Leste Europeu

O adeus de uma lenda de Kiev: Após 30 anos de dedicação ao Dynamo, Shovkovskiy se aposenta

Oleksandr Shovkovskiy deixará grandes lembranças ao futebol. Não foi um goleiro tão constante, é verdade. Ainda assim, viveu grandes momentos e se manteve entre os principais de sua posição na Ucrânia. Mesmo sem transmitir confiança sob as traves a todo o tempo, isso nunca abalou sua liderança. Nunca abalou a sua importância ao país e a sua principal potência, o Dynamo Kiev. O veterano completou 30 anos de clube em 2016, 23 deles como profissional, recordista absoluto em total de partidas. Além disso, defendeu a seleção por 18 anos, até 2012. Nesta semana, ele disse basta. Aos 41 anos, Shovkovskiy anunciou a sua aposentadoria.

Para se entender a grandeza de Shovkovskiy, não devemos nos limitar ao que aconteceu em campo. Ainda que ele tenha conquistado tanto. O arqueiro chegou à equipe principal em anos de transição, logo após o fim da União Soviética. Tempos em que o Dynamo passou a dominar a Ucrânia e também seguia fazendo bons papeis no cenário continental. Era, inclusive, o arqueiro no timaço que eliminou o Real Madrid e só parou diante do Bayern de Munique nas semifinais da Champions 1998/99. Seus ex-companheiros Andriy Shevchenko e Serhiy Rebrov, ícones daquela equipe, hoje em dia são técnicos. Naquela campanha, aliás, Shovkovskiy viveu alguns de seus melhores momentos, fechando a meta em várias partidas.

Nestes longos anos em que foi profissional, Shovkovskiy cansou o braço de tanto erguer taças. Apenas no Campeonato Ucraniano foram 14. Mais dez da Copa da Ucrânia e seis da Supercopa. Individualmente, foi eleito nove vezes o melhor goleiro ucraniano do ano. Em 1999, figurou entre os indicados à Bola de Ouro, embora não tenha recebido votos. E ainda faturou o prêmio de melhor goleiro da Liga Europa 2010/11.

Paralelamente ao sucesso no clube, Shovkovskiy também se tornou um bastião na seleção ucraniana. Disputou 92 partidas pela equipe nacional, entre os cinco maiores do país desde a sua independência. E trabalhou duro para o tão sonhado objetivo: a primeira Copa do Mundo. O camisa 1 estava na Alemanha, titular em toda a campanha no Mundial de 2006. Inclusive, teve papel decisivo diante da Suíça, eleito o melhor em campo ao pegar dos pênaltis. Ajudou a colocar os ucranianos entre os oito melhores do Mundial.

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Ao longo de tantos anos, Shovkovskiy também construiu uma reputação respeitadíssima junto aos torcedores. Em 2015, durante uma confusão em jogo pela Liga Europa, chegou mesmo a separar os ultras ucranianos que brigavam. E sua voz não se limita apenas aos gramados: graduado em jornalismo, o veterano é bastante engajado à política local. Durante os conflitos civis que abalaram o país a partir de novembro de 2013, o veterano se posicionou a favor de uma abertura maior à Europa, algo que vinha sendo reprimido pelo governo. Inclusive, chorou publicamente ao falar sobre as vítimas da violência nos protestos, pregando o pacifismo. Mesmo o outro lado do entrave ouviu com respeito as palavras do capitão.

Em campo, viveu seus momentos derradeiros de glória nas duas últimas temporadas. Foi importante na conquista do bicampeonato nacional pelo Dynamo, após cinco anos hegemônicos do Shakhtar. E protagonizou um épico na decisão da Copa da Ucrânia de 2015. O goleiro defendeu dois pênaltis contra os rivais de Donetsk e terminou a noite carregado nos braços da torcida, que invadiu o campo. Ergueu mais um troféu, um dos mais notáveis em sua brilhante carreira, de quem fez tanto para Kiev e para a Ucrânia.

“Tudo tem um início e um fim. Meus anos como profissional se encerram. Em todo esse tempo, fui feliz em defender as cores do Dynamo. Eu tive muitas vitórias, muitas derrotas, grandes triunfos e amargos revezes. Sou feliz por minha carreira, mas é hora de dizer adeus, agradecer ao clube e aos torcedores por tudo”, declarou, em sua carta de despedida publicada pelo site do Dynamo Kiev. Uma lenda.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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