Vítor Pereira foi do paraíso à pressão absurda, mas saída não resolveria maior problema dos Wolves
Técnico, que chegou ao clube em cenário semelhante ao que encara atualmente, herda problemas antigos e não encontra soluções em campo
Nenhuma vitória nas nove rodadas da Premier League; sete gols feitos e 19 tomados. O início de temporada alarmante do Wolverhampton deixa Vítor Pereira pressionado no cargo e incumbido de ajudar o clube a se livrar do rebaixamento pela segunda vez seguida.
Quando o português desembarcou no Molineux, em dezembro de 2024, a tarefa principal era resgatar o ânimo dos jogadores após a demissão de Gary O’Neil, que saiu com o time na vice-lanterna do Campeonato Inglês. Quase um ano depois, Vítor Pereira se encontra em situação semelhante à de seu antecessor.
Os Wolves são os últimos colocados na tabela atual com apenas dois pontos somados. “Montanha-russa”, diz Tom Gibson, da página “Wolves Fancast”, ao definir o trabalho do treinador à Trivela.
O torcedor acredita que os dois próximos jogos serão cruciais para o futuro de Pereira. O plantel vai ao Craven Cottage neste sábado (1º) para enfrentar o Fulham e na semana seguinte encara o Chelsea em Stamford Bridge. Depois, há a pausa para a Data Fifa.
Scott Mason, jornalista no “Molineux News”, vai além e ressalta que o duelo contra os Cottagers já deve ser encarado como uma decisão.
— Quase certo que, se os Wolves perdem para o Fulham, vai ser o fim (da era) Vítor Pereira. Não ficaria surpreso em ver um interino no jogo contra o Chelsea e (a diretoria) usar a Data Fifa para contratar o próximo treinador — afirma ele à Trivela.
Mas como um trabalho que parecia promissor ruiu tão rapidamente? Gibson e Mason apresentam seus pontos de vista.
Vítor Pereira herda problemas antigos nos Wolves
Para entender o contexto geral, é preciso breve recapitulação. O Wolverhampton de 2024/25 também começou a temporada em baixa, mas conseguiu engatar uma sequência de quatro jogos invicto — duas vitórias e dois empates — entre a nona e a 12ª rodada da Premier League, o que sugeriu que o grupo poderia reagir. Porém, O’Neil não resistiu a outros quatro reveses.
O inglês, no entanto, não saiu sem sugerir que desaprovava as atitudes da diretoria no mercado. Na época, o clube somou quase 100 milhões de libras por negociar Max Kilman e Pedro Neto e havia mais 100 milhões de libras referentes às vendas de Ruben Neves e Matheus Nunes. Se desfazer de jogadores importantes sem ter reposições à altura prejudicou o desempenho, na visão do antigo técnico.
O comando do elenco mudou, contudo, as queixas continuam as mesmas. “Os Wolves tiveram muitos técnicos de alto nível nos últimos anos e a falta de sucesso deles se deve à falta de ambição da diretoria”, comenta Mason.
— Vítor era um dos técnicos mais queridos desde Nuno (Espírito Santo), e seu excelente trabalho não foi recompensado com um aumento no mercado de transferências — completa.

Vítor Pereira estreou com vitória no Wolverhampton: 3 a 0 sobre o Leicester na rodada 17. Depois, perdeu para o Manchester United e empatou com o Tottenham, resultados que permitiram ao time sair da zona da degola.
Ainda assim, a luta contra o rebaixamento continuou. Na reta final, o grupo ganhou mais respiro e chegou a ficar em 13º lugar, mas encerrou o campeonato em 16º.
Matheus Cunha assumiu o protagonismo diante da situação adversa e foi fundamental para assegurar os Wolves em mais um ano na elite inglesa. Sem o brasileiro e outras peças-chave, como Ait-Nouri, o clube tem sofrido.
— Neste momento, não acho que Vítor possa repetir o feito (manter o time na primeira divisão). Ele não tem um jogador como Matheus Cunha agora e não há ninguém capaz de produzir aqueles momentos mágicos no ataque — destaca Mason.
Gibson concorda e adiciona. “O elenco precisa de melhorias e a chegada de vários jogadores de qualidade. Os que estão não são fortes o suficiente para competir em uma temporada de 38 jogos”.
- - ↓ Continua após o recado ↓ - -
Ações do Wolverhampton no mercado e táticas de Vítor Pereira são pontos negativos
O planejamento relacionado ao elenco da temporada 2025/26 foi feito em duas etapas nos Wolves. A diretoria estabeleceu primeiramente a necessidade de aliviar a folha salarial.
Matheus Cunha, Semedo, Pablo Sarabia e Gonçalo Guedes figuravam na lista de altas remunerações, segundo o “Daily Mail”, e deixaram o Molineux. Essas e outras movimentações ajudariam o clube a ficar em conformidade com as regras de fair play financeiro da Inglaterra.
Depois, houve mudanças no departamento de mercado — e, consequentemente, na forma de contratar. Domenico Teti assumiu como dirigente do futebol profissional em junho e tinha entre as atribuições intermediar e facilitar o diálogo do administrativo e da comissão técnica. A ideia seria evitar equívocos no mercado.
O Wolverhampton queria implementar método semelhante ao já adotado pelo Brighton de se reforçar com jovens promissores que sejam potencialmente desconhecidos e possam se desenvolver no time, de modo a proporcionar lucro no futuro.
Assim, o meia-atacante Fer López (21), ex-Celta de Vigo, e o lateral-esquerdo David Moller Wolfe (23), por exemplo, desembarcaram na Inglaterra para defender o time.
Contratar Jhon Arias, de 28 anos, foi exceção e ocorreu a pedido de Vítor Pereira, após o ex-Fluminense se destacar no Mundial de Clubes.
Arias e os demais recém-chegados ainda não conseguiram fazer torcedores deixarem de sentir saudades de Cunha e outras ex-estrelas do elenco, mas também há queixas em relação às táticas do treinador.
— Ele se perdeu taticamente e as contratações foram desastrosas, deixando o elenco atual com uma batalha muito difícil pela frente — opina Gibson.
Scott Mason acredita que o português adota postura muito defensiva. Ele quis jogar com três defensores desde o início do ciclo, mas os alas não têm criado tantas oportunidades no ataque.

A dupla espera que comissão técnica e, principalmente, a diretoria aprendam com os erros. “São muitas lições, mas seriam menos se os donos e o presidente tivessem uma visão clara e estratégica para o clube daqui para frente, sem tentar ser autossustentável em uma liga implacável que não permite estagnação”, reflete Tom Gibson.
Mason, por sua vez, destaca que a passividade da gestão cobra o preço. O jornalista relembra que tem sido comum nas últimas temporadas do futebol inglês os três times que conseguiram acesso da Championship à elite serem rebaixados na Premier League seguinte, e que os executivos do Wolverhampton teriam pensado que a situação se repetiria na campanha 2025/26.
Contudo, Sunderland (4º), Leeds (15º) e Burnley (16º) — que subiram nesta temporada — podem quebrar a escrita e aumentar a ameaça sobre equipes como os Wolves, que estão há mais tempo na primeira divisão mas não reagem. “As negociações feitas demonstraram arrogância e complacência de que os três times promovidos poderiam cair”, analisa ele.
— Por mais que Vítor Pereira mereça críticas por suas escolhas e gerenciamento durante os jogos, o problema maior é Fosun (grupo proprietário do clube) — conclui.



