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Denúncias da Anistia Internacional no Catar constrangem Fifa

Escolher o Catar como sede da Copa do Mundo de 2022 continua causando problemas à Fifa desde que a decisão foi anunciada. Está cada vez mais difícil justificar realizar a Copa do Mundo no país. Primeiro, foram as denúncias de compra de votos. Depois, o problema que surgiu era de saúde, já que o calor no país é insano em junho e julho (leia mais nos links abaixo). Trabalho escravo foi a denúncia mais recente e certamente a mais grave de todas. Isso sem falar na reclamação de um jogador francês, que diz estar preso no país, porque não recebe o visto porque cobrou atraso de salários na justiça. O que surgiu nessa semana foi mais uma denúncia sobre as péssimas condições dos trabalhadores do país, desta vez em relatório da Anistia Internacional. E o cerco vai se fechando.

O relatório que a Anista Internacional fez das condições de trabalho no Catar é preocupante. Entre as denúncias, estão abusos que já tinham sido falados, como más condições sanitárias no ambiente de trabalho e nos alojamentos e condições de trabalho insalubres. O relatório, que pode ser visto neste link, ainda acusa o país de ter um sistema que permite abusos e prende trabalhadores, porque a regra do país obriga que o trabalhador só possa mudar de emprego ou deixar o país com a autorização do empregador.

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Esse problema de autorização do empregador faz o jogador Zahir Belounis ficar preso no país, depois de entrar na justiça cobrando salários atrasados. O caso ganhou ainda mais repercussão quando Belounis enviou uma carta aberta a Zinedine Zidane e Pep Guardiola, embaixadores muito bem pagos pelo Catar para divulgar o Mundial no país. A Federação de Futebol do Catar nega as acusações de Belounis veementemente. Disse que ele recebe salários regularmente e que não tem nenhum impedimento para deixar o país. A FIFPro, sindicato dos jogadores de futebol no mundo, enviou uma carta à Fifa pedindo que tomasse uma posição. A entidade alegou que nada poderia fazer porque o jogador usou o procedimento errado ao entrar na justiça em vez de procurar a Câmara de Resolução de Conflito (sigla DRC, em inglês).

O problema fica mais grave quando uma entidade com repercussão forte como a Anistia Internacional faz críticas duras às condições do país. “É simplesmente imperdoável que em um dos países mais ricos do mundo, muitos trabalhadores migrantes estejam sendo cruelmente explorados, privados de seus salários e tentando duramente sobreviver”, disse Salil Shetty, secretário-geral da Anistia Internacional.

“As empresas de construção e as autoridades do Catar estão em falta com os trabalhadores migrantes. Empregadores no Catar têm exibido um desrespeito terrível para com os direitos humanos básicos desses trabalhadores. Muitos estão aproveitando um ambiente permissivo e aplicando negligentemente as proteções trabalhistas para explorar os trabalhadores da construção”, continuou o secretário-geral. “Nossas investigações indicam um nível alarmante de exploração no setor da construção, no Catar. A Fifa tem o dever de enviar uma firme mensagem pública de que não vai tolerar abusos de direitos humanos em obras relacionadas à Copa do Mundo”, disse Salil Shetty.

Um dos depoimentos colhidos pela entidade de defesa de direitos humanos é assustador. “Por favor, diga-me – há alguma maneira de sair daqui? Estamos ficando completamente loucos”, disse um trabalhador da construção civil oriundo do Nepal. A Anistia Internacional revela que chegou ao relatório depois de realizar 210 entrevistas com trabalhadores migrantes do setor da construção, com 101 entrevistas individuais entre outubro de 2012 e março de 2013. Ainda segundo a entidade, 22 empresas envolvidas na construção civil foram contatadas entre reuniões, telefonemas e correspondência escrita. Foram ao menos 14 reuniões com representantes do governo do Catar, incluindo o Ministério das Relações Exteriores, do Interior e do Trabalho.

Fifa segura o Catar, mas a corda está cada vez mais roída

É mais um incômodo para a Fifa, que já fez um figurão do futebol defender o país do Oriente Médio no início do mês. Franz Beckenbauer, lenda do futebol alemão e mundial e consultor especial do Comitê de Futebol da Fifa, disse no início de novembro que nunca tinha visto escravidão no Catar nas muitas visitas que fez ao país. A declaração veio no dia 5 de novembro. O relatório da Anistia Internacional foi publicado nesta segunda, dia 18.

Joseph Blatter esteve no Catar no mês passado para se reunir com o xeique Tamim bin Hamad bin Khalifa al-Thani e que cobraria providências. Depois da reunião, disse sentir garantia que essa questão foi bem resolvida. Até por isso, Blatter disse que não havia qualquer chance de mudar a sede da Copa de 2022. “Não há nenhuma dúvida que a Copa do Mundo de 2022 será organizada no Catar, com todas as partidas jogadas no Catar. A decisão foi tomada no dia 2 de dezembro de 2010 e não será revertida”, afirmou o presidente da Fifa no dia 9 de novembro.

É, o problema é que Blatter não contava com mais esse golpe. Já são tantos problemas com o Catar que fica cada vez mais difícil acreditar que o Mundial de fato ocorrerá lá. Ainda mais com Blatter dizendo que não há chance da Copa ser tirada de junho/julho para ser disputada em janeiro, por causa das Olimpíadas de inverno. Assim, a questão do calendário se torna um problema grave que será difícil de resolver.

Talvez se os dirigentes soubessem que a Fifa estaria fritando em óleo quente por essa escolha, teriam escolhido Austrália ou Estados Unidos e evitariam essas dores de cabeça.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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