Leste Europeu

O que Lucescu toca (na Ucrânia) vira ouro: o Dynamo Kiev reconquista a liga depois de cinco anos

A vitória no clássico contra o Shakhtar Donetsk tinha encaminhado o título, mas neste domingo o Dynamo Kiev pôde se proclamar novamente campeão ucraniano. Os alviazuis golearam o Inhulets por 5 a 0, num resultado mais que suficiente para sacramentar a conquista após cinco anos de hiato. O troféu encerra um período hegemônico do Shakhtar nas temporadas recentes e exalta um dos capítulos mais singulares do Campeonato Ucraniano. Afinal, esta será para sempre uma taça atípica do Dynamo: aquela conseguida sob as ordens de Mircea Lucescu, justamente o homem que atrapalhou a dinastia do clube no país.

A história de Lucescu está diretamente atrelada ao Shakhtar. Não foi o primeiro treinador campeão nacional com o clube, mas foi aquele que transformou o time de Donetsk em força dominante na Ucrânia e interrompeu a hegemonia do Dynamo, além de conquistar a Liga Europa. O engrandecimento do Shakhtar precisa ser contado pelo trabalho realizado pelo romeno, pela mescla que se criou entre jogadores locais e brasileiros, pela forma como o investimento feito no clube resultou em equipes bastante relevantes ao futebol no Leste Europeu. Todavia, nesta temporada, quatro anos depois de deixar Donetsk, Lucescu aceitou o desafio de dirigir o Dynamo. E seu objetivo acabou cumprido com louvores.

A maior resistência contra Lucescu veio dos próprios ultras do Dynamo, insatisfeitos com a escolha do antigo desafeto – não só por títulos, mas por declarações nos tempos de Shakhtar. O veterano ensaiou uma renúncia, mas foi convencido pelos donos do clube a seguir em frente. A conquista da Supercopa da Ucrânia em cima do Shakhtar, em sua estreia oficial no mês de agosto, indicava que a temporada poderia ser prolífica. E seria, mesmo sem investimentos significativos no elenco ou mesmo com um surto de COVID-19 no meio do campeonato. Mesmo que os próprios torcedores não dessem o braço a torcer para admitir o sucesso do novo treinador.

Lucescu conhece o Campeonato Ucraniano como pouquíssimos. E isso explica o desempenho regular do Dynamo, tomando a liderança mesmo com a derrota no clássico do primeiro turno. Já no segundo turno, quando o troféu já parecia suficientemente encaminhado, os alviazuis se aproximaram ainda mais da conquista ao ganharem o confronto direto com o Shakhtar no Estádio Olímpico de Kiev. A consagração de Lucescu na capital se tornava questão de tempo, o que se confirmou com a vitória neste domingo, combinada à derrota do Shakhtar em seu compromisso. Faltando mais três rodadas, a vantagem dos líderes é de 13 pontos.

O elenco do Dynamo não é daqueles que saltam aos olhos. Lucescu conta com alguns destaques da seleção local, sobretudo jovens, e com alguns valores estrangeiros. Nenhum grande astro, como aqueles de seus tempos de Donetsk em tantas oportunidades. O próprio elenco atual do Shakhtar é mais equilibrado e mais renomado. Não teve, porém, a competência vista em Kiev. Com o melhor ataque da competição e a melhor defesa, o Dynamo conquistou 18 vitórias em 23 compromissos até o momento. Fez por merecer a retomada, naquele que é apenas o terceiro troféu do clube da capital nas últimas 12 edições da liga. Lucescu, em particular, leva a taça pela sétima vez no mesmo intervalo, a nona da carreira.

O Dynamo ainda pode faturar a dobradinha nacional, ao se classificar à decisão da Copa da Ucrânia. O adversário será o Zorya Luhansk, com o Shakhtar eliminado nas fases iniciais. Pode ser a primeira dobradinha desde 2015. Mais uma chance de confirmar o lugar de Lucescu na história alviazul – mesmo que os ultras não gostem. Apesar de toda a resistência, a aposta ousada da diretoria deu frutos, e recoloca não só o Dynamo no topo, mas também o treinador mais vitorioso da história do país.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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