleção? Talvez o crime fosse não ser Diego Maradona, e o título não completa uma transformação, mas é a confirmação final que Messi não precisa sê-lo para ter um espaço similar no coração dos torcedores. A Argentina é grande o bastante para ter mais de uma igreja.

Foi um processo longo e tortuoso de aceitação. Parecia que Messi precisava provar suas raízes constantemente, que era mesmo argentino, não era catalão, ou espanhol, o que não é natural para alguém com uma personalidade mais retraída. Conseguiu dar a evidência definitiva quando foi mais humano, ao se aposentar da seleção porque a dor de três derrotas consecutivas em decisões havia sido profunda demais. Como se tivesse que se machucar para provar que estava vivo. A parte mais saborosa da vitória no Catar é que Messi não precisava mais de perdão. A Copa América havia resolvido essa pendência. Aquele foi o título do alívio. Este foi o da alegria pura e genuína. Messi desfrutou da Copa do Mundo. Divertiu-se. A leveza era visível, e um Messi leve é também um Messi extremamente perigoso para os adversários.

Conquistar um torneio com a natureza do Mundial, de tiro curto, mata-mata, exige mais do que talento. Exige uma preparação que a Federação Argentina raras vezes entregou, um trabalho bem feito que a seleção raras vezes teve e sorte que no fim acabou reservada para o Catar. Na Alemanha, Messi era um garoto convocado para ganhar experiência. Poderia ter tirado o título da frente ali, a Argentina de José Pékerman era forte, mas ele não teria sido campeão como um dos protagonistas. O time era de Riquelme. Na África do Sul, por mais que fosse simbólica a reunião com Diego Maradona, não teve uma plataforma razoável para apresentar o futebol de melhor do mundo que havia desenvolvido. Coletivamente, a Argentina chegou capengando às quartas de final e foi goleada pela Alemanha.

Realizada a cada quatro anos, a Copa do Mundo oferece poucas chances para os jogadores disputarem-na no auge da mistura entre capacidade física e maturidade. A primeira de Messi havia sido desperdiçada pela decisão de nomear Maradona como técnico. A segunda, e última, seria no Brasil. Alejandro Sabella pelo menos montou um time e teve o poder de decisão do seu craque até as oitavas de final. A Copa de Messi, porém, foi diminuindo com o passar das fases. Não conseguiu escapar da marcação da Holanda. Não fez uma grande final contra a Alemanha e ainda perdeu o gol que provavelmente seria do título. Aquele chute cruzado que guardava nove em dez vezes com a camisa do Barcelona foi para fora. Passou a ser um lance que assombrava seus pesadelos. Que seria sempre lembrado se o título nunca viesse.

Messi era outro jogador na Rússia. Havia passado dos 30 anos e, se ainda era genial, começava a entrar em uma fase mais veterana de sua carreira. Carregava as cicatrizes das três finais perdidas e da breve aposentadoria. A Argentina estava nas mãos de um dos melhores técnicos que poderia ter naquele momento e, mesmo assim, a passagem de Jorge Sampaoli foi trágica e caótica. Messi perdeu pênalti contra a Islândia, desapareceu na derrota para a Croácia e, mesmo classificado, a fase de grupos fraca foi castigada com um cruzamento com a França nas oitavas de final. A Argentina até lutou, mas não estava preparada para um jogo tão difícil tão cedo e foi devidamente eliminada.

No geral, o que pudesse dar errado para Messi na Copa do Mundo daria, e tantas vezes no Catar pareceu que a história estava se repetindo. A última chance de Messi terminaria por causa de uma derrota para a Arábia Saudita? Porque a Austrália reagiu do nada nos minutos finais? Porque um lateral australiano quase fez um gol à Maradona? Porque a Holanda forçou a prorrogação com um gol em cobrança ensaiada de falta? Porque a França reviveu em um jogo que parecia resolvido? A mágica, porém, é que a Copa do Mundo finalmente resolveu que queria ser de Messi. Além de méritos táticos e técnicos, Messi foi campeão porque todos os cenários que antes quebravam contra ele passaram a quebrar a seu favor.

Durante 80 minutos, a decisão era até um final anticlimático para uma trajetória tão dramática. A Argentina passeava em campo, não era incomodada, a França estava morta, parecia ter desistido. Estava dando Messi por aclamação: um jogo inteiro para desfilar rumo ao título da Copa do Mundo. De repente, um pênalti e tudo mudou. A França empatou, forçou a prorrogação, a Argentina voltou à frente, levou o empate, quase perdeu no último lance. Como se toda a história de Messi em Copas do Mundo tivesse sido condensada no final insano de um dos maiores jogos de todos os tempos.

A narrativa se modificava em tempo real. A final em que Messi não precisou nem brilhar para vencer virou a final em que ele permitiu que a França reagisse e não conseguiu decidir quando precisava. Mas decidiu, e agora sairia como o grande herói. Mas não decidiu mais porque a França conseguiu novamente o empate e forçou os pênaltis. Converter a primeira cobrança da Argentina era sua última missão no Catar, e o seu histórico em pênaltis não inspirava tanta confiança. Estava em uma encruzilhada: se marcasse, poderia nem ser campeão, mas pelo menos teria cumprido seu papel; se errasse, aquele gol perdido contra Manuel Neuer seria atropelado por um erro muito maior em magnitude que ficaria envolto em seu pescoço eternamente em caso de derrota da Argentina.

Messi marcou. E Emiliano Martínez defendeu uma batida da França, outra foi para fora. De certa forma, foi simbólico e apropriado que tenha sido assim. Porque durante tanto tempo a história era que Messi não tinha companhia na seleção argentina, precisava fazer tudo sozinho, carregar um bando de jogadores que não o ajudavam. Ele foi campeão mundial porque ao mesmo tempo fez a sua parte com excelência e contou com um colega no momento mais decisivo. Foi apropriado também porque, por mais que a montanha-russa de emoções tenha sido talvez um pouco exagerada, uma trajetória tão relevante, dolorida e trágica não poderia terminar de um jeito tão morno.

Precisava do drama para atingir a apoteose. Um drama que foi a tônica de toda a campanha da Argentina e gerou a sensação de que a Copa do Mundo seria cruel com Lionel Messi para sempre. Até que não foi mais. Preferiu outra emoção. O carinho de um beijo que substituiu o olhar obsessivo do Maracanã como a imagem definitiva de Messi em Copas do Mundo. É difícil defender que não é melhor que seja assim.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.
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