Seleção: As lições que o fracasso de Marrocos na Copa Africana de Nações deixa a Ancelotti
Vice-campeã continental, seleção marroquina pode ser pedra no sapato para o Brasil na Copa do Mundo 2026
Desde o sorteio que definiu o chaveamento da Copa do Mundo, Marrocos despontou como rival mais difícil da seleção brasileira no Grupo C. E a campanha da seleção marroquina na Copa Africana de Nações só comprovou esta tese, quase uma verdade absoluta na chave que tem também Escócia e Haiti.
País anfitrião, Marrocos fez uma campanha impecável até amargar o vice-campeonato para Senegal diante de seu torcedor no último domingo (18, em um jogo caótico que transformou em crise o que parecia ser uma caminhada até o título.
Marrocos perdeu para Senegal por 1 a 0, com gol marcado por Pape Gueye já nos acréscimos. Antes disso, Senegal havia ameaçado sair de campo por conta da marcação de um pênalti para Marrocos após consulta no VAR. Brahim Díaz desperdiçou a cobrança de forma vexatória ao tentar uma cavadinha.
Final à parte, a trajetória da seleção comandada por Walid Regragui ao longo dos sete jogos da competição é um recorte fiel do que a Seleção deve esperar no Mundial.
Marrocos não só sofre pouquíssimos gols, como também dá pouco espaço para que seus adversários criem oportunidades. A fortaleza defensiva impera nesta equipe. A final, porém, transformou um cenário de amplo favoritismo em crise, com forte pressão sobre o treinador a cinco meses da Copa, como a Trivela conta abaixo.
Com Hakimi longe dos 100%, Brahim Díaz assumiu protagonismo
Marrocos passeou pela primeira fase sem contar com os 100% da forma física de seu principal jogador. Achraf Hakimi, do PSG, se apresentou à seleção nacional distante de seu ideal, após se recuperar de uma lesão no tornozelo esquerdo.
Considerado o melhor do mundo de sua posição, o lateral-direito foi opção no banco de reservas nas três partidas da fase de grupos. Mas ele só entrou, de fato, no final da vitória por 3 a 0 sobre Zâmbia, quando atuou por 26 minutos. Depois, foi titular na vitória por 1 a 0 sobre Tanzânianas oitavas de final e seguiu na equipe desde então
Vale dizer que o substituto na posição, Noussair Mazraoui, do Manchester United, não só supriu a sua ausência, como foi eleito para a seleção da primeira fase da competição. Com o retorno de Hakimi, ele passou a ser improvisado na lateral esquerda. Mas o grande destaque de Marrocos foi outro jogador.
Se Hakimi, a grande estrela, foi preparado apenas para as fases decisivas do torneio continental, Brahim Díaz assumiu o protagonismo deixado por ele, apesar do pênalti perdido na decisão. O camisa 10 marcou gols nos cinco primeiros jogos de Marrocos na CAN. Inclusive, foi dele o gol decisivo contra a Tanzânia nas oitavas e também um dos gols da vitória por 2 a 0 sobre Camarões na semi.
Díaz só passou em branco no empate em 0 a 0 com a Nigéria na semifinal, com classificação nos pênaltis e na grande final, com o vexame do pênalti perdido. Apesar de todo o protagonismo, ele encerra a CAN com a mancha deste lance e lágrimas constrangidas ao receber o prêmio de artilheiro da competição.
Mas vale dizer que o meia-atacante do Real Madrid é o primeiro jogador em 50 anos a marcar gols em três partidas seguidas da Copa Africana de Nações por Marrocos. Ele igualou o feito da lenda do futebol local Ahmed Faras, em 1976.

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“Rei da Bicicleta” é grande novidade
A principal novidade apresentada por Marrocos na Copa Africana das Nações é muito mais uma (fortuita) casualidade do que uma mudança planejada pelo técnico Walid Regragui.
Ayoub El Kaabi virou o titular na referência do ataque devido a uma lesão do antigo dono da posição, Hamza Igamane, do Lille, da França. O centroavante acostumado a empilhar gols pelo Olympiacos, da Grécia, não só correspondeu à altura, como o fez em grande estilo.
Se Marrocos avançou no torneio até a final, muito se deve a ele. Não apenas porque ele marcou dois gols pelos Leões do Atlas na competição, mas pela forma com que ele os marcou.
El Kaabi balançou as redes duas vezes na Copa Africana de Nações em lances de bicicleta. Não à toa, ele é chamado de “Rei da Bicicleta”, por ser acostumado a este tipo de acrobacias. Mas seu papel na equipe vai bem além dos golaços.
Na referência do ataque, El Kaabi é um jogador de bastante mobilidade. Sai da área para participar das construções com toques curtos e de primeira e gosta de atacar o espaço deixado pelos zagueiros adversários.
O golaço marcado contra Zâmbia é exemplo disso. El Kaabi atrai a marcação de três defensores, que ficam sem reação com seu toque de primeira. Na sequência, ele invade a área e finaliza com liberdade às costas dos marcadores.

Solidez defensiva é ponto forte
É inegável que o ponto forte de Marrocos é a disciplina tática e a sua solidez defensiva. Furar o bloqueio marroquino será o grande desafio do Brasil de Carlo Ancelotti na Copa do Mundo de 2026.
A campanha na Copa Africana de Nações é grande prova disso. Marrocos sofreu apenas dois nos sete jogos da competição. Um deles, aliás, foi marcado de pênalti, por Mali, no empate em 1 a 1 entre as duas equipes na fase de grupos. O outro, o do vice na grande final, já na prorrogação.
E chama atenção, também, como Marrocos concede pouco espaço para que os adversários levem perigo. Nos sete jogos da competição, os rivais tiveram um total de apenas 10 chances criadas e de 39 finalizações contra o gol de Marrocos.
Ou seja, os rivais criaram apenas 1,42 chance por partida e tiveram em média pouco mais de cinco finalizações por jogo.
Estilo pragmático e vice-campeonato transformam favoritismo em crise
Os números da competição mostram uma supremacia de Marrocos sobre seus adversários. A equipe teve em média 57% de posse de bola em seu caminho até a grande final, com uma média de 15,4 finalizações e três chances claras por jogo.
Até mesmo na derrota na final, a equipe teve mais finalizações do que Senegal. Foram 21, contra 14 da equipe adversária.
Mas a verdade é que o estilo de jogo adotado pelo técnico Walid Regragui desperta bem mais críticas do que elogios. Marrocos se tornou um pouco “refém” de seu favoritismo e do quarto lugar na última Copa. E o fato de ser o país-sede da Copa Africana de Nações só aumentou a pressão.
Conforme analistas da imprensa marroquina, se criou a sensação de que Marrocos deveria vencer seus adversários com maior superioridade. As atuações da equipe ao longo da CAN foram de irregularidade, com problemas no decorrer das partidas.
Por mais que a equipe tenha conseguido os resultados necessários para avançar de fase e que os números digam o contrário, as cobranças da imprensa local e dos torcedores são por um estilo de jogo menos pragmático e mais ofensivo.
A gota d’água foi a atuação na derrota na grande final. Regragui foi cobrado por jornalistas e chegou a ser questionado se iria entregar o cargo.
— Estamos verdadeiramente desapontados por todos os torcedores marroquinos. Quando se tem um pênalti no último minuto, a vitória parece estar muito perto. É uma pena — disse o treinador.

Zagueiro de Marrocos é quem dita o jogo
As críticas também recaem sobre a posse de bola improdutiva da equipe, que costuma trocar muitos passes no campo defensivo, sem progredir ao ataque. E talvez o maior sintoma de que Marrocos tenha enfrentado dificuldades ao longo da CAN esteja em uma estatística curiosa.
O zagueiro Nayef Aguerd chegou à final como o terceiro jogador que mais acertou passes em toda a competição. De acordo com o “SofaScore”, são 354 passes certos em seis jogos na CAN, com um total de 89% de aproveitamento.
Um alerta claro aos atacantes brasileiros sobre quem é o jogador que deve ser pressionado para roubar a bola e criar chances de gol.


