Africa

Tim Vickery: Sadio Mané transformou final da CAN de possível mancha em um triunfo inesquecível

Título de Senegal no torneio continental também pode ser comemorado na seleção brasileira de Ancelotti

No percurso da longa e gloriosa carreira de Sadio Mané, pode ser que o momento mais importante tenha acontecido neste domingo (18), quando ele trabalhou hora extra para trazer de volta ao campo os seus companheiros após uma iniciativa, incentivada pelo técnico, de abandonar a final da Copa Africana de Nações.

A revolta do time e do técnico de Senegal foi bem compreensível. No último lance dos 90 minutos, com o placar em branco, e com um gol deles recém-anulado, o VAR entrou em jogo e o juiz deu um pênalti bem duvidoso para o Marrocos.

Mas não se pode abandonar o campo assim. As consequências teriam sido desastrosas. 

O Marrocos iria ganhar o título por WO, deflagrando uma grave crise política, com a certeza de sanções fortes para o Senegal e seu técnico Pape Thiaw. Seria uma grande perturbação para a seleção de Senegal, faltando poucos meses para a Copa do Mundo mais importante na sua história.

Mané foi um herói de cabeça fria, mantendo o seu equilíbrio num momento de grande dificuldade, fornecendo uma liderança com mais qualidade que o próprio técnico.  E foi premiado, na que se declarou a sua última Copa Africana de Nações.  

O pênalti foi perdido e Senegal ganhou na prorrogação, quando Pape Gueye aproveitou uma jogada iniciada por Mané para fazer o gol da vitória. 

Sem as ações de Sadio Mané, teria uma grande mancha neste torneio. Por causa dele, fica na história como um triunfo inesquecível.

Jogadores de Senegal comemoram o gol de Gueye (Foto: Iconsport)

É importante repensar a relação com o árbitro de vídeo

Tem um assunto do final que tem que ser abordado — o papel do VAR. Lembro bem das discussões antes da implementação da coisa. Era comum ouvir — com uma ingenuidade tocante — que a tecnologia ia acabar com tudo e qualquer polêmica sobre decisões na arbitragem.  

Não dá para acreditar que tem mais uma alma viva  que ainda pensa assim. Ser árbitro de futebol é bem difícil, e vai permanecer assim mesmo com mais e mais tecnologia. Um esporte de contato abre espaço para tantas interpretações. Nunca vai existir consenso pleno sobre todas as decisões.

Dois problemas, então. Um é que o VAR é, e sempre será, incapaz de cumprir a promessa da sua implantação. Não vai acabar com a polêmica.

O outro, que os eventos do domingo deixaram claro, é que com o VAR fica mais fácil manipular resultados. Pode assistir ao vídeo quinhentas vezes, em várias velocidades, até achar uma justificativa para uma decisão desejada.

Pode ser que a única conclusão sensata seja que a gente vai ter que se acostumar com imperfeições. E segue a bola.

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Título de Senegal também pode ser comemorado na Seleção

No futebol contemporâneo, tem pouca coisa mais ingênua do que ligar demais para os resultados de amistosos internacionais. 

Esses jogos pagam o preço de um calendário superlotado, normalmente viram um desfile de substituições, e servem para juntar o pessoal e dar uma olhadinha nisso ou aquilo em preparação para as coisas mais sérias.

Mas um pouco de contexto ajuda. Para uma seleção africana, amistoso contra o Brasil não é amistoso — trata-se de uma oportunidade rara de se medir contra os gloriosos pentacampeões do mundo, o time que, cheio de afrodescendentes, sempre vem servindo como inspiração.

Para o Senegal, então, foi importante enfrentar o Brasil em Londres em novembro. E para o Brasil também.  

Carlo Ancelotti tem pouco tempo para achar o seu time. Cada jogo é uma aprendizagem. Mandou um time para o campo com uma dúvida importante, contra um adversário tão forte quanto Senegal, imponente física e tecnicamente, dá para arriscar? Podemos iniciar o partido com quatro na frente — Estêvão, Matheus Cunha, Vinicius e Rodrygo — deixando somente Casemiro e Bruno Guimarães no meio?

E a resposta, naquele dia, foi ‘sim.’  O Brasil ganhou o jogo no primeiro tempo, criando muitas oportunidades, sofrendo pouco e vencendo por 2 a 0 — a única derrota sofrida por Senegal em muito tempo, e um resultado que parece melhor ainda à luz da Copa Africana de Nações.

Estêvão comemora gol no amistoso contra Senegal (Foto: Iconsport)
Estêvão comemora gol no amistoso contra Senegal (Foto: Iconsport)

Claro, a Copa do Mundo não vai acontecer em condições parecidas com aquelas de Londres em novembro. O calor vai ser intenso, ajustes vão ser necessários. Mas se Sadio Mané tem motivos para se alegrar com o que aconteceu agora na África, Carlo Ancelotti também tem.

Foto de Tim Vickery

Tim VickeryColaborador

Tim Vickery cobre futebol sul-americano para a BBC e a revista World Soccer desde 1997, além de escrever para a ESPN inglesa e aparecer semanalmente no programa Redação SporTV. Foi declarado Mestre de Jornalismo pela Comunique-se e, de vez em quando, fica olhando para o prêmio na tentativa de esquecer os últimos anos do Tottenham Hotspur

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