Leste Europeu

Hipocrisia é pouco: “A vítima de racismo precisa manter o controle”, diz dirigente russo

O primeiro passo para se resolver um problema é admitir que ele existe. O combate do racismo no futebol russo, entretanto, ainda deve percorrer uma longa caminhada. A federação já tinha demonstrado como não agir, ao punir o zagueiro Chris Samba, quando ele se recusou a voltar a campo depois de ser vítima de ofensas racistas da torcida do Torpedo Moscou. Pois agora o chefe do comitê disciplinar da entidade ratificou o erro, dizendo que a vítima não pode reagir. Obviamente, não é preciso agredir ninguém. Mas o pedido do cartola é hipócrita ao extremo.

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“Sim, houve provocação nas arquibancadas, mas um jogador precisa se manter sob controle. Então, decidimos punir o clube pelo ocorrido e também Samba”, declarou Artur Grigoryants, em entrevista à Associated Press, se referindo ao defensor como “a chamada, entre aspas, vítima”. “Há raros casos de racismo na Rússia, mas estamos no caminho de liquidar isso completamente”.

As infelizes declarações de Grigoryants só demonstram que, pelo contrário, está longe de reconhecer o racismo. Afinal, os casos no país são recorrentes, mesmo na Liga dos Campeões, e envolvem diversas torcidas. Segundo estudo realizado recentemente, mais de 200 casos de comportamento discriminatório aconteceram no futebol russo ao longo das últimas duas temporadas.

Algo que permite a continuidade do racismo são as punições geralmente brandas, com o fechamento parcial dos estádios e multas confortáveis às finanças dos clubes. No caso de Samba, por exemplo, o Torpedo Moscou disputou um jogo com portões fechados, enquanto o zagueiro pegou duas partidas de gancho pelo Dynamo Moscou. E o discurso do dirigente só reforça o problema, revertendo a noção de quem são as verdadeiras vítimas.

Aprender a lidar com o racismo é o primeiro passo para os dirigentes russos. Mas, antes de tudo, é preciso admitir a gravidade da questão e as consequências às vítimas. Transformar uma ofensa sofrida em caso de indisciplina é algo absurdo, para dizer o mínimo. E o que mais preocupa é que, acima do futebol, o debate se torna ainda mais vital com a aproximação da Copa do Mundo de 2018. Se há um legado que o Mundial poderá deixar para a sociedade russa, é o maior combate à discriminação racial. Para tanto, o futebol precisa ser o primeiro a se abrir.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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