Mundial de Clubes

Vexame machuca e traz lições ao Real Madrid, mas Mundial deixa boas notícias a Xabi Alonso

Merengues tiveram trajetória com altos e baixos, marcados por inovações táticas do novo técnico e velhos problemas

Claro que tomar 4 a 0 do PSG, em um banho de futebol, trouxe muita frustração ao Real Madrid na eliminação do Mundial de Clubes. Velhos problemas, vistos sob comando de Carlo Ancelotti por toda temporada 2024/25, finalizada sem títulos, se repetiram e ligam o alerta novamente.

A primeira competição com Xabi Alonso como técnico, no entanto, não foi só de más notícias para o time espanhol e trouxe várias novidades interessantes — talvez até mais do que negativas. A Trivela reuniu o que de bom e de ruim os Merengues tiram da Copa do Mundo de Clubes.

Xabi Alonso tem acertos coletivos interessantes início no Real Madrid

Versatilidade tática

As duas primeiras atuações do Madrid, empate com Al-Hilal e vitória por 3 a 1 sobre o Pachuca, vieram sem empolgação e com muitas ressalvas. O novo treinador optou por manter o 4-3-3 que Ancelotti usou por muito tempo, mas o time cedeu muito espaço e prendeu demais Vinicius Júnior como ponta.

A partir da última rodada da fase de grupos, porém, Alonso relembra os tempos de Bayer Leverkusen e retoma o esquema com três zagueiros. O time não só faz a melhor atuação ofensiva no triunfo por 3 a 0 sobre o RB Salzburg, como é seguro defensivamente e potencializa uma série de jogadores.

O mesmo esquema é utilizado contra a Juventus, vitória por 1 a 0 que poderia ter sido muito maior. Frente ao Borussia Dortmund, mesmo que tenha escalado os mesmo jogadores, posicionou Tchouámeni no meio-campo ao invés da zaga e montou um 4-3-1-2 para outro bom jogo, apesar de um final caótico que culminou em um 3 a 2.

Foi essa mesma formação, porém, no massacre do Paris, mas com duas mudanças forçadas por suspensão e lesão.

Real Madrid de Xabi Alonso Foto: (Imago)
Real Madrid de Xabi Alonso Foto: (Imago)

Soube se impor contra adversários mais fracos

As três vitórias em sequência contra Salzburg, Juventus e Dortmund mostraram a faceta que devemos esperar do Real com Alonso: um time dominante com a bola, intenso e que ceda poucas oportunidades ao adversário.

Em uma estrutura com bola próxima do 3-2-5, os alas ocupavam os corredores e davam a liberdade para os atacantes e meias, no caso Vinicius Júnior, Gonzalo García, Bellingham e Arda Güler, se movimentarem, monopolizando as ações ofensivas e criando muitas chances.

De quebra, conseguia pressionar e impedir ataques às costas da defesa. O resultado foi 270 minutos sem sofrer gols até que os alemães marcaram dois nos acréscimos do segundo tempo.

Potencializou jovens

Outro ponto que Alonso fazia no Leverkusen e era esperado que fosse replicado no Real Madrid era potencializar os jovens. E assim foi, de forma destacada, com três deles: Gonzalo Garcia, Fran Garcia e Arda Güler.

O atacante de 21 anos, cria da base do clube espanhol, só tinha seis jogos no time principal e quase dobrou sua marca com o novo técnico. Foi o responsável pelo primeiro gol do time no Mundial e repetiu a dose mais três vezes, além de uma assistência. Gonzalo, comparado ao ídolo Raúl, trouxe uma característica diferente de atacante no elenco merengue na ausência de Kylian Mbappé e ganhou moral na disputa com Endrick por posição.

O outro García, Fran, mais velho (25), vinha de temporadas abaixo e muito criticado quando substituia Mendy. Dessa vez foi diferente, sendo essencial em roubadas de bola e no jogo ofensivo à esquerda, dando liberdade para Vini atuar por dentro. Foi nessa função que deu uma assistência e marcou um gol.

Güler já era uma enorme promessa, mas como um meia típico camisa 10. Com Alonso, porém, o turco virou meio-campista, quase um volante, e trouxe uma característica de passe de média e longa distância que não tem igual no time.

Huijsen, contratado a peso de ouro do Bournemouth, poderia entrar nesse grupo, mas o zagueiro já jogava muito na Inglaterra e seguiu o nível com a camisa branca. Sua ausência, inclusive, foi sentida na eliminação, pois tinha sido expulso no jogo anterior e seu substituto, Raúl Asencio, entregou o primeiro gol.

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Novo técnico dos Merengues, no entanto, não consegue corrigir falhas antigas

No maior jogo, Real Madrid mostrou passividade sem bola

A temporada que finalizou para os Merengues ficou marcada por não ter vencido o Barcelona em nenhum dos quatro confrontos (o que explica o ano sem títulos importantes) e o massacre do Arsenal nas quartas de final da Champions League.

Em boa parte dessas partidas, chamou atenção a forma apática que o time de Madri tratou o jogo sem bola. Deixava o adversário rodar a posse, sem o incomodar ou, quando subia a pressão, era de forma pouco coordenada e deixava espaços.

Esses problemas, praticamente não vistos contra Juventus e Dortmund (times em prateleiras abaixo no futebol europeu), ficaram evidentes no massacre parisiense. O time francês saia jogando com facilidade contra uma pressão fraca de Vinicius Júnior e Kylian Mbappé e assim marcou o terceiro gol, além de criar algumas chances.

O francês em si é um capítulo à parte. A passividade dele sem bola é vista há muito tempo e foi um dos motivos de Luis Enrique dizer que o PSG seria melhor sem ele — o que se tornou uma verdade absoluta. Foi justamente no único jogo do camisa 9 como titular que o Real foi atropelado. Não que sem ele as coisas pudessem ser muito diferentes, mas houve um peso.

Tudo isso mostra que, caso queira desbancar o Barcelona na Espanha e os vários concorrentes na Europa, Alonso precisa fazer o time ser muito mais equilibrado.

— Queremos construir uma equipe que jogue como uma unidade e ter esse sentimento e esse espírito — disse o comandante merengue após a eliminação.

— Há muito espaço para melhorar, há muitas coisas que queremos fazer melhor. Precisamos ser autocríticos, isso [a derrota] vai nos mostrar coisas importantes para o futuro, para podermos competir em um nível muito melhor do que mostramos hoje — completou em outra fala.

Vinicius Júnior segue em rotação abaixo

Além de ter perdido muito no jogo sem bola na última temporada, por vezes displicente na marcação pressão, Vinicius Júnior segue abaixo ofensivamente. O belo gol e a assistência genial contra o Salzburg foram um oásis em meio há meses de futebol irregular.

O brasileiro dificilmente tem vencido seus embates individuais com dribles (somou apenas 11 fintas certas, segundo o “SofaScore”) e tem mostrado abatimento quando as coisas não vão bem em campo.

As arrancadas que causavam suspiro e deixavam adversários para trás com facilidade estão cada vez mais raras e é outro trabalho que Xabi precisa se atentar, buscando retomar o nível do atacante da seleção brasileira que foi o melhor do mundo pela Fifa em 2023/24.

— Não acho que Vini precise ser recuperado. Eu o vejo bem, mas todos queremos incentivá-lo para que seja decisivo. Ele tem essa qualidade e esse futebol diferente e imprevisível. Quando consegue desfrutar e se conectar com sua essência, ajuda muito a sua equipe — disse o técnico após a estreia na competição.

Vinicius Júnior em partida do Real Madrid
Vinicius Júnior em partida do Real Madrid (Foto: Imago)

Alonso tomou decisões questionáveis contra PSG

Mbappé, com um problema intestinal, ficou fora dos primeiros quatro jogos e só entrou no segundo tempo contra o Dortmund, marcando o último gol. A sombra do francês no banco é muito grande e Alonso optou por não deixá-lo lá novamente, o escalando em um trio com Vini e Gonzalo. Não deu certo.

O trio, fechando o corredor central, dava muito espaço para o PSG atacar pelos lados e deixava os laterais no mano a mano contra os rápidos e habilidosos Doué e Kvaratskhelia. O técnico demorou a corrigir essa falha, colocando García para recompor o corredor posteriormente, mas já era tarde.

O ideal era escolher um ou outro atacante, falha que poderia ter sido consertada com a entrada de Rodrygo, mas o brasileiro permaneceu no banco por todo o jogo.

Na defesa, sem Alexander-Arnold, machucado, e Huijsen, suspenso, foi obrigado a improvisar Valverde na lateral e colocar o inseguro Asencio, abrindo espaço para o time francês explorar o lado direito. Não tinha opções, mas a boa entrada de Militão, em campo após oito meses na recuperação de uma lesão no joelho, traz o questionamento se o brasileiro não poderia ter começado o jogo.

Ainda, porém, é cedo. Alonso está conhecendo o elenco, o que esperar de cada jogador em cada contexto e essa leitura tende a melhorar com o decorrer da temporada. Após as férias, encurtadas por chegar na semifinal da Copa do Mundo, o time estreia por LaLiga em 19 de agosto.

— Vou embora com certezas. Esta partida, este campeonato, me disseram muitas coisas sobre o que somos e sobre o que precisamos melhorar. Saio com uma ideia formada para a temporada que vem, por causa dos jogadores que vamos recuperar. Este é o último jogo de 24/25 e, em agosto, começaremos 25/26, que será um pouco diferente. Partimos do zero — finalizou o técnico.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius AmorimRedator

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.

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