Alemanha

Löw fez o mais sensato ao planejar sua saída, ganhando uma sobrevida e dando um alívio à renovação

Graças ao seu apoio colunas das cinco grandes ligas da Europa estão de volta, e esta é a Die Meister, com informações e análises sobre o futebol alemão. Faça parte do nosso financiamento coletivo no Apoia.se e nos ajude a bater mais metas

Joachim Löw demorou quatro meses para se pronunciar após os 6 a 0 aplicados pela Espanha sobre a Alemanha na Liga das Nações. O treinador primeiro reabriu as portas para os jogadores aposentados compulsoriamente. Agora, permite o processo de renovação no comando, ao antecipar o fim de seu contrato e anunciar sua saída após a Eurocopa. O treinador demorou demais para tomar a atitude e, em certo sentido, prejudicou a Mannschaft nos últimos anos. Neste momento, de qualquer maneira, seu anúncio é o mais sensato e com uma dose de humildade para reconhecer que o novo precisa vir – numa autocrítica que andava em falta. Facilita uma troca que a federação não indicava ter peito para fazer, por dívida de gratidão pelo título de 2014.

Esfriada a caça às bruxas depois da goleada em Sevilha e com a Eurocopa cada vez mais próxima, procurar um novo treinador para o torneio continental seria difícil a esta altura. Há um temor de que a Alemanha mantenha sua espiral sob as ordens de Löw, mas a continuidade do treinador faz sentido até lá. O comandante admite levar os melhores jogadores à disposição, apontando que Thomas Müller e Mats Hummels devem ser pré-convocados, e freia um projeto de renovação do elenco que vinha sendo infrutífero ao Nationalelf. Mais importante, dá tempo para que a escolha de seu substituto ocorra sem muita pressa.

Hoje, o futebol de seleções não é mais o ápice do esporte. Assim, seria devaneio apostar que Jürgen Klopp jogaria fora seu mercado para assumir o Nationalelf – como ele próprio já descartou. Da mesma forma, Julian Nagelsmann não deve interromper sua progressão no futebol de clubes. Mesmo Hansi Flick, com sua ligação íntima na função de assistente da Mannschaft, não parece propenso a abrir mão do Bayern de Munique para dirigir a equipe nacional. Se isso acontecer, seria mais por algumas relações já desgastadas na Baviera, em especial com o diretor Hasan Salihamidzic. Faria sentido pela amizade com Löw, mas não para o seu plano de carreira.

O perfil necessário é outro, e existem bons nomes à disposição da DFB, a federação local. Caso a Alemanha tivesse urgência, poderia apelar até mesmo a Jupp Heynckes ou a Horst Hrubesch – este, nome experiente que já passou por diferentes níveis das seleções de base, bem como pelo time feminino. Como Löw vai segurar as pontas até a Euro, o ideal seria escolher um comandante que pense no processo como um todo e tenha bom trato com jovens. Dois candidatos se põem na linha de frente: Ralf Rangnick e Christian Streich.

Streich renovou recentemente com o Freiburg, o que poderia se tornar um empecilho. Mas, em seu caso, saltar à seleção seria o ponto alto de uma carreira longeva. Aos 55 anos, o técnico completa uma década à frente do clube, fazendo um trabalho muito constante. Transformou um time modesto, que passou a brigar pela classificação às copas europeias e consegue revelar diversos talentos, mesmo com um orçamento limitado. No quesito “lapidar os jogadores”, parece um nome ideal, até pelo princípio de aproveitar mais os jovens e amadurecer a espinha dorsal da Mannschaft. Seu perfil se casa com o dia a dia de uma equipe nacional, embora seu currículo não tenha títulos.

Mais forte que Streich vem Rangnick, e com razão. Aos 62 anos, sua bagagem é imensa. Seu primeiro trabalho de peso aconteceu como coordenador da base do Stuttgart, para onde tentou levar Ronaldo Fenômeno e Denner. Logo depois virou treinador, passando ainda por Hannover e Schalke. De qualquer maneira, seus grandes sucessos foram processos mais amplos à frente de clubes ascendentes. Foi ele que firmou o Hoffenheim como um clube de elite, assim como atuou nos bastidores do RB Leipzig desde 2012, por vezes segurando as pontas também como técnico. Possui uma visão ampla do futebol, apresenta um tino no desenvolvimento de garotos e também é reconhecido à beira do campo por sua capacidade tática.

Rangnick é mais completo, mas isso também pode ter um preço. Ele não viria apenas para trabalhar com o campo, talvez batendo de frente com Oliver Bierhoff na gestão da Mannschaft. Depois de deixar um posto de direção no futebol da Red Bull, administrando as equipes em diferentes países, Rangnick tinha se apalavrado com o Milan, mas a notícia gerou atritos internos e a retomada de Stefano Pioli freou sua chegada. Por sua personalidade em busca da inovação e por sua própria história, é alguém que demandará mais protagonismo. Mas que também poderá guiar com rédeas firmes os próximos anos.

Segundo a imprensa alemã, Rangnick é um dos favoritos ao posto. Nesta semana, ele confirmou que ouviria uma proposta da DFB. “Basicamente, estou aberto a tudo. Antes de mais nada, é uma questão de momento. Estou livre agora. Este é um cargo ao qual ninguém na Alemanha é indiferente”, apontou à Sky Sport. Também afirmou que não teria problemas em trabalhar com Bierhoff, que continuará no posto de diretor de futebol além da Euro 2020. A questão seria o ex-atacante aceitar o veterano, que tende a interferir mais em seu trabalho.

Também nesta semana, Bierhoff preferiu colocar panos quentes no assunto. Disse que não há pressão para achar um novo treinador. Por enquanto, ele prefere conversar e coletar informações. Estaria aberto a diferentes possibilidades, com treinadores da Bundesliga ou mesmo trabalhando no exterior, além de considerar os funcionários das outras seleções nacionais. Contudo, se desvencilhou quando perguntado sobre Rangnick.

Caso a Alemanha opte por uma solução caseira, a alternativa mais forte seria Stefan Kuntz. O ex-atacante defendeu a seleção e foi parceiro do próprio Bierhoff na conquista da Euro 1996. Trabalhou por oito anos como dirigente no Kaiserslautern, antes de chegar à DFB em 2015. Assumiu a seleção sub-21 em 2016, no lugar de Horst Hrubesch, e conquistou o Europeu da categoria no ano seguinte. Por seu trânsito na federação, pode ganhar a preferência, embora seja um nome mais fraco perante a opinião pública. O mesmo vale para Marcus Sorg, atual assistente de Löw, que fez carreira paralela a Streich à frente da base do Freiburg.

É preciso ter em mente que o novo treinador da Alemanha lidará com sua dose de pressão. A Mannschaft precisará corresponder na Copa de 2022, depois da decepção vivida em 2018. Além do mais, as responsabilidades redobram com a Euro 2024 programada para acontecer no próprio país. Até por isso, não dá para imaginar que a DFB vá escolher um tampão. O planejamento precisa ser bem feito, o que não vinha acontecendo com a falta de brio recente sob as ordens de Löw.

Ao abrir mão de seu posto, pelo menos, Löw diminui um pouco a carga de cobranças sobre si. As críticas feitas em relação à sua renovação recente de contrato perdem sentido. Ele ganha motivação para o curto prazo, ao admitir que não tinha mais forças para provocar o entusiasmo e achar um novo caminho a longo prazo. Que o treinador não venha de bons anos, terá a chance de uma despedida digna, à altura da história que construiu. Será mais livre para as suas escolhas, sem mais ter o futuro em jogo. Deve contar com a colaboração de seus jogadores, comprometidos neste adeus. E não arrastará um processo sem perspectivas, considerando seu desgaste no cargo e as duras derrotas nos últimos anos.

Dá até para dizer que as chances na Euro aumentam, com um clima totalmente diferente diante das posturas recentes de Löw. Sua rusga com jogadores ainda influentes no país se encerra. Enquanto isso, a possibilidade de demissão deixa de ser notícia. Reconhecer o momento de dar um passo para trás faltou ao comandante nos últimos anos, mas já havia sido uma virtude em outros períodos, como nas próprias escolhas que mudaram os rumos do Nationalelf na Copa de 2014 e permitiram o título – como a volta de Phillip Lahm à lateral ou a entrada de Miroslav Klose no ataque. Desta vez, a decisão tem proporções maiores à imagem do técnico, até em retrospectiva.

O período de Löw é importante para a seleção alemã. Ele nunca foi o maior estrategista e está aquém dos outros comandantes que levaram o país a conquistar uma Copa do Mundo – Sepp Herberger, Helmut Schön, Franz Beckenbauer. Apesar disso, conduziu um ciclo competitivo e que acabou por premiar uma das gerações mais talentosas da história da Mannschaft. Löw surfou bem no momento gerado a partir de 2006 e deixou seu nome marcado ao explorar o melhor de seus jogadores, com um estilo de jogo agressivo na Copa de 2014.

Porém, Löw sofreu quando perdeu suas lideranças, assim como o próprio Hansi Flick de assistente. O desempenho na Euro 2016 tinha sido insatisfatório e foi muito pior na Copa de 2018, apegado a jogadores que não vinham rendendo. Quando quis se desprender da geração tetracampeã mundial, o treinador radicalizou demais e abriu mão de nomes que não precisava. Perdido no meio do caminho, viu as fracas campanhas na Liga das Nações servirem com símbolos de que seu tempo tinha passado. Sua manutenção no cargo era por lealdade, e não por capacidade. Os 6 a 0 da Espanha poderiam ser muito bem o ponto final. Löw ainda se segura até a Eurocopa, que traz o risco de marcar outro vexame, mas abre as portas a um adeus mais honroso.

Dentro de campo, a Alemanha não tem uma geração que se destaque tanto em comparação com outras seleções. Não é como em 2014, e a própria transição depende de referências. O treinador precisaria moldar esse processo e realizar um trabalho coletivo melhor, mas esse nunca foi seu forte. Assim, a Mannschaft ganha com a saída de cena de Löw. Não deixa de reconhecer sua importância e sua contribuição. De qualquer maneira, já era hora de olhar para frente e renovar ideias. A Euro 2020 garantirá a última consideração ao treinador. Mas com a dose de alívio por saber que a mudança vem e que não se negam mais os problemas. O legado final é esse, com um passado vitorioso que pode envelhecer melhor quando os fracassos ficarem para trás.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo