Leste Europeu

Zlatko Kranjcar liderou grandes feitos como treinador, mas também foi um atacante idolatrado e o primeiro capitão da Croácia

Durante coletiva de imprensa, Niko Kovac não segurou as lágrimas. O atual comandante do Monaco chorou ao lembrar de Zlatko Kranjcar, seu antigo treinador, falecido nesta semana. Kovac foi capitão da seleção croata sob as ordens do veterano na Copa de 2006. Virou um símbolo no momento mais importante do técnico. “Não é fácil, porque tivemos momentos maravilhosos juntos. Era uma pessoa magnífica acima de tudo, sempre feliz, e logicamente foi um técnico que me transmitiu ideias. Estamos todos tristes pela situação. Espero que ele descanse em paz”, relembrou.

À beira do campo, Kranjcar era conhecido por sua cordialidade e pela maneira como ouvia os jogadores, chegando ao sucesso especialmente na liga nacional. Já dentro de campo, o velho craque também marcou época. Foi um atacante implacável nos anos 1970 e 1980, entrando para história por seus muitos gols no Dinamo Zagreb e no Rapid Viena, além de ter usado a braçadeira de capitão na primeira partida da Croácia em 1990. Um nome célebre nos Bálcãs, que faleceu com apenas 64 anos, vítima de doença não especificada. O choro sentido de Kovac dimensiona bem o carinho por Kranjcar, uma figura muito querida entre os croatas, que pavimentou seu caminho à história do futebol.

Zlatko Kranjcar nasceu em Zagreb e iniciou sua trajetória no esporte quando tinha apenas nove anos de idade, levado às categorias de base do Dinamo Zagreb. Na época, o clube aceitava apenas garotos acima dos dez anos, mas seu treinador preferiu abrir uma exceção porque viu um talento especial naquele menino. E dentro de um dos times mais importantes da Iugoslávia, a promessa teria excelente preparação, empilhando gols desde cedo. Aprendeu bem e chegou até mesmo a ser gandula na decisão da Copa das Cidades com Feiras, torneio que daria origem à Liga Europa, que o Dinamo conquistou em 1967 ao bater o Leeds United.

A estreia de Kranjcar no time principal aconteceu na temporada 1973/74, com apenas 17 anos. Saiu do banco justo num clássico contra o Hajduk Split, grande força nacional naquele momento. Diante de 60 mil torcedores, logo deu mostras de seu talento. E não demorou para que ele caísse nas graças da torcida. Uma de suas partidas mais marcantes aconteceu em 1975, aos 19 anos. O prata da casa conduziu a vitória por 2 a 0 sobre o Estrela Vermelha, num ferrenho duelo pelo Campeonato Iugoslavo. A popularidade era tão grande que “Cico” viraria até mesmo boneco, bastante popular entre as crianças croatas. Apesar disso, ainda levou um tempo para que os títulos viessem.

Por marcar gols com frequência, Zlatko Kranjcar era visto como um centroavante no início de sua carreira profissional. No entanto, o atacante preferia jogar um pouco mais recuado e aproveitar os espaços. Assim, exibia melhor suas principais virtudes. O jovem tinha facilidade para jogar com os dois pés, muito habilidoso na condução da bola e nos dribles em velocidade. Também tinha boa impulsão e se destacava nas jogadas aéreas. Além disso, contava com um chute fatal, que explicava sua efetividade e sua adoração no Maksimir.

Os números de Kranjcar foram melhorando à medida em que ele ganhava rodagem. E, na virada dos anos 1970 para os 1980, Cico se consolidou como um dos principais artilheiros do Campeonato Iugoslavo. Quase sempre registrava dois dígitos de gols na competição. O Dinamo, ainda assim, aguardava o momento em que voltaria a erguer taças, numa seca que durava desde 1969. Seria exatamente o atacante um dos responsáveis por recolocar o clube no topo.

O Dinamo Zagreb encerrou o jejum de 11 anos em 1980, ao conquistar a Copa da Iugoslávia. A equipe contava com diversos jogadores que construiriam uma carreira sólida – como o goleiro Tomislav Ivkovic, o capitão Srecko Bogdan e o meia Marko Mlinaric. O herói daquela campanha seria exatamente Kranjcar, autor de cinco gols na competição. Cico anotou o tento decisivo no primeiro jogo da final, determinando a vitória por 1 a 0 sobre o Estrela Vermelha em Zagreb. Já no Marakana, o empate por 1 a 1 garantiu a taça aos croatas. O Dinamo repetiria a dose em 1983, faturando novamente a Copa da Iugoslávia, agora em cima do Sarajevo.

O grande feito da chamada “geração dourada”, ainda assim, foi a conquista do Campeonato Iugoslavo em 1981/82. O Dinamo Zagreb não levava o troféu desde 1958 e encerrou o incômodo tabu com uma campanha notável, terminando cinco pontos à frente do Estrela Vermelha e do Hajduk Split – seus principais algozes nos anos anteriores. Zlatko Kranjcar jogou apenas a metade final daquela campanha, porque precisou cumprir o serviço militar obrigatório naquele momento. Ainda assim, seria decisivo, ao acumular 12 gols em apenas 17 aparições pelo campeonato. Aquele troféu preenchia a lacuna deixada após a derrota no Campeonato Iugoslavo de 1978/79. Naquele ano, o Dinamo perdeu o troféu no saldo de gols para o Hajduk Split, e também na justiça, mesmo depois do Rijeka escalar um jogador irregular no confronto com o time de Zagreb.

Apesar do sucesso no Dinamo, Zlatko Kranjcar jogou pouco pela seleção da Iugoslávia. Foram apenas 11 partidas disputadas, se tornando um pouco mais frequente nas listas a partir da Copa do Mundo de 1982. No ano seguinte, porém, o atacante entraria em conflito com o técnico de seu clube, Miroslav Blazevic. Apesar de ter uma proposta do Estrela Vermelha, preferiu fazer as malas e atuar fora do país. Assinou com o Rapid Viena. Deixou o Dinamo com 256 gols em 556 partidas, sendo 98 tentos em 261 aparições pelo Campeonato Iugoslavo. Anos depois, seria eleito para a seleção de todos os tempos formada pelo clube.

Na Áustria, Zlatko Kranjcar se afastou de vez da seleção. Em compensação, virou um dos atacantes mais letais da Europa Central. Num clube tradicional e com sua representatividade nas competições continentais, o iugoslavo empilhou gols. Sua transferência foi facilitada pela presença de Otto Baric, treinador de origem croata que havia comandado o ídolo no próprio Dinamo, antes de assumir o Rapid em 1982. É considerado um dos maiores treinadores do futebol austríaco, com sete títulos nacionais. Dois deles tiveram a estrela de Cico no ataque.

O Rapid Viena foi bicampeão austríaco em 1986/87 e 1987/88. Em ambas as ocasiões, Kranjcar apareceu como um dos artilheiros dos alviverdes. A equipe incluía outros nomes de destaque, como Michael Konsel, Heribert Weber e Andreas Herzog. Naqueles anos, também ergueria mais três taças da Copa da Áustria e mais três da Supercopa Austríaca. Além disso, teria sua pontinha de protagonismo internacional, com uma das melhores campanha do país na história das copas europeias.

Em 1984/85, o Rapid Viena disputou a decisão da Recopa Europeia. Os austríacos eliminaram uma série de adversários fortes: bateram Besiktas, Celtic, Dynamo Dresden e Dinamo Moscou. O problema viria na decisão, contra o badalado Everton de Howard Kendall. Kranjcar, titular nas nove partidas da campanha, até deu a assistência para Hans Krankl balançar as redes aos austríacos. Todavia, os Toffees venceram por 3 a 1 em Roterdã e levaram o troféu continental. Pelo Rapid, Cico disputou os torneios da Uefa em sete temporadas consecutivas.

A despedida de Zlatko Kranjcar no Rapid Viena aconteceu em 1990/91. O atacante acumulou 132 gols em 269 partidas pelo clube, maior artilheiro estrangeiro da agremiação. E aquela temporada ainda permitiria um orgulho ao veterano: ele foi o primeiro capitão da seleção croata. Entrou em campo para liderar o país em guerra, que anunciara sua independência meses antes. Em 17 de outubro de 1990, a Croácia venceu os Estados Unidos por 2 a 1, diante de 34 mil torcedores no Maksimir. O capitão ainda esteve presente na vitória por 2 a 0 sobre a Romênia em dezembro de 1990. Anotou um dos gols, em partida que marcou a estreia de Zvonimir Boban e Davor Suker pela nova seleção.

Neste momento, Zlatko Kranjcar estava à beira da aposentadoria. O atacante ainda defendeu o St. Pölten por meia temporada, antes de pendurar as chuteiras. E foi na Áustria que iniciou sua carreira como treinador, já em 1991, à frente do Austria Klagenfurt. Seu retorno à Croácia aconteceu em 1992, dirigindo inicialmente o Segesta. E a volta do velho ídolo ao Dinamo, então chamado de Croatia Zagreb, não tardaria.

Kranjcar conquistou dois títulos croatas no clube onde era lenda. O Croatia Zagreb faturou o troféu em 1996 e repetiu a dose com o treinador em 1998, às vésperas da histórica campanha do país na Copa do Mundo. Cico dirigia alguns destaques daquela equipe nacional, como Drazen Ladic e Robert Prosinecki, além de ter comandado outros ídolos da agremiação, incluindo o artilheiro Igor Cvitanovic e o antigo companheiro Marko Mlinaric. Mark Viduka também foi seu pupilo no Maksimir. Foi com Kranjcar, além do mais, que o Croatia Zagreb disputou a fase de grupos da Champions League pela primeira vez, em 1998/99.

De qualquer maneira, o maior feito de Zlatko Kranjcar como treinador no país aconteceu em 2001/02, campeão pelo pequenino NK Zagreb. É o único título de elite do clube, acostumado a faturar apenas a segunda divisão. Aquela era a primeira vez que uma equipe quebrava o duopólio de Dinamo e Hajduk desde a independência da Croácia. Dentro de campo, Ivica Olic despontava como destaque daquela formação.

Levar o NK Zagreb para o topo teve grande peso para Zlatko Kranjcar dirigir a seleção da Croácia a partir de 2004 – substituindo exatamente Otto Baric após a Eurocopa. O treinador confirmaria a terceira presença seguida do país numa Copa do Mundo, apesar da queda logo na primeira fase em 2006. Entre seus pupilos, se destacavam nomes como o capitão Niko Kovac, Darijo Srna, Dado Prso, Ivica Olic e Luka Modric. Ainda assim, certamente Zlatko teve um gosto especial por comandar Niko, seu filho e um dos jovens destaques daquela geração, mesmo que seu potencial não tenha sido totalmente atingido.

A partir de então, Zlatko Kranjcar rodou por diversos cantos do planeta como treinador. Chegou a dirigir a seleção de Montenegro, mas foi demitido por problemas com álcool, enquanto passou sem muito sucesso pelo Dinamo Zagreb em 2016. Seus principais feitos aconteceram no Irã, onde conseguiu levar o Sepahan ao título nacional em 2012. Também dirigiria a seleção iraniana sub-23, em empreitada rumo às Olimpíadas de 2020, por mais que tenha deixado o cargo antes de disputar o torneio qualificatório na Ásia. Este foi seu último trabalho. Aos 64 anos, Zlatko Kranjcar faleceu relativamente jovem, sobretudo por aquilo que ainda poderia contribuir ao futebol. Ao menos, deixou seu nome marcado no esporte e, sobretudo, na memória de torcedores orgulhosos por seus gols ou seus títulos erguidos.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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