O adeus a Ciro Blazevic, o grande mentor do futebol da Croácia e um dos idealizadores do 3-5-2
Falecido aos 87 anos, Ciro Blazevic teve trabalhos muito expressivos, em especial quando liderou a seleção da Croácia à semifinal da Copa do Mundo de 1998
“O Técnico dos Técnicos”. O apelido de Miroslav Blazevic sugere o tamanho de sua importância ao futebol da Croácia. E, mesmo assim, não a dimensiona totalmente. “Ciro”, como era conhecido, é indubitavelmente o maior treinador da história croata. Seus feitos, todavia, refletem além. Por clubes, seu melhor momento aconteceu em 1982, quando encerrou o jejum de 24 anos do Dinamo Zagreb no Campeonato Iugoslavo. Foi uma revolução tática a promovida pelo técnico, que auxiliou a introduzir o 3-5-2 como esquema tático no esporte. Já de 1994 a 2000, Blazevic dirigiu a seleção da Croácia. Levou o país pela primeira vez à Eurocopa e também à Copa do Mundo, com a histórica terceira colocação no Mundial de 1998. Um feito de simbolismo fortíssimo dentro de um país recém-independente.
E se as grandes conquistas servem de marcas a Blazevic, não dá para enquadrá-lo apenas em rótulos. O técnico não deve ser tratado como um mero “estrategista” por auxiliar na concepção de um novo sistema tático ou por conduzir uma seleção extremamente técnica às semifinais de uma Copa. Ciro era na verdade um personagem único, algo corroborado por vários de seus jogadores e por quem mais conviveu com ele. Figura carismática e também falastrona, dava entrevistas espirituosas e protagonizava inúmeros causos. Já nos vestiários, imperava um clima positivo de quem sabia manejar seus jogadores com uma habilidade ímpar. Blazevic se orgulhava de não ter visto uma briga sequer na seleção croata, mesmo em seis anos de trabalho, em tempos de emoções afloradas por toda a história recente do país. Criava um senso de “família”, e essa capacidade humana era considerada a principal virtude.
Mesmo tratado como um símbolo do nacionalismo da Croácia, do qual era apoiador no sentido mais político do termo, Blazevic conseguiu construir pontes além das fronteiras. Dirigiu também a Bósnia numa campanha histórica que quase rendeu uma vaga na Copa do Mundo, foi querido no principal clube de Kosovo e dizia que seu sonho era treinar o Estrela Vermelha – algo que obviamente nunca aconteceria, ainda mais depois da independência. Blazevic foi um personagem impossível de limitar, porque ele mesmo não viu limites para si. Assim, deixa uma nação órfã e outros tantos fãs de futebol pesarosos ao falecer nesta quarta-feira, aos 87 anos, vítima de um câncer na próstata. É impossível considerar o sucesso do futebol moderno da Croácia, incluindo as campanhas igualmente fantásticas de 2018 e 2022, sem pensar em seu amplo legado ao país na sua transição pós-independência.

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Miroslav Blazevic nasceu em Travnik, no antigo Reino da Iugoslávia, em 10 de fevereiro de 1935. Embora a cidade ficasse no centro do atual território da Bósnia-Herzegovina, o jovem era de uma família católica de origem croata. Durante a Segunda Guerra Mundial, o garoto perdeu dois irmãos, mortos no conflito após se alistarem à Ustase, o braço dos nazistas nos Bálcãs. Sem travas para tocar no assunto, Ciro condenava publicamente tal posicionamento político dos irmãos e repudiava os movimentos neonazistas croatas, embora isso não o afastasse das ideias nacionalistas após a independência.
Após a guerra, aos 16 anos, Blazevic foi mandado para um seminário pela mãe, para se tornar padre. Apaixonou-se por uma freira e logo viu que não tinha vocação ao sacerdócio. Seguiu por outros caminhos. Sua ligação com o esporte se iniciou cedo, mas não necessariamente com o futebol. Inicialmente, Blazevic participava de competições de esqui. Chegou a ser inclusive campeão iugoslavo em categorias juvenis. Entretanto, vingou mesmo nos gramados e seguiu carreira como ponta direita de talento limitado no antigo Campeonato Iugoslavo.
Ao longo de sua trajetória como futebolista, Blazevic vestiu as camisas de clubes importantes, mas sem grande relevância neles. Após começar no NK Travnik, rodou no início de sua carreira por Dinamo Zagreb, Lokomotiva Zagreb e Sarajevo. Teve um pouco mais de importância nos quatro anos em que defendeu o Rijeka. Já a partir de 1963, quando completou 28 anos, o iugoslavo mudou-se à Suíça. Jogou por Sion e Moutier, até que uma lesão no joelho encerrou sua carreira de maneira prematura. Foi no próprio país que ele continuou vivendo e desenvolveu sua carreira como treinador, a partir da metade final da década de 1960.
Como um jovem obstinado e empenhado em emplacar na nova carreira, Blazevic conseguiu escalar degraus rapidamente na pirâmide do futebol suíço. O destaque no pequenino Vevey, que levou da terceira para a segunda divisão, o permitiu voltar ao Sion como treinador. O ex-atacante havia participado da inédita conquista do clube na Copa da Suíça em 1965 e repetiu o feito na casamata, ao ser campeão também em 1974. Foram cinco anos à frente dos alvirrubros, com bons resultados, a ponto de ser convidado para dirigir interinamente a seleção da Suíça em duas partidas durante o ano de 1976. Naquele mesmo período, assumiu o Lausanne e comandou os alviazuis por três temporadas. Não levou taças, mas fez as médias de público se multiplicarem, com torcedores ávidos por acompanharem o comandante carismático.
O retorno de Blazevic à Iugoslávia aconteceu a partir de 1979. O Rijeka abriu as portas para seu ex-jogador e o desempenho foi digno, especialmente pela campanha na Recopa Europeia. A equipe alcançou as quartas de final do torneio continental em 1979/80, eliminada apenas por uma forte Juventus. Já em 1980/81, Ciro ganhou o convite para dirigir o Dinamo Zagreb. Apesar da importância histórica do clube croata na estrutura do futebol iugoslavo desde os anos 1920, a equipe atravessava uma seca na liga nacional que ultrapassava mais de duas décadas. O impacto do técnico à frente dos alviazuis seria enorme.

Blazevic ainda não emplacou de imediato no Dinamo, com uma primeira temporada que rendeu apenas a quinta colocação no Campeonato Iugoslavo. No entanto, já era um time que atuava num ritmo muito intenso. Mais do que isso, o treinador conduziu uma renovação no elenco e principalmente uma inovação tática. Diante das peças que tinha em mãos, Ciro achou mais funcional redesenhar sua escalação dentro de um (para a época) pouco usual 3-5-2. Um volante era recuado para dar mais consistência à defesa, enquanto os laterais se adiantavam para garantir amplitude e profundidade aos alviazuis. O sistema não apenas impulsionou os resultados, como também se tornou tendência – por contribuições de outros pioneiros, como o argentino Carlos Bilardo e o alemão Sepp Piontek.
“Eu estava na vanguarda. Todo mudo jogava no 4-4-2 e eu inventei o 3-5-2. Em 1982, eu ganhei o Campeonato Iugoslavo com o Dinamo Zagreb com o 3-5-2. E, depois, os alemães pegaram isso. Surgiu completamente do nada. Tive que inventar o sistema porque tinha um tipo diferente de jogador no meu time. Você precisa de organização básica e coesão entre as linhas. Quando o adversário tem a bola, todas as três linhas precisam estar a 20 metros de distância, e você faz grupos de jogadores que atacam os adversários. Quando estamos com a bola, mais e mais expansão das linhas, mais e mais amplitude. Não há profundidade sem amplitude”, refletiu Blazevic em conversa com o jornalista Jonathan Wilson, no jornal The Guardian.
Segundo Wilson, autor do livro Pirâmide Invertida, Blazevic costumava fazer troça de quem dizia que outra pessoa concebeu o 3-5-2 – com uma dose de humor e também de autossuficiência. Chegava a afirmar que Bilardo era “idiota” e garantia que não foi influenciado por ninguém para redesenhar o Dinamo. Mas, apesar da vaidade de quem não abria mão da “paternidade” do esquema, também apontava que a compreensão era mais importante do que o próprio sistema.
“Para tomar uma decisão sobre formações e táticas, você precisa levar em conta três fatores: 1) as características dos jogadores à disposição; 2) a tradição; 3) o encaixe dos fatores 1 e 2 no sistema de jogo. Só um técnico ruim chega a um clube e diz ‘vou jogar com tal sistema’, sem respeitar os atributos dos jogadores do elenco. Só um técnico ruim se torna uma vítima do sistema”, apontou Blazevic, no livro ‘Pirâmide Invertida’. “Atualmente falamos mais sobre conceitos – um estilo de jogo ofensivo ou defensivo – do que sobre sistemas. Hoje você lida com a constante transformação dos atletas. Jogadores da linha de defesa avançam, jogadores da linha de ataque recuam e defendem. Tudo se tornou muito fluído. Tudo acontece num espaço de trinta metros: praticamente todos devem jogar em todas as posições e saber fazer tudo”.
Dentro de campo, o Dinamo Zagreb se tornou uma equipe surpreendente. Iniciava as partidas num ritmo muito forte e não demorava a construir uma vantagem de um ou dois gols. A partir disso, os laterais recuavam e os alviazuis passavam a contar com uma linha de cinco atrás. Fazia a diferença O sistema defensivo era liderado pelo líbero Velimir Zajec, jogador da seleção iugoslava de ótimo senso de liderança. Petar Brucic e Dragan Bosnjak eram os laterais responsáveis por dar mais capacidade no apoio. Já na frente, Marko Mlinaric era importante na armação e Snjezan Cerin foi o grande artilheiro do Dinamo no período, enquanto Zlatko Kranjcar se tornou um diferencial, ao retornar do serviço militar obrigatório.

O Dinamo Zagreb conquistou o Campeonato Iugoslavo com sobras em 1981/82, ao somar cinco pontos de vantagem sobre Estrela Vermelha e Hajduk Split. O bicampeonato escapou por dois pontos na temporada seguinte, mas os alviazuis faturaram a Copa da Iugoslávia em decisão contra o Sarajevo. Todavia, a estadia vitoriosa de Ciro não seria tão longa, depois que o técnico entrou em conflito com os dirigentes do Dinamo. Chegaria o momento de retornar à Suíça, agora à frente do Grasshopper. O time havia acabado de ser bicampeão nacional, mas o lendário técnico Hennes Weisweiler faleceu de maneira repentina no verão de 1983. Blazevic assumiu a dura missão de suplantá-lo e alcançou o tri em 1983/84. Nomes frequentes da seleção local, como Marcel Koller e Heinz Hermann, estavam entre seus destaques.
A partir de então, Blazevic rodou por várias equipes sem se firmar. Chegou a dirigir o Prishtina, bastião de Kosovo no Campeonato Iugoslavo. Também passou novamente pelo Dinamo Zagreb, onde teve a chance de lidar com alguns de seus futuros pupilos na seleção, entre eles Zvonimir Boban e Robert Prosinecki. Com Prosinecki, aliás, havia uma relação de amor e ódio que logo transpareceu. Logo Blazevic entrou em atrito com o adolescente e impediu que o clube assinasse contrato com a promessa de 18 anos, que saiu para se transformar em ídolo do Estrela Vermelha. O reencontro anos depois na equipe nacional também teria seus problemas, inclusive com a decisão de barrar Prosinecki na semifinal da Copa do Mundo de 1998.
Após deixar a Iugoslávia em 1988, Blazevic teve sua única experiência em uma das cinco principais ligas europeias, à frente do Nantes. Os Canários não passaram de posições intermediárias na tabela do Campeonato Francês, mas o iugoslavo auxiliou diretamente na afirmação de vários talentos. Futuros campeões do mundo com os Bleus despontaram naquele período, incluindo Didier Deschamps, Marcel Desailly e Christian Karembeu. Também foi um momento de eclosão de alguns dos maiores ídolos dos auriverdes, como Patrice Loko e Reynald Pedros. O técnico deixou o cargo em 1991. Posteriormente, em 1995, o croata seria detido por duas semanas pelas autoridades francesas após a descoberta de um caso de manipulação de resultados em 1989 envolvendo também o Olympique de Marseille, mas acabou liberado após pagar fiança. A acusação era de que o Nantes facilitara uma partida aos marselheses.
Blazevic dirigiu o PAOK por uma temporada, antes de retornar a Zagreb em 1992. Era um momento fundamental para a Croácia, que havia declarado sua independência da Iugoslávia e ainda convivia com conflitos. Blazevic era um símbolo do futebol local, especialmente pelo título de 1981/82, e reassumiu o Dinamo. A lista de conquistas se ampliou com o troféu no recém-criado Campeonato Croata, em 1992/93, e também com a Copa da Croácia de 1993/94. Os laços com a talentosa geração formada no país se tornavam mais fortes, com outros jogadores que logo pintaram na seleção. E, em 1994, diante da admissão da Croácia nas entidades internacionais de futebol, Ciro foi convidado para se tornar o primeiro técnico da seleção. O veterano era próximo do presidente Franjo Tudman e sua escolha soava natural, respaldado também pela visão política.
Dirigir a Croácia naquele momento não era uma questão simples. O país saía da guerra e a seleção auxiliava na construção de uma identidade além do futebol. Blazevic dirigia esse processo com uma série de destaques que brilhavam em ligas mais badaladas da Europa, mas muitos deles expatriados em decorrência do conflito. E mesmo que sua fama até aquele momento fosse especialmente pela capacidade de repensar o jogo através de seu Dinamo Zagreb, a equipe nacional reforçaria bem mais a inteligência de Ciro para manejar um grupo de futebolistas e extrair o melhor através de sua enorme capacidade de gestão humana. Sobretudo, para ampliar a motivação e conseguir um futebol intenso dos ótimos jogadores à disposição. O técnico fundamentou seu trabalho, claro, no 3-5-2 que tinha ajudado a conceber e que virou febre no futebol mundial durante a virada dos anos 1980 para os 1990.

Os primeiros compromissos da Croácia, em 1994, indicavam uma equipe competitiva. Os axadrezados ganharam da Espanha no Mestalla e empataram com a Argentina em Zagreb às vésperas da Copa do Mundo. Já o primeiro compromisso oficial aconteceu nas eliminatórias da Euro 1996. Era um grupo que reunia adversários tradicionais e outros recém-independentes – Itália, Polônia, Eslovênia, Estônia, Ucrânia e Lituânia. Os alvirrubros causaram sensação numa campanha de sete vitórias e apenas uma derrota. Só os ucranianos foram capazes de bater os croatas, mas também tomaram um 4 a 0 no Maksimir. O grande cartão de visitas aconteceu nos 2 a 1 sobre a Itália em Palermo, com dois gols de Davor Suker. Os novatos carimbaram o passaporte rumo à Eurocopa.
A Croácia também fez bonito na fase final da Euro 1996. A equipe ficou na segunda colocação de seu grupo. Ganhou da Turquia e da então campeã Dinamarca, ambas eliminadas, com o único tropeço na rodada final contra Portugal – quando Blazevic poupou forças. A eliminação aconteceu nas quartas de final, diante da Alemanha, que terminaria com o troféu continental. O técnico chegou a ser criticado por “provocar” o duelo com os alemães ao priorizar os reservas contra os portugueses, mas, apesar dos rumores de que poderia ser demitido, o próprio presidente Tudman interferiu em sua permanência. Mesmo com as críticas, era uma boa largada aos croatas, que seguiram sob as ordens de Ciro e também avançaram à Copa do Mundo de 1998. Os axadrezados ficaram atrás da Dinamarca no grupo das Eliminatórias, mas passaram pela Ucrânia na repescagem. Não havia limites para os pupilos de Ciro na seleção.
O Mundial de 1998 fez o resto do planeta abrir os olhos para o futebol da Croácia, numa propaganda e tanto para o país com poucos anos de independência. O sucesso se notou de imediato. Os croatas avançaram na segunda colocação do Grupo H, com vitórias sobre Jamaica e Japão, antes da derrota num duelo contra a Argentina em que os dois times tiraram o pé. Nas oitavas, a qualidade dos balcânicos se referendou com o triunfo por 1 a 0 diante da Romênia. Isso até que as quartas de final providenciassem um reencontro com a Alemanha, com ares de revanche.
Na ocasião, Ciro Blazevic preparava um discurso que comparava a história da Segunda Guerra Mundial para segurar Oliver Bierhoff no ataque da Alemanha. Uma ligação direta do presidente Franjo Tudman, pedindo a vitória, aumentou a tensão. O treinador logo se deu conta do tamanho de seu nervosismo e dos seus jogadores, com “faces verdes”, de quem “pressentia que morreria”. Foi quando buscou a vontade de vencer no âmago dos comandados, como ele recontava.
“A explicação da minha teoria demorava uns sete ou oito minutos e eu sabia que não conseguiria manter a atenção deles por tanto tempo. Não falei com eles sobre a minha teoria. Eles estavam ficando cada vez mais verdes. Então, amassei os papéis, joguei tudo no chão e, após sete minutos, eu ainda não tinha dito nada a eles. Dane-se a teoria. Eu apenas disse: ‘Vocês precisam ir lá fora e morrer hoje pela bandeira croata e por todas as pessoas que sacrificaram suas vidas’. Nada sobre Bierhoff, nada. E nós vencemos por 3 a 0. Você precisa entender a psicologia dos jogadores. Precisa ter esse tipo de relacionamento com o time, assim pode transmitir seu estado de alma”, rememorou Blazevic, ao livro ‘Pirâmide Invertida’.

A vitória sobre a Alemanha levou a Croácia a uma gigantesca semifinal contra a França. Os Bleus venceram por 2 a 1, com a participação de vários pupilos de Blazevic no Nantes. Mas não foi isso que diminuiu o orgulho dos croatas, depois com a conquista do terceiro lugar sobre a Holanda. É um time declamado de cor por muita gente no país, que serviu de inspiração a gerações e também como marco da identidade. Nomes como Davor Suker, Zvonimir Boban e Robert Prosinecki ficaram no imaginário. Blazevic era exatamente o responsável por transmitir o senso de unidade ao time e, assim, dizer mais ao restante dos croatas.
Apesar do enorme moral, Blazevic ficou apenas mais dois anos à frente da Croácia. A seleção não conseguiu a vaga na Euro 2000 ao ser eliminada justamente pela Iugoslávia, em tensos empates nas eliminatórias. O técnico não perdeu o emprego de imediato, mas deixou o cargo com o início morno nas Eliminatórias para a Copa de 2002. Depois disso, Ciro não voltou a treinar a seleção croata. Todavia, sua influência seguiu muito clara, inclusive pelos antigos jogadores que dirigiram a equipe nacional depois dele – como Zlatko Kranjcar, Slaven Bilic, Igor Stimac e Niko Kovac, além do próprio Suker, que se tornou presidente da federação nacional.
Ao se despedir da Croácia, Blazevic voltou a se tornar um andarilho do futebol. Sua primeira empreitada aconteceu à frente do Irã, mas não conseguiu classificar os persas para a Copa do Mundo de 2002, derrotado na repescagem diante da Irlanda. Depois disso, o técnico rodou bastante pelos Bálcãs. Evitou o rebaixamento com o Osijek, antes de retornar ao Dinamo e faturar o Campeonato Croata em 2002/03, num time estrelado por Ivica Olic. A personalidade forte voltou a gerar atritos internos e antecipou sua saída.
Blazevic dirigiu o Mura, da Eslovênia, e depois o Varteks, onde Zlatko Dalic, atual treinador da Croácia, era seu assistente. O veterano tentou um ousado movimento do Hajduk Split, histórico rival de seu Dinamo, que não deu muito certo. Também teve nova passagem pela Suíça, à frente do Neuchâtel Xamax, e auxiliou na ascensão de Mario Mandzukic no ataque do NK Zagreb. Nesta época de tantas andanças, chegou inclusive a se envolver mais diretamente com a política e se lançou como candidato independente à presidência da Croácia, mas sem intenções de votos tão expressivas. Anos depois, também participou do pleito local em Zagreb e teria um cargo na prefeitura.
Já aos 73 anos, Blazevic voltou a ganhar certo reconhecimento internacional a partir de 2008, quando assumiu o comando de sua Bósnia-Herzegovina natal. O nome do croata não foi necessariamente bem recebido pelos torcedores bósnios, enquanto as cisões na federação também atravancavam a situação, com a demissão de seu antecessor pouco digerida internamente. Mas, apesar da fortíssima ligação com a seleção da Croácia e com a independência do país, Ciro conseguiu se tornar um elemento conciliador à frente da equipe nacional bósnia. Seu carismas prevaleceu, especialmente com os resultados acontecendo em campo. Logo bosníacos e bósnios-sérvios passariam a apoiá-lo.

Não seria uma passagem tão longa de Blazevic, com apenas 17 partidas. Apesar disso, a Bósnia fez um papel bem digno nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2010. Num grupo duríssimo, o time estrelado por Edin Dzeko ficou atrás da Espanha, mas deixou Bélgica (com duas vitórias sobre os Diabos Vermelhos) e Turquia pelo caminho. Os bósnios estavam à beira do inédito Mundial, mas sucumbiram na repescagem com duas derrotas por 1 a 0 diante de Portugal. Blazevic saiu logo depois daqueles resultados, mas deixou as bases para a classificação da Bósnia à Copa de 2014, o momento mais importante da nação no futebol. Muitos de seus jogadores compuseram o elenco no Mundial do Brasil.
Apesar da idade, Blazevic continuou ligado ao futebol depois disso. Trabalhou na China, primeiro no Shanghai Shenhua, antes de comandar a seleção olímpica do país, sem alcançar os Jogos de Londres em 2012. Dirigiu também o Mes Kerman no Irã e o Sloboda Tuzla na Bósnia, além de trabalhar novamente no Campeonato Croata por NK Zagreb e Zadar. Seu último emprego foi em 2015, aos 80 anos. Era hora de finalmente descansar, com um legado concluído e bastante expressivo. Ao longo dos últimos anos, o treinador já tinha superado um câncer no pâncreas e um melanoma.
Depois da despedida, Blazevic continuou presente ainda nos noticiários, seja com suas entrevistas espirituosas, seja com as homenagens recebidas. A federação croata, presidida por Davor Suker, foi capaz de realizar um digno tributo ao mestre mais recentemente, ao nomeá-lo “técnico honorário” da seleção nacional. Todavia, as energias de Ciro precisaram se concentrar em seu tratamento contra um novo tumor, após descobrir o câncer na próstata mais recentemente. Nesta quarta-feira, Blazevic faleceu dois dias antes de completar 88 anos. Deixou esposa, três filhos, cinco netos e uma legião de torcedores agradecidos por suas façanhas.
Miroslav Blazevic ocupa um lugar tão notável na história do futebol da Croácia que não será surpresa nenhuma se, nos próximos dias, o principal estádio do país for rebatizado. O Maksimir leva o nome do bairro em Zagreb onde está localizado, mas dá para dizer que até demorou para esse reconhecimento se direcionar ao ex-treinador. As marcas de suas ideias estão onipresentes no futebol local e, de certa maneira, em tantos outros cantos do mundo pela influência que exerceu. A seleção croata atingiu um status tão relevante em pouco tempo graças ao seu principal professor. E isso não é importante apenas ao esporte local, mas a toda uma noção de país.



