Europa

Uma grande exibição internacional de craques: a história da Copa das Cidades com Feiras

Precursora da Copa da Uefa, a antiga competição europeia consagrou grandes times e promoveu jogos históricos

Pioneira entre as competições de fato continentais na Europa, a Copa das Cidades com Feiras foi organizada por cerca de uma década e meia e passou por várias reformulações ao longo de sua existência. Torneio com pretexto, formato e critérios estranhos quando foi lançado, aos poucos foi adquirindo a estrutura que posteriormente embasaria a criação de sua sucessora, a Copa da Uefa (atual Liga Europa). Enquanto isso, foi promovendo encontros de pesos pesados do futebol europeu e ajudando a eternizar equipes históricas em sua galeria de campeões. Contamos aqui sua confusa, porém riquíssima história e destrinchamos seu legado.

As origens do torneio

Há quem afirme que a primeira competição internacional entre clubes do futebol europeu (e, por conseguinte, do mundo) foi o torneio conhecido por Der Challenge Cup, instituído em Viena em 1897 e que, após duas edições só com equipes locais na disputa, da terceira em diante ganhou a adesão de times húngaros e boêmios. A objeção que costuma ser feita é o fato de que, na época, todas essas nações integravam o mesmo Império Austro-Húngaro e, sendo assim, não se tratava exatamente de um torneio internacional.

Os que fazem esse aparte direcionam a primazia – por uma questão de dias – à Coupe Van der Straeten-Ponthoz, criada em 1900 pelo conde que dá nome ao torneio e disputada em Bruxelas. A primeira edição reunia times belgas, holandeses e suíços – incluindo os campeões nacionais de cada país, levando os jornais da época a apontarem o certame como um autêntico campeonato europeu (continental) de clubes. Nos anos seguintes (até 1907), foram agregados times franceses e alemães, além de ingleses amadores.

Dali em diante, ao longo da primeira metade do século XX, uma miríade de novas competições internacionais entre clubes cobrindo regiões da Europa foi criada, e algumas se estabeleceram como prestigiosas. Foi o caso da Copa Mitropa, de auge nos anos 1930 e que reunia, inicialmente, clubes de Áustria, Hungria, Iugoslávia e Tchecoslováquia, com a entrada posterior de equipes da Itália, Romênia e Suíça. E foi o caso da Copa Latina, disputada entre 1949 e 1957 por equipes de Espanha, França, Itália e Portugal.

Esta última se tornou, nos primeiros anos após a Segunda Guerra Mundial, uma grande atração do futebol europeu. Outro evento que despertava muito interesse naquele período eram as feiras industriais internacionais, realizadas em diversas cidades espalhadas pelo mapa do continente, que tentava se reerguer dos escombros do conflito por meio de um sentimento de cooperação mútua. A programação dessas feiras incluía frequentemente partidas de futebol entre equipes das cidades onde eram realizadas.

A ideia de dar um sentido de competição a esses jogos nasceu da cabeça de Ernst Thommen, um empresário suíço que se fez magnata explorando o ramo das loterias esportivas e que mais tarde passou a integrar o Comitê Executivo da Fifa, liderando a organização da Copa do Mundo em seu país, em 1954. Naquele mesmo ano, nos festejos dos 50 anos de fundação da federação sueca, ele sondou junto aos dirigentes de vários países quanto à receptividade a um torneio europeu de clubes e recebeu um aceno favorável.

O passo seguinte foi se associar ao italiano Ottorino Barassi, presidente da federação de seu país e membro do comitê organizador das Copas de 1934 (na Itália) e 1950 (no Brasil), além de ter sido o guardião da taça Jules Rimet durante a Segunda Guerra e de, como Thommen, integrar o Comitê Executivo da Fifa. Naquele ano de 1954, aliás, Barassi havia sido instrumental na criação de uma confederação nascida do mesmo senso de integração continental compartilhado pelas feiras industriais no pós-Guerra: a Uefa.

Ernst Thommen, Ottorino Barassi e Stanley Rous – o trio criador da Copa das Feiras

A terceira figura envolvida na criação do novo torneio seria a mais conhecida das três – até por ter mais tarde presidido a Fifa por mais de uma década, entre 1961 e 1974. Era o inglês Stanley Rous, um ex-árbitro que se tornara secretário da Football Association de seu país e que também incluía em seu currículo a organização de um evento esportivo de grande porte: a dos Jogos Olímpicos de Londres, em 1948. Com Rous, estava consolidado o triunvirato responsável por levar adiante a ideia da competição continental.

Nesse processo, havia três elementos que contribuíram de maneira considerável para o sucesso da empreitada. Um era o pleno desenvolvimento da aviação comercial, encurtando as distâncias dentro do continente. Outro era a crescente instalação de refletores nos estádios, viabilizando as partidas noturnas de meio de semana. E o terceiro, não menos importante, era a popularização da televisão e de suas transmissões ao vivo dos jogos em muitos países, como havia acontecido em amistosos internacionais recentes.

Na mesma época, outra ideia de torneio continental de clubes foi formulada pelo francês Gabriel Hanot, jornalista do L’Équipe. Ao ver os ingleses do Wolverhampton se proclamarem “campeões mundiais” após vencerem, em seu estádio de Molineux, uma série de amistosos contra equipes da Europa continental e da América do Sul, Hanot protestou com veemência e sugeriu que, antes de qualquer autoaclamação, seria necessário haver um torneio com jogos em ida e volta entre os campeões nacionais do continente.

Mas tanto a recém-instituída Uefa quanto os clubes hesitaram de início em adotar e concretizar a ideia de Hanot, que estipulava não um torneio eliminatório, mas uma espécie de liga europeia em pontos corridos. O projeto só começou a andar com o empurrão do amigo Raimundo Saporta, tesoureiro do Real Madrid. Com isso, a trinca formada por Thommen, Barassi e Rous se antecipou e lançou antes o seu torneio, curiosamente acertando as bases durante o primeiro congresso da Uefa, em Viena, em março de 1955.

A evolução do formato

O projeto original da Copa das Cidades com Feiras – que mudaria bastante ao longo do período em que o torneio foi disputado – era tido como inusitado na época e hoje pareceria ainda mais. Para começar, não era um certame entre clubes, e sim entre cidades. A participação era aberta a todas as cidades europeias que abrigavam feiras (na época, eram mais de 60). Mas elas seriam representadas por seleções ou combinados formados por jogadores dos clubes locais, sem distinção de nacionalidade.

Naturalmente, esse conceito de “seleção” se colocava como bastante elástico, já que muitas das cidades contavam com apenas um clube (e, nesse caso, esse único time formaria o combinado de maneira integral), ao passo que outras, como Londres, poderiam escolher seus atletas dentro de um universo de mais de uma dezena de times. Havia ainda, em cidades com dois clubes, por exemplo, o caso de um deles não poder ou não querer ceder seus atletas – e assim, deixar ao outro o papel de representante in totum.

A seleção de Londres goleia a da Basileia por 5 a 0 no jogo inaugural do torneio

Outras curiosidades da edição inaugural eram o formato de disputa e o tempo de duração. As 12 cidades – Barcelona, Basileia, Birmingham, Colônia, Copenhague, Frankfurt, Lausanne, Leipzig, Londres, Milão, Viena e Zagreb – que se inscreveram para participar foram divididas em quatro triangulares com jogos em ida e volta, com o primeiro colocado de cada um deles avançando às semifinais e os vencedores destas fazendo a decisão do título. Seria a única vez em que o torneio contaria com uma fase de grupos.

Além disso, para evitar o conflito de datas com as competições nacionais e, sobretudo, pelo fato de o torneio estar inicialmente atrelado às feiras internacionais (a ideia era que os jogos fossem disputados durante os eventos), os organizadores previam que a nova copa se estendesse por duas temporadas – e acabaria tomando até mais tempo: a edição inaugural teve início exatos três meses antes da primeira Copa dos Campeões. E quando terminou, o torneio organizado pela Uefa estava prestes a decidir sua terceira edição.

O formato já seria alterado para a segunda edição, agora sim disputada inteiramente no sistema de mata-mata e se estendendo entre 1958 e 1960. E o número de equipes saltaria para 16, antes de passar a 28 na temporada 1961/62, 32 na posterior, 48 em 1964/65, até chegar aos definitivos 64 em 1968/69. E a concepção original de torneio entre cidades aos poucos foi sendo retificada: progressivamente os clubes substituíram as seleções locais até passarem a compor a totalidade dos participantes na edição 1964/65.

Se na primeira edição, apenas Birmingham (com o Birmingham City), Milão (com a Internazionale) e Lausanne (com o Lausanne-Sport) foram oficialmente representadas por clubes, na segunda as agremiações já eram maioria em relação às seleções pela razão de 11 contra cinco. Mais adiante, na temporada 1963/64, só Copenhague ainda insistia em indicar um combinado (o chamado “Stævnet”). Seria o último na história da competição. Mas uma regra, porém, ainda foi mantida por certo tempo e por alguns países.

Era o princípio de “um clube por cidade”, do qual os organizadores só abriram mão a partir da edição 1961/62 – quando Barcelona e Espanyol, Inter e Milan e Hearts e Hibernian disputaram ao mesmo tempo. Mas em alguns casos, como o da Inglaterra, essa regra seguiu vigorando não só por toda a história da competição como pelas temporadas iniciais de sua sucessora, a Copa da Uefa. Com efeito, o expediente só mudou depois que a entidade europeia ameaçou sancionar a Football Association inglesa em 1975.

Um caso simbólico foi a presença do Newcastle na edição em que levaria o título, a de 1968/69. Na ocasião, o critério de classificação já era a posição na liga, mas com essa ressalva de um clube por cidade. Na Copa dos Campeões entraram Manchester City (campeão inglês) e United (atual vencedor do torneio). Na Recopa entrou o West Bromwich Albion (detentor da FA Cup). As quatro vagas da Copa das Feiras, pela classificação pura e simples, ficariam com Liverpool (3º), Leeds (4º), Everton (5º) e Chelsea (6º).

No entanto, a regra já excluía de saída o Everton, pela presença do Liverpool melhor colocado. O próximo da fila era o Tottenham, que não podia entrar pela inclusão do Chelsea. Depois vinha o West Bromwich, já reservado para a Recopa. Os Baggies eram seguidos pelo Arsenal, barrado pela mesma razão dos Spurs. E só aí, na décima colocação, aparecia o Newcastle, sem nenhum impedimento para sua indicação – aliás, naquele momento não havia mais a obrigatoriedade de a cidade sediar uma feira industrial.

O número de países com representantes também cresceu com o passar dos anos. Na primeira edição eram apenas as Alemanhas Ocidental e Oriental, Dinamarca, Espanha, Inglaterra, Itália, Iugoslávia e Suíça. Na segunda entraram Bélgica, França e Hungria, com a Escócia sendo incluída na terceira. Grécia, Portugal e Tchecoslováquia estrearam na quarta. Já na quinta debutaram Áustria, Holanda, Irlanda, Irlanda do Norte, Luxemburgo, Romênia e Turquia. A Bulgária entraria na sexta e Suécia e Noruega, na sétima.

Alguns países, no entanto, só começaram a disputar quando a competição já vivia seus últimos dias. Foram os casos de Malta, Polônia (admitidas em 1968/69), Islândia (em 1969/70) e Finlândia (que só disputou a derradeira temporada). Apenas quatro países filiados à Uefa nunca chegaram a ter representantes: Albânia, Chipre, País de Gales – que não contava com uma liga nacional na época – e a União Soviética. Esta, curiosamente, chegou a cogitar enviar uma seleção de Moscou à primeira edição, mas acabou desistindo.

A hegemonia inicial espanhola

A Seleção de Barcelona, primeira campeã do torneio

Duas outras cidades – Viena e Colônia – também desistiriam de disputar a edição inaugural depois de sorteados os grupos, fazendo com que, na prática, apenas dez equipes disputassem o torneio, cujo pontapé inicial se daria em 4 de junho de 1955, com a goleada da seleção de Londres sobre a da Basiléia por 5 a 0 no novíssimo estádio de St. Jakob, inaugurado no ano anterior para receber seis partidas da Copa do Mundo da Suíça. Os londrinos acabariam avançando no grupo, que ainda incluía o combinado de Frankfurt.

A propósito, o confronto entre Londres e Frankfurt disputado em Wembley, pela segunda rodada, no dia 26 de outubro de 1955, entraria para a história do estádio como o primeiro jogo disputado no tradicional palco britânico sob iluminação artificial. Os londrinos enfrentariam na semifinal o Lausanne-Sport, que eliminara a seleção de Leipzig na fase anterior (o desistente combinado de Colônia completava o grupo) revertendo uma derrota por 6 a 3 no primeiro jogo com um incrível 7 a 3 na partida de volta, na Suíça.

Na outra perna estavam Barcelona (que despachou o combinado de Copenhague) e Birmingham City, que superou a Internazionale e a decepcionante seleção de Zagreb, derrotada nas quatro partidas sem marcar um gol sequer. A vaga seria decidida nos confrontos diretos entre ingleses e italianos: o grupo havia sido aberto com um empate em 0 a 0 entre os dois na Arena Cívica de Milão e seria concluído – quase um ano depois, em abril de 1957 – com a vitória do Birmingham por 2 a 1 em seu estádio de St. Andrew’s.

Os dois jogos de ida e de volta das semifinais foram disputados nos mesmos dias (23 de outubro e 13 de novembro de 1957). Se Londres conseguiu reverter a derrota por 2 a 1 para o Lausanne na Suíça com um 2 a 0 em Stamford Bridge que lhe garantiu a vaga, o combinado de Barcelona e o Birmingham City precisariam de um jogo extra para definir a parada, após um empate em 4 a 4 no placar agregado dos confrontos. Ele aconteceria em 26 de novembro, no mesmo estádio que abriu o torneio: o St. Jakob, na Basiléia.

O brasileiro Evaristo de Macedo abriu o placar para Barcelona. O atacante Peter “Spud” Murphy empatou para o Birmingham City no começo da etapa final. E só a sete minutos do fim um gol de László Kubala decidiu o jogo e colocou os catalães na decisão contra os londrinos, em dois jogos que já adentrariam o ano de 1958. O primeiro, no dia 5 de março, foi disputado novamente em Stamford Bridge e terminou empatado em 2 a 2 – um gol de pênalti de Jim Langley, do Fulham, a dois minutos do fim fechou a contagem.

O segundo, realizado no Camp Nou em 1º de maio, foi bem mais desigual. Até porque, de uma partida para a outra, a seleção de Londres sofreu inúmeras alterações na escalação, repetindo somente quatro jogadores, e até na direção técnica. A goleada de 6 a 0 da seleção de Barcelona – formada integralmente por atletas azulgranas – refletiu bem esse improviso inglês. Para piorar, após o quarto gol (marcado por Evaristo) o goleiro Jack Kelsey se lesionou, e o atacante Vic Groves teve de ocupar seu lugar sob as traves.

O título da edição inaugural, portanto, ficaria com a seleção de Barcelona – ou seria com o clube homônimo? A controvérsia se estende desde então: é comum encontrar em muitos registros os azulgranas como vencedores da primeira edição, já que, tanto na ida quanto na volta dos jogos decisivos, o combinado foi formado integralmente por atletas do clube. Algumas fontes citam que havia “um jogador do Espanyol”, mas sem nomeá-lo. Mas a foto do time posado tirada antes de um dos jogos não deixa dúvidas.

Na imagem, os jogadores vestem um uniforme numa cor que não é a do clube e ostentando um escudo semelhante ao brasão da cidade de Barcelona. Em sua crônica da partida publicada no dia seguinte à final, o “Mundo Deportivo” jogava com dessa ambiguidade ao dizer que se tratava do Barcelona “representando a Cidade Condal e vestindo um uniforme que, naturalmente, não era o seu”, reiterando mais adiante que “assim, a Seleção de Barcelona – leia-se o Barcelona – conquistou o troféu em disputa”.

Seja como for, a conquista iniciaria o predomínio dos espanhóis nos primeiros anos do torneio. O Barcelona – agora inquestionavelmente jogando como clube – venceria a segunda edição de forma arrasadora, superando a seleção da Basileia por 7 a 3 no agregado; humilhando a Inter com um 4 a 0 no Camp Nou e um 4 a 2 no San Siro; batendo a seleção de Belgrado com Evaristo marcando nos dois jogos das semifinais; e levando o título com um 4 a 1 sobre o Birmingham no jogo de volta da decisão, na Catalunha.

Curiosamente, parte da campanha vitoriosa dos azulgranas foi concomitante com a primeira participação do clube na Copa dos Campeões, na temporada 1959/60. Do jogo da volta contra a Internazionale pelas quartas de final da Copa das Feiras em diante, os catalães dividiram suas atenções entre os dois torneios continentais, que se entrelaçaram ao ponto de o jogo do título contra o Birmingham ter vindo exatamente uma semana após a queda nas semifinais da Copa dos Campeões contra o Real Madrid.

A Uefa se irritou com a disputa pelo prestígio e exigiu que essa coincidência de times participantes não voltasse a se repetir. Uma das saídas encontradas pelo comitê organizador da Copa das Feiras foi reduzir o calendário do torneio, fazendo o possível para que ele se desenrolasse todo dentro de uma só temporada europeia. A terceira edição ainda se estenderia um pouco além, tendo início em 13 de setembro de 1960 e sendo concluída em 11 de outubro de 1961. Mas com o tempo as coisas foram se ajeitando.

Essa terceira edição também marcaria a única conquista italiana na história do campeonato (e um breve corte na hegemonia espanhola). Dirigida pelo argentino Luis Carniglia e contando no time com o atacante brasileiro naturalizado italiano Dino da Costa (ex-Botafogo), a Roma superou de saída os belgas da Union Saint-Gilloise antes de precisar de um terceiro jogo para bater (com goleadas) a seleção de Colônia e os escoceses do Hibernian. Na final, o Birmingham – de novo tentando o título – seria o adversário.

A volta olímpica no Estádio Olímpico – a Roma celebra a conquista em 1961

O jogo de ida em St. Andrew’s, no dia 27 de setembro de 1961, foi tumultuado. Os romanistas abriram dois gols de vantagem com o centroavante argentino Pedro Manfredini, mas o time da casa reagiu e empatou em 2 a 2 nos minutos finais com Mike Hellawell e o galês Bryan Orritt. Na volta, no Estádio Olímpico, um gol contra do lateral Brian Farmer e outro a favor de Paolo Pestrin deram a vitória por 2 a 0 e o título à Roma – com a taça sendo entregue por Stanley Rous, que acabara de ser eleito presidente da Fifa.

Quando a quarta edição começou, a terceira ainda estava sendo decidida – por esta razão, tanto Roma quanto Birmingham receberam “byes” no sorteio, entrando direto na segunda fase. Ambos ficariam pelo caminho logo no primeiro confronto. E um outro clube espanhol, o Valencia, rumou de maneira categórica até o título. Após deixar pelo caminho Nottingham Forest, Lausanne-Sport e Internazionale, os Ches surraram os húngaros do MTK por 10 a 3 no agregado nas semifinais e teriam o Barcelona pela frente na final.

No primeiro jogo, no Mestalla, os catalães estiveram duas vezes na frente no placar com gols do húngaro Sándor Kocsis antes dos 20 minutos. Mas o Valencia virou ainda na etapa inicial e impôs uma goleada de 6 a 2 no segundo tempo, com três gols de Vicente Guillot. Na volta, no Camp Nou, o Barcelona chegou a sonhar com a reviravolta quando Kocsis de novo abriu a contagem na volta do intervalo. Mas outro gol de Guillot a três minutos do fim decretou o 1 a 1 e deu a taça aos Ches – que logo repetiriam o feito.

Dois brasileiros integravam o time titular do Valencia: o lateral-esquerdo Chicão (ex-Botafogo) e o centroavante Waldo (ex-Fluminense), que entraria para a história como o maior goleador do torneio, somando expressivos 31 gols – bem à frente do segundo colocado no ranking, o escocês Peter Lorimer, do Leeds, com 20 tentos. Waldo seria ainda o artilheiro da Copa das Feiras em três edições consecutivas (1961/62, 1962/63 e 1963/64). Evaristo, pelo Barcelona, também seria um dos goleadores na edição inaugural.

Os Ches cumpririam campanha mais oscilante, mas levariam o bicampeonato em 1962/63. Após superarem o Celtic na primeira fase, tiveram trabalho com os também escoceses do Dunfermline na etapa seguinte: uma goleada de 4 a 0 na ida no Mestalla parecia ter resolvido a classificação. Mas na volta, o Valencia foi surpreendido com um impiedoso 6 a 2, que levou a definição a um jogo extra no estádio do Restelo, em Lisboa, vencido pelos espanhóis por um apertado 1 a 0, gol do defensor Manuel Mestre.

Nas quartas, outro escocês cruzou o caminho do time: o Hibernian. Mesmo perdendo na casa do adversário na volta, a classificação veio sem maiores sustos. Nas semifinais, foi a vez de superar a Roma: Chicão deixou o seu nos 3 a 0 da ida no Mestalla e, na volta, o gol solitário de Antonio Angelillo para os romanos não evitou a ida dos Ches a mais uma final, contra o Dínamo de Zagreb. Se não deu show como contra o Barcelona um ano antes, o Valencia foi eficiente: 2 a 1 em Zagreb, 2 a 0 no Mestalla, e a taça nas mãos.

O Valencia voltaria à final pelo terceiro ano seguido em 1963/64. Mas desta vez a taça ficaria com outra equipe espanhola: o Zaragoza, que também atravessava um período histórico. Sua defesa era liderada por um homem de seleção espanhola, o lateral-esquerdo Severino Reija. Mas o ponto alto do time era seu quinteto ofensivo arrasador, formado pelos brasileiros Canário (ex-America do Rio e Real Madrid) e Duca (ex-Flamengo) e três outros jogadores da Roja – Marcelino Martínez, Juan Manuel Villa e Carlos Lapetra.

A equipe que ficaria conhecida como Los Magníficos passou fácil pelos gregos do Iraklis na etapa inicial, antes de superar o Lausanne-Sport e logo em seguida a Juventus, vencendo por 3 a 2 em La Romareda e segurando o 0 a 0 no Comunale de Turim. Nas semifinais, o time precisou de um terceiro jogo para derrotar os belgas do RFC Liège. Enquanto isso, do outro lado da chave, os Ches haviam deixado pelo caminho o Shamrock Rovers, o Rapid Viena, o Újpest Dózsa e o Colônia até alcançarem mais uma decisão.

Aquela final, aliás, seria uma das duas únicas do torneio a ser disputada em uma só partida, em 25 de junho. O local seria o Camp Nou, em Barcelona – cidade quase equidistante de ambas as sedes dos finalistas. O Zaragoza abriu o placar com Villa aos 40 minutos da etapa inicial, mas antes do intervalo o Valencia igualou com José Urtiaga. No fim, quando a prorrogação parecia iminente, o artilheiro Marcelino fez 2 a 1 para os Maños – que também levariam a copa nacional naquele ano – a sete minutos do encerramento.

Com os brasileiros Duca (penúltimo em pé) e Canário (com a taça), o Zaragoza levou o título de 1964

O interlúdio do bloco socialista

O sucesso do futebol espanhol na competição o levou a estabelecer o recorde de participantes de um mesmo país numa edição da Copa das Feiras, com cinco clubes na temporada 1964/65 (Athletic Bilbao, Atlético de Madrid, Barcelona, Betis e Valencia). Mas, por ironia, nenhum deles levaria o caneco naquele ano. A Espanha viveria o desfecho de seu domínio inicial no torneio com a conquista do Barcelona na temporada posterior, 1965/66, mas este título seria ensanduichado por duas vitórias de países socialistas.

A primeira dessas duas seria a conquista do Ferencváros, time que formava a base da excelente seleção húngara de meados dos anos 1960 e que girava em torno do atacante Flórián Albert. Na campanha, os alviverdes passaram inicialmente por Spartak Brno e Wiener Sport-Club, antes de deixarem na poeira um quarteto de mais peso no futebol europeu: Roma (derrotada nas duas partidas), Athletic Bilbao (batido por 3 a 0 no jogo extra), Manchester United (também vencido no terceiro jogo) e, na final, Juventus.

Assim como no ano anterior, a decisão foi disputada em jogo único, mas em campo nada neutro: o Comunale de Turim, casa da Juve. Os bianconeri tinham as baixas do zagueiro Sandro Salvadore e do atacante Omar Sivori, mas – além do local da partida – contavam com outra vantagem em relação aos húngaros: devido ao regulamento mal planejado para o número de participantes (48), que levou a uma fase de quartas de final com seis clubes, eles pularam uma etapa no torneio, avançando direto das oitavas às semifinais.

Mesmo assim, os magiares superaram os italianos, dirigidos pelo paraguaio Heriberto Herrera e que tinham como destaques o meia espanhol Luis Del Sol, o atacante franco-argentino Néstor Combin e o ponta-esquerda Giampaolo Menichelli (campeão do torneio com a Roma em 1961). O jogo equilibrado seguiu com placar em branco até os 29 minutos do segundo tempo, quando um cruzamento alto do lateral-direito Dezső Novák encontrou na segunda trave a cabeçada firme do ponta-esquerda Máté Fenyvesi.

O diário La Stampa destaca a decisão de 1965 entre Juventus e Ferencvaros

O regulamento foi consertado para a edição seguinte sem alteração do número de clubes: uma primeira fase com 32 clubes apurava 16 para se juntarem a outros 16 pré-classificados na etapa seguinte, e daí em diante o chaveamento fluía normalmente (com 32, 16, oito, quatro até os dois finalistas). E o Barcelona, que levaria o caneco pela segunda (ou terceira) vez, foi uma das equipes que começaram sua trajetória desde o início da disputa naquela edição, superando facilmente o DOS Utrecht com um 7 a 1 no Camp Nou.

Em seguida, os azulgranas passaram pelo Royal Antuérpia e o Hannover 96 – este, na moedinha – antes de encararem o Espanyol no derby da Catalunha pelas quartas de final, vencendo ambas as partidas por 1 a 0. As semifinais daquela edição promoveram dois confrontos entre espanhóis e ingleses. De um lado, o Barcelona mediria forças com o Chelsea. Do outro, o Zaragoza (vencedor de 1964) encararia o Leeds, campeão em edições futuras. Ambos somente se definiriam em jogos extras, tal o equilíbrio em ida e volta.

No Camp Nou, o Barcelona venceu o Chelsea por 2 a 0, mas os Blues devolveram o placar jogando em Stamford Bridge. Após o segundo jogo houve um sorteio para decidir o local da partida extra, e a definição ficou para o estado azulgrana. Nele, o Barça se impôs e massacrou por 5 a 0. Já o Zaragoza viveu situação inversa: venceu em La Romareda por 1 a 0 em foi derrotado em Elland Road por 2 a 1, mas o jogo desempate foi mantido em Leeds pelo sorteio. Mesmo assim, os Maños triunfaram por 3 a 1, avançando à final.

Era, portanto, a terceira final espanhola nas últimas cinco edições do torneio. E o Zaragoza voltou a aprontar fora de casa no primeiro duelo: o brasileiro Canário marcou o gol da vitória por 1 a 0 no Camp Nou. Mas o Barcelona, com um time totalmente renovado em relação ao que venceu o torneio em 1960, pontuado por nomes como o meia francês Lucien Muller, o ponta Pedro Zaballa, o armador Josep Maria Fusté e o centroavante e capitão José Antonio Zaldúa, daria o troco no incrível jogo de volta em La Romareda.

Os azulgranas saíram na frente logo aos três minutos com o ponta-esquerda Lluís Pujol, mas os donos da casa empataram aos 24 com Marcelino. No segundo tempo, os catalães passaram outra vez à frente com Zaballa aos 25 e chegaram a abrir 3 a 1 de novo com Pujol a cinco minutos do fim, no que parecia ser o gol do título. Mas dois minutos depois Marcelino veio outra vez resgatar o Zaragoza e forçar a prorrogação. Nela, a indefinição durou até o último minuto: Pujol completou sua tripleta e fechou em 4 a 2 para o Barça.

Foi o último capítulo da dominação espanhola. Na edição seguinte, o Barcelona voltou a disputar o torneio, mas caiu logo no primeiro confronto, perdendo os dois jogos para os escoceses do Dundee United. O clube do país que chegou mais longe foi o Valencia, eliminado ainda nas oitavas de final pelo Leeds, futuro finalista naquele ano. Só não chegou a ser uma passagem de bastão quanto ao domínio na competição porque o time de Don Revie perderia a final para o Dínamo de Zagreb, o outro campeão socialista.

Leeds e Dinamo Zagreb entram em campo para a decisão de 1967

O time iugoslavo, aliás, seria o primeiro a se beneficiar de um novo critério de desempate que foi introduzido naquela edição 1966/67: o gol qualificado. Aquela foi a temporada em que os jogos extras foram excluídos no regulamento: a decisão viria ou pelo número de gols marcados fora de casa ou pelo sorteio. E o Dínamo passou pelas duas logo de saída: primeiro tirou o Spartak Brno na moedinha e depois superou o Dunfermline pelo novo critério ao perder na Escócia por 4 a 2 e vencer na volta em Zagreb por 2 a 0.

Nas oitavas de final, um único gol do centroavante, capitão e destaque do time Slaven Zambata definiu a série contra os romenos do Dinamo Pitești. Já nas quartas, a Juventus – campeã italiana daquela temporada – seria vencida com um enfático 3 a 0 em Zagreb após um 2 a 2 na partida de ida em Turim. Nas semifinais, entretanto, seria preciso empreender uma grande remontada para passar pelo Eintracht Frankfurt do ponteiro Jürgen Grabowski após a derrota por 3 a 0 na primeira partida no Waldstadion.

No estádio de Maksimir, o Dínamo abriu dois gols de vantagem com 15 minutos de jogo. Mas o terceiro, para devolver o placar da ida, só saiu a três minutos do fim, dos pés de Josip Gucmirtl, forçando a prorrogação. No tempo extra, aos 12 minutos, um gol de pênalti do meia Rudolf Belin concluiu a reviravolta e colocou os iugoslavos na decisão contra o Leeds, que havia deixado pelo caminho os holandeses do DWS, o Valencia, o Bologna e o Kilmarnock. Um esquadrão ambicioso que queria marcar seu nome na Europa.

Não seria, porém, naquele ano que os Whites começariam a escrever uma história vitoriosa no torneio: embora contasse com um número generoso de jogadores de primeira linha no futebol britânico – entre eles o zagueiro Jack Charlton, o versátil Norman Hunter, o capitão Billy Bremner, o ponta goleador Peter Lorimer e o talentoso armador Johnny Giles, o Leeds perderia por 2 a 0 em Zagreb com gols de Marijan Čerček e Krasnodar Rora. Na volta, o Dínamo seguraria um 0 a 0 em Elland Road e ficaria com a taça.

A “era” inglesa nos últimos anos

O Leeds enfim desfila com a taça em 1968

A experiência internacional seria muito valiosa ao Leeds, de qualquer modo. Depois de alcançar a semifinal e a final em suas duas primeiras participações na competição (e numa copa europeia em geral), o time de Don Revie subiria mais um degrau na temporada 1967/68. Estranhamente, os organizadores voltaram a adotar um formato que colocava os 48 clubes jogando desde o início, fazendo com que quatro times passassem direto da segunda fase às quartas de final, pulando a terceira etapa, que deveria ser as oitavas.

O Leeds, no entanto, não seria um desses agraciados pelo sorteio. Depois de arrasarem o humilde Spora Luxemburgo por 16 a 0 no agregado e eliminarem o Partizan com uma vitória em Belgrado, os Whites foram à terceira fase enfrentar o Hibernian – que vinha de arrasar o Napoli por 5 a 0 na etapa anterior. O magro 1 a 0 para o Leeds em Elland Road foi logo cancelado em Edimburgo por um gol de Colin Stein. E a vaga só viria graças a um gol de Jack Charlton a três minutos do fim. Mas o time ainda teria de voltar à Escócia.

Os clubes daquele país tinham desempenho bastante bom na competição: entre 1961 e 1969, os escoceses alcançaram sete vezes as quartas de final, sendo que quatro foram além chegando às semifinais, não raro eliminando camisas tidas como mais pesadas. Não à toa, o ranking de pontos que norteava a distribuição de vagas aumentaria para quatro o número de participantes do país na temporada seguinte, 1968/69 – mesmo número de Espanha, Inglaterra e Itália e superior aos três oferecidos à Alemanha Ocidental.

Por isso o Leeds chegou atento para o confronto com o Glasgow Rangers pelas quartas de final. O empate em 0 a 0 diante de um público estimado em 80 mil torcedores em Ibrox foi considerado um ótimo resultado. Na volta, em Elland Road, um gol de pênalti de Johnny Giles destravou o jogo para os Whites, que ampliaram poucos minutos depois com Lorimer e avançaram com o 2 a 0. E de onde viria o oponente dos ingleses nas semifinais? Sim, mais uma vez da Escócia: era o Dundee FC, em outro duelo apertado.

No Dens Park, em Dundee, os Whites abriram o placar com Paul Madeley no primeiro tempo, mas sofreram o empate em 1 a 1 ainda antes do intervalo. Na volta, embora o 0 a 0 bastasse para garantir a passagem à final pelos gols fora de casa, o time de Don Revie ainda obteria uma vitória suada por 1 a 0, gol de Eddie Gray a dez minutos do fim. Como no ano anterior, o adversário na decisão seria um clube do bloco socialista – desta vez, um que já havia levantado aquele caneco: o tarimbado time do Ferencváros.

O cartel dos húngaros na caminhada até aquela final impressionava: após eliminarem os romenos do Argeş Piteşti na primeira fase, eles despacharam em sequência Zaragoza, Liverpool, Athletic Bilbao e Bologna, vencendo seis dos oito jogos contra este quarteto. Mas o time ainda liderado por Flórián Albert acabaria caindo em Elland Road no jogo de ida da final por 1 a 0. Mick Jones anotou o gol num escanteio, em lance muito reclamado pelos húngaros por uma falta de Jack Charlton sobre o goleiro István Géczi.

A partida de volta, disputada em 11 de setembro de 1968 (mais de um mês após o jogo de ida) no Népstadion de Budapeste, quase não aconteceu em vista do momento de tensão política entre os dois blocos hegemônicos atravessado pelo continente após a invasão da Tchecoslováquia. Em campo, o Leeds se trancou na defesa, suportou a pressão do Ferencváros e esperou o apito final. Com o 0 a 0, levantava o segundo título de sua história – e o primeiro internacional – após ter vencido a Copa da Liga inglesa em março.

Se a conquista do Leeds prenuncia um domínio inglês na última fase do torneio, a edição seguinte, de 1968/69, marca por sua vez o início de uma aproximação muito grande de seu formato com aquele que viria a ser o de sua competição sucessora, a Copa da Uefa, tanto no número de clubes participantes quanto no regulamento e até nos critérios classificatórios. Não é por acaso que nesta época a remodelada competição continental ganha o apelido informal de Runners-Up Cup, ou “Copa dos Vice-Campeões”.

Curiosamente, o campeão daquela edição seria o Newcastle, cuja vaga caiu no colo em virtude dos muitos impedimentos criados pelo já explicado critério de “um clube por cidade”. De toda forma, os Magpies justificaram plenamente sua inclusão no torneio com uma grande campanha, a começar pela estreia com goleada de 4 a 0 sobre o Feyenoord dirigido por Ernst Happel – que na temporada seguinte levantaria a Copa dos Campeões. Na volta, a derrota por 2 a 0 em Roterdã não impediu a classificação inglesa.

Nas duas fases seguintes, o Newcastle passaria por dois clubes ibéricos com canecos continentais no currículo: o Sporting (vencedor da Recopa de 1964) e o Zaragoza (campeão da Copa das Feiras no mesmo ano), este último pelo critério dos gols fora de casa. Já nas quartas, o rival seria outro time luso, o Vitória de Setúbal, que vivia período de frequentes boas campanhas nos torneios do continente (naquela temporada, deixaram pelo caminho a Fiorentina). Nas semifinais, como no ano anterior, haveria “batalha britânica”.

Foram dois jogos tensos contra o Rangers. Em Ibrox, além da pressão constante do time da casa, houve um pênalti defendido pelo goleiro Willie McFaul (que cumpriu atuação extraordinária para garantir o 0 a 0 contra os escoceses) e jogadas duras de parte a parte, que se repetiram na partida de volta, em St. James’ Park. Neste jogo houve até invasão de campo por torcedores dos dois clubes. No segundo tempo, Jimmy Scott e John Sinclair decretaram a vitória por 2 a 0 que levou os alvinegros de Tyneside à decisão.

A final colocaria frente a frente pelo segundo ano consecutivo um clube inglês e um húngaro. O adversário do Newcastle seria o Újpest, que iniciava naquele ano de 1969 um heptacampeonato nacional seguido. Na Copa das Feiras, depois de pular a primeira fase graças à desistência de seu adversário, o Union de Luxemburgo, não teve trabalho para trucidar o Aris Salônica por 11 a 2 no agregado, antes de despachar o Legia Varsóvia e o atual campeão Leeds e encerrar nas semifinais a surpreendente saga do Göztepe turco.

Após o primeiro tempo sem gols em St. James’ Park no jogo de ida, o Newcastle abriria o caminho para a conquista com um herói improvável: o capitão Bobby Moncur, que em mais de 140 jogos pelo clube nunca havia balançado as redes, marcou logo duas vezes, com Jimmy Scott fechando a vitória por 3 a 0 que deu ótima vantagem para a volta em Budapeste. Mas a ótima equipe do Újpest, dirigida por Lajos Baróti (técnico da seleção magiar nas três Copas do Mundo anteriores), ensaiou uma reação no segundo jogo.

Bobby Moncur, capitão do Newcastle, exibe o troféu em 1969

Nele, antes do intervalo, o Újpest já havia marcado duas vezes com Ferenc Bene e János Göröcs. A remontada parecia iminente, tamanho o domínio dos húngaros no primeiro tempo. Mas bastou ao Newcastle marcar um gol, de novo com Bobby Moncur, logo no início da etapa final, para que o adversário desmoronasse. Tendo de escalar uma montanha ainda maior pelo título, o Újpest cedeu espaços e viu os Magpies chegarem à virada por 3 a 2, com o dinamarquês Preben Arentoft e o reserva Alan Foggon indo às redes.

Se a Copa das Feiras seria a última grande conquista do Newcastle até os dias atuais, o campeão do ano seguinte teve com o troféu a oportunidade de encerrar um longo jejum e iniciar uma nova fase vitoriosa. O Arsenal vivia um jejum de 17 anos naquele momento e superou de forma pouco impressionante os norte-irlandeses do Glentoran na estreia, mas foi engrenando aos poucos e se tornando uma equipe bastante sólida, especialmente na defesa. Tanto que chegou à decisão após sofrer apenas três gols em dez jogos.

O Sporting de Portugal foi derrotado por um categórico 3 a 0. O Rouen, então sensação do futebol francês, foi batido por 1 a 0 graças a um gol de cabeça do meia Jon Sammels no último minuto do jogo de volta. Já os romenos do Dinamo Bacău foram trucidados por 9 a 1 no placar agregado das quartas de final. E nas semifinais, o adversário foi nada menos que o Ajax de Johan Cruyff, finalista da Copa dos Campeões na temporada anterior e prestes a iniciar seu tricampeonato naquele torneio a partir do ano seguinte.

No primeiro jogo, em Highbury, o técnico Rinus Michels escalou nove dos 11 atletas que dentro de um ano venceriam o Panathinaikos não muito longe dali, em Wembley, para iniciar o domínio continental dos Godenzonen. Mas naquela noite de 8 de abril de 1970, eles seriam varridos pelos Gunners: Charlie George abriu o placar, o capitão Frank McLintock salvou em cima da linha um chute de Cruyff após o holandês driblar o goleiro Bob Wilson e, na etapa final, Jon Sammels e de novo Charlie George fecharam o 3 a 0.

Na volta, em Amsterdã, um gol de Gerrie Muhren deu ao Ajax uma insuficiente vitória por 1 a 0. Os londrinos estavam na final contra o Anderlecht, outro clube que viveria parte de seus grandes dias no futebol continental na década seguinte – mas um pouco mais para o fim dela. Mas aquele time dos Mauves já havia feito estragos. O Coleraine, da Irlanda do Norte, fora superado por um espalhafatoso 13 a 4 no agregado. E os belgas também eliminariam o atual campeão Newcastle e a Internazionale, vencida dentro de Milão.

Quando Jan Mulder marcou seu segundo gol e o terceiro do Anderlecht abrindo três tentos de vantagem no jogo de ida, na Bélgica, o clube parecia caminhar tranquilo para a conquista. Mas a oito minutos do fim, Ray Kennedy descontou para 3 a 1, e o Arsenal de repente se via novamente vivo na disputa. Na volta, em 28 de abril, com Highbury lotado, os Gunners marcaram com Eddy Kelly no primeiro tempo e com John Radford e Jon Sammels, em gols quase seguidos, na segunda etapa para vencer por 3 a 0 e levar o caneco.

Delírio em Highbury – o Arsenal faz 3 a 0 no Anderlecht e leva a taça

Na edição derradeira da competição, em 1970/71, os ingleses igualariam o recorde dos espanhóis e também ganhariam cinco vagas. E três deles – o atual campeão Arsenal, o Leeds e o Liverpool – alcançariam as quartas de final. Os Gunners cairiam para o Colônia pelos gols fora de casa, ao passo que os outros dois avançariam (os Whites vencendo o Vitória de Setúbal e os Reds, o Bayern de Munique) e se enfrentariam nas semifinais – o que obrigatoriamente levaria um clube do país à final pelo quinto ano consecutivo.

O time de Don Revie, que já havia superado os noruegueses do Sarpsborg, o Dynamo Dresden, o Sparta Praga (com um contundente 6 a 0 em Elland Road), além dos já citados lusos. E acabaria levando a melhor sobre os rivais nacionais: um gol de Billy Bremner em Anfield deu a ele a vitória por 1 a 0. E um 0 a 0 em casa na volta o levou à final contra a Juventus, que iniciara a temporada sob o comando de Armando Picchi, o ex-líbero da Internazionale, que vinha empreendendo um processo de renovação no time.

Picchi, porém, seria forçado a deixar o cargo em fevereiro de 1971 ao ser hospitalizado devido a um câncer na coluna vertebral, que o mataria três meses depois, com apenas 35 anos de idade. O tcheco Čestmír Vycpálek, treinador das categorias de base, assumiu o comando da equipe e a conduziu à decisão. Juventus e Leeds foram a campo pelo primeiro jogo decisivo em 26 de maio, mas a chuva torrencial que castigou Turim forçou a interrupção da partida no início do segundo tempo ainda com o placar em branco.

O jogo foi disputado novamente, e do início, dois dias depois. A Juve chegou a estar duas vezes na frente com gols de Roberto Bettega e Fabio Capello, mas Paul Madeley e Mick Bates deixaram tudo igual para o Leeds. O 2 a 2 deixou os ingleses em boa situação para o jogo de volta, no dia 3 de junho. Em Elland Road, Allan Clarke abriu a contagem aos 12 minutos e Pietro Anastasi igualou para os bianconeri aos 20. Mas o placar de 1 a 1 acabou persistindo até o fim, e o time de Don Revie levantou pela segunda vez a taça.

Pobre Juventus: terminara a competição invicta, com oito vitórias e quatro empates (contando os dois nos jogos decisivos), mas sem o caneco para honrar a memória de Armando Picchi. Por outro lado, era a conquista que salvava a temporada do Leeds: após a traumatizante temporada 1969/70, em que o time brigou a sério em três frentes (liga inglesa, FA Cup e Copa dos Campeões) e terminou de mãos abanando, o segundo título da Copa das Feiras assegurava o status do clube de Yorkshire como força continental – mesmo que aquela fosse a última edição da competição.

A despedida

A Uefa, que segundo algumas fontes já vinha auxiliando extraoficialmente a organização, assumiu o controle do torneio, revisou alguns dos critérios de classificação e rebatizou a competição como Copa da Uefa, uma nomenclatura até trivial, mas que também servia para deixar bem claro quem estava por trás dela. A estrutura, porém, com 64 equipes que não haviam vencido nem a liga nem a copa nacional se enfrentando em partidas eliminatórias, foi mantida.

Mas a Copa das Feiras ainda teria um desfecho simbólico de sua história: em 22 de setembro de 1971 o Barcelona, primeiro clube campeão do torneio (e o maior, considerado o título discutido de 1958), recebeu o Leeds, último vencedor da competição, no Camp Nou para uma partida que valeria a posse definitiva do troféu. Os dois clubes também eram os primeiros no ranking histórico do certame. O Barcelona venceria por 2 a 1, dois gols do esquecido atacante Teófilo Dueñas, com Joe Jordan descontando para o Leeds.

Curiosamente, as duas primeiras edições da Copa da Uefa levariam adiante o domínio dos clubes ingleses que vinha desde os últimos anos de sua antecessora. Na temporada inaugural, 1971/72, haveria inclusive uma final entre times do país, com o Tottenham superando o Wolverhampton em jogos de ida e volta para se sagrar o primeiro campeão do novo troféu europeu. Já na edição seguinte, seria a vez do Liverpool, que conquistaria seu primeiro caneco do continente ao bater o Borussia Mönchengladbach na final.

Por fim, embora a Uefa sempre fizesse questão de frisar que não havia nenhuma relação com a Copa das Feiras e que os resultados obtidos pelos clubes no torneio extinto não eram contados oficialmente para suas estatísticas, na cultura popular do futebol europeu (tanto na época quanto muito tempo depois) o que se viu foi uma associação natural: vários almanaques, enciclopédias, álbuns e guias trataram os dois torneios como se fossem uma coisa só, apenas o prosseguimento do anterior com um nome diferente.

De todo modo, ainda que sua história não tenha sido absorvida ou tampouco abraçada pela Uefa, trata-se de um torneio oficial que marcou época, escreveu grandes histórias, colocou gigantes do continente frente a frente e aos poucos conseguiu conquistar o público, apesar de sua estranheza inicial. A ideia original de Thommen (que faleceria em 1967), Barassi (que morreria pouco depois de o torneio passar às mãos da Uefa, em novembro de 1971) e Rous de integração do continente havia sido concluída com êxito.

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Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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