Ásia/OceaniaFiscalize Catar 2022

Sem salários, jogador entra na justiça e perde a liberdade

Imagine se você começa a não receber os salários que tem direito no seu trabalho, em um longínquo país do exterior, resolve entrar na justiça por isso e tem o seu passaporte bloqueado? Foi o que aconteceu com Zahir Belounis, jogador de futebol franco-argelino, de 33 anos. Há quase dois anos, ele é impedido de deixar o Catar, país que receberá a Copa do Mundo de 2022. Depois de ameaçar greve de fome e pensar em suicídio, o jogador recebeu uma proposta indecorosa: se abrir mão dos salários atrasados, pode deixar o país.

“Eu não tenho escolha”, disse o jogador em entrevista à Bloomberg. “Se eu quero a minha saída, eu tenho que assinar o documento de término de contrato retroativo”, disse. O contrato proposta é que o contrato tenha data de término no dia 1º de fevereiro, de forma que ele perderia os meses de lá até aqui em salários. Justo?

Confusão jurídica

Segundo o jogador, ele foi transferido para o Al-Markhiya, clube da segunda divisão, e parou de receber os salários. Em fevereiro, então, ele entrou com um processo na justiça. Quer indenização e mais os dois anos de salários atrasados dos cinco anos que tem de contrato. Segundo o documento, o clube pode encerrar o contrato com o jogador depois de três anos, caso notifique o jogador com 60 dias de antecedência – algo que o jogador afirma que não aconteceu.

O problema é que há uma dúvida sobre com que clube Belounis tem contrato, o Military Sports Association ou o El Jaish. Isso porque o jogador foi contratado em 2007 pelo Military Sports Association, então na segunda divisão. Em 2010, ele assinou um contrato de cinco anos com o clube e jogou a temporada 2010/11. O time subiu para a primeira divisão e se tornou um outro clube, o El Jaish. Por isso, há um imbróglio jurídico em relação a quem tem contrato com o jogador.

Sem jogar e sem poder sair do país, o jogador mora em uma casa fornecida por seu empregador. Leva e busca os filhos na escola e diz que ao colocá-los para dormir, chora como uma criança.

Intervenção do presidente da França

A embaixada francesa e até mesmo o presidente da França, François Hollande, intervieram na situação, mas não conseguiram libertar o jogador. Hollande esteve no Catar em junho e conversou com o jogador e tentou resolver a situação. Falou com o Emir Sheikh Hamad Bin Khalifa Al Thani. O governo catariano prometeu que o visto seria emitido no dia 21 de outubro. Passada a data, o jogador continua sem poder deixar o país e o caso segue sem solução.

Dificuldades para trabalhadores estrangeiros

O Catar é um país composto basicamente por estrangeiros. São 80% da população de dois milhões de pessoas. Segundo a legislação do país, a maioria dos trabalhadores precisa da permissão dos seus empregadores para deixar o país. A dificuldade de jogadores deixarem países do Oriente Médio não é nova, mas as acusações em relação às condições de trabalhadores de forma geral, no Catar, tem aumentado com os holofotes que uma sede de Copa do Mundo gerou.

Em setembro, o jornal inglês Guardian levantou suspeitas de trabalho escravo no Catar, inclusive em obras da Copa. Esse é um problema grave que, inclusive, gerou muita pressão no Comitê Organizador da Copa de 2022 para tomar providências. Organizações que tratam sobre o trabalho no mundo pediram investigações mais a fundo no país e surgiram mais denúncias sobre supostos maus tratos aos trabalhadores.

Belounis não deixa o Catar desde maio de 2012 e seu empregador só aceitará que ele deixe novamente o país caso aceite um acordo para abrir mão do dinheiro que tem a receber. O jogador reluta em aceitar, mas começa a pensar na possibilidade.

Chantagem?

Sem solução para o caso, ele ameaçou uma greve de fome, mas foi aconselhado por seus advogados que isso só pioraria o caso. Pensou em se matar. “Eu não fiz nada errado e não deveria estar aqui”, afirmou Belounis à CNN. “Eu encontrei com o presidente francês, François Holland, e ele me disse que tudo estará bem”, continuou. “Não é um caso de justiça. É um caso de direitos humanos sendo violados. Eu perdi a minha liberdade e eu não fiz nada de mau. Minha vida é um desastre, um pesadelo”, confessou Belounis. Segundo informou a CNN, o jogador teria recebido a promessa de ganhar o visto de saída no dia 21 de outubro. Não aconteceu.

A Federação de Futebol do Catar levantou suspeita sobre o jogador. “Nossos registros mostram que Zahir Belounis recebeu salários de um dos nossos clubes filiados, Al Markhiya, quando ele jogou a segunda metade da temporada 2011/12. No final da temporada, Zahir Belounis entrou em contato conosco por salários não pagos do Al Markhiya. A Federação imediatamente agiu e, depois de análise e investigação que mostrou que ele estava certo, o jogador recebeu total compensação”, diz uma nota da entidade. “Contudo, no caso alegado com o El Jaish, Zahir Belounis não entrou em contato conosco, mesmo já tendo experimentado a eficiência de fazer isso quando seu pedido é legítimo”, diz ainda o comunicado.

O jogador vive das próprias economias, mas diz que elas estão acabando. Ele não se exercita mais para manter a forma de jogador. “Eu parei a minha carreira”, afirmou. “Eu não fiz nada de errado”. O jogador vendeu a sua mobília e está vivendo em uma barraca na sua própria casa, esperando para poder deixar o país.

A situação, segundo ele, é tensa e estressou a sua família e seus filhos. Por isso, ele está pensando em assinar o acordo. Mesmo sem concordar. Acha que talvez valha mais não receber e poder voltar a ter uma vida normal do que continuar brigando nessas condições.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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