Itália

Como ter sido a cara da Roma incomodou José Mourinho

Ao Telegraph, José Mourinho detalhou que queria ser 'apenas' o técnico na Roma, mas recebeu mais atribuições

Antes da chegada de José Mourinho, em 2021, a Roma não esbanjava de grande prestígio em competições europeias. Era apenas um título, da extinta Taça das Cidades com Feiras (precursora da Copa da Uefa, hoje a Liga Europa), e dois vices, um da Copa dos Campeões (Champions League) e da Copa da Uefa. Hoje, quase três anos depois, o português já não é mais o técnico desde janeiro, mas deixou o legado inestimável com um título, no caso a Conference League de 2021/22, e o segundo lugar da Liga Europa da temporada passada, perdida nos pênaltis.

Apesar de ter montado um time que encantava pelo seu futebol, a passagem foi positiva, principalmente pelos resultados. No entanto, para quem acha que só foi felicidade para o treinador de 61 anos, está errado. Em entrevista ao jornal inglês The Telegraph, Mourinho detalhou o quão frustrante era ser o cara para tudo no clube italiano, para o bem e o mal, e não apenas o técnico responsável por potencializar os jogadores.

– Não que eu tenha medo de trabalhar com clubes que não são ‘feitos para vencer’. O meu trabalho é tentar transformar os clubes naqueles ‘feitos para vencer’, ou para atingir determinados objetivos. Meu trabalho dos sonhos é ser apenas treinador. Ser o homem que trabalha com a equipe, que foca no desenvolvimento dos jogadores e na preparação dos jogos – disse o português, mostrando sua preferência.

A Roma não permitiu que o Special One fosse apenas o cara dos treinos e preparação dos jogos. Com isso, também era quem aparecia nos momentos negativos, como na final perdida para o Sevilla.

– Felizmente, tive essa oportunidade em minha carreira [de ser “apenas” o técnico]. Infelizmente já tive outras situações em que tive que ser muito mais do que isso [na Roma]. Quando você é muito mais do que isso, você não é um treinador tão bom quanto poderia ser. O clube coloca você em uma posição que eu não gostaria de estar. Você acha que depois da final da Liga Europa que perdemos, nas circunstâncias em que perdemos, fiquei feliz com todas as emoções que senti? Você acha que fiquei feliz por ser a cara do clube indo à coletiva de imprensa para falar sobre esses acontecimentos? Não, eu odiei ir para lá – justificou.

Após a derrota na decisão da Liga Europa, a passagem de Mourinho só duraria mais alguns meses. Em janeiro, após ser eliminado na Copa da Itália pela rival Lazio, foi demitido por resultados, mas principalmente pelo desempenho de um elenco que parecia que poderia mais – e, depois, mostrou que realmente pode sob comando de Daniele De Rossi.

Para onde vai Mourinho?

Desempregado há pouco mais de três meses, Mourinho quase sempre é apontado como possível técnico em times grandes que pretendem trocar o comando, mas nada concreto ainda apareceu. Ao Telegraph, o português detalhou o que o clube que o contratar tem que lhe oferecer, reforçando novamente a vontade de ter apenas atribuições de treinador.

– Se as pessoas temem alguma coisa [sobre Mourinho], não tema. Dê-me uma estrutura profissional onde eu seja apenas o treinador principal, porque é nisso que sou bom. As pessoas dizem que sou bom em comunicação. Muitas, muitas vezes você diz as coisas erradas. Especialmente quando você se comunica três ou quatro vezes por semana. A estrutura de um clube [que me força a ser mais do que apenas um treinador] me empurra na direção errada.

Ele ainda finalizou detalhando que quer ser visto na mesma régua que outros técnicos, como não ser obrigado a conquistar título em um clube menor apenas por ter o currículo vencedor que tem. Os objetivos dos times têm que ser realistas, diz Mou.

– Não posso ir para um clube onde, pela minha história, o objetivo é conquistar o título. Não. A única coisa que quero é que seja justo. […] O que quero dizer é que as pessoas deveriam olhar para mim como olham para os outros. Para mim é importante que o clube tenha objetivos e que eu possa dizer que estou pronto para lutar por esses objetivos. Não quero dizer realista, mas pelo menos semirrealista. Porque quando fui para Roma ninguém sonhava com uma final europeia e conseguimos. Não é possível ir para um clube que está quase rebaixado e o objetivo é vencer a Champions League. É legal, mas não está certo. – completou.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius é nascido e criado em São Paulo e jornalista formado pela Universidade Paulista (UNIP). Escreveu sobre futebol nacional e internacional no Yahoo e na Premier League Brasil, além de eSports no The Clutch. Além disso, atuou como assessor de imprensa no setor público e privado.
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