República Tcheca aposta nos clubes locais e, mesmo sumida da Copa, vai à sexta Euro seguida

Desde o fim da Tchecoslováquia, a República Tcheca só disputou uma vez a Copa do Mundo, mesmo número de sua vizinha Eslováquia. Participação digna de meros figurantes, eliminados ainda na primeira fase no grupo que também tinha Itália, Gana e Estados Unidos. O que não condiz com a força que os tchecos continuam apresentando dentro da Europa. Afinal, desde então, o país não perdeu uma única edição sequer da Eurocopa. Somente outros seis países estiveram presentes em todas as edições do torneio a partir de 1996. E talvez nem todos se garantam no torneio da França, algo que os tchecos confirmaram por antecipação. Com a vitória por 2 a 1 sobre a Letônia, é apenas a terceira seleção a assegurar vaga na competição em 2016.
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A classificação da República Tcheca veio em um grupo razoavelmente delicado. Exceção feita a Letônia e Cazaquistão, todos os outros concorrentes vinham fortes para a briga pelas duas vagas diretas à Eurocopa. Vivendo excelente momento, a Islândia só depende de um empate em casa contra os cazaques para se confirmar. Enquanto isso, Turquia e Holanda prometem uma briga de foice pelo lugar na repescagem, ainda mais depois da excelente vitória dos turcos por 3 a 0 neste domingo. Mas, apesar de todo o equilíbrio, os tchecos desperdiçaram apenas cinco pontos em oito rodadas do qualificatório. Venceram seis jogos, perdendo apenas na visita aos islandeses – e, mesmo assim, de virada por 2 a 1.
Olhando para o papel, a seleção treinada pelo técnico Pavel Vrba nem chama tanta atenção assim. O único destaque internacional é o capitão Petr Cech, esteio de uma defesa que nem apresenta números tão impressionantes assim nas Eliminatórias da Euro. No mais, apenas coadjuvantes do Campeonato Alemão, do Suíço, do Dinamarquês ou da segunda divisão do Inglês. Pode parecer lugar comum, mas o segredo dos tchecos está no conjunto. Especialmente na base montada em suas principais equipes locais – algo que não acontecia desde a Euro 1996, embora já se indicasse como tendência a partir de 2012.

O Viktoria Plzen se tornou figurinha carimbada na Champions. Nos últimos cinco anos, são quatro participações nas fases de grupos das competições europeias, duas na Champions. Ser figurante europeu vale um bom dinheiro, que se reverte na hegemonia nacional e na contratação de bons jogadores. Aliada à boa capacidade em revelar e descobrir talentos, forma uma potência no Leste Europeu. No último ano, dez jogadores do Plzen foram convocados à seleção. Isso sem contar os que já saíram do clube, como o meio-campista Vladimir Darida, destaque da equipe nacional que defende o Hertha Berlim. Um panorama que também tem clara influência de Vrba, treinador que levou o clube ao topo do país, permanecendo no comando entre 2008 e 2013 – justamente quando chegou à equipe nacional.
Entretanto, na esteira do sucesso do Viktoria Plzen, outras forças do país tiveram que correr atrás do prejuízo. E o Sparta Praga também recupera um pouco mais de seu protagonismo, neste contexto. O clube tradicional não disputa a fase principal da Champions desde 2005/06, mas faz seu dinheiro nas competições europeias: desde então, são sete participações na fase de grupos da Liga Europa, incluindo a atual edição. A atual convocação tem cinco jogadores dos gigantes da capital, incluindo a principal referência no ataque, David Lafata. Além disso, antigas forças locais continuam cedendo jogadores, como o Slovan Liberec e o Slavia Praga.
Em um elenco cheio de jogadores locais, jovens que ainda não vingaram como o esperado e veteranos (Rosicky, Sivok e Plasil ainda seguem no radar da seleção), a República Tcheca chama bem menos atenção que seus próprios times nas últimas Eurocopas. Falta o talento da geração de prata de 1996, com Nedved, Poborsky, Kucka, Miroslav Kadlec e Berger – que, apesar de jovem, nunca foi além disso. Ou mesmo a tarimba do bronze em 2004, quando se juntaram aos mais veteranos Cech, Rosicky, Koller, Baros e Smicer. Ainda assim, esta será a sexta participação desde a separação do país, o dobro dos tempos de Tchecoslováquia – que, em compensação, esteve em oito Copas e faturou a Euro em 1976.
Se os tchecos criaram por si uma tradição na Euro, a atual geração já ajuda a sustenta-la com a mera classificação. Dependendo do chaveamento, considerando a consistência do time, dá para esperar até mesmo a classificação aos mata-matas, por mais que a qualidade individual do time não pareça suficiente para leva-lo além disso. Contudo, o passo além seria mesmo voltar à Copa após 12 anos – o que, em um grupo com a Alemanha favoritíssima para a única vaga direta, parece outra vez missão bem mais complicada.


