Premier League

Posição da Premier League sobre o VAR dá forte recado aos inimigos da tecnologia

Wolverhampton quis acabar com o árbitro de vídeo na Inglaterra e provocou discussão sobre o assunto

Menos de um mês após o Wolverhampton entrar com pedido para banir o VAR na Premier League para temporada 2024/25, os clubes da elite inglesa votaram a continuação da ferramenta em assembleia nesta quinta-feira (6).

Apesar de algumas críticas ao árbitro de vídeo, a decisão por continuar com a sua ajuda foi quase unânime. Dezenove de 20 clubes ingleses votaram contra a remoção do VAR — apenas os Wolves foram a favor.

As instituições entendem que a questão é melhorar e não banir — além de saber que a decisão poderia ser nocivo para imagem da liga.

Para conseguir a aprovação, precisaria da maioria de dois terços da liga (14 x 6).

No entanto, a reunião ao menos serviu para manter uma discussão sobre o tema. Agora, a organização do Campeonato Inglês debateu e garantiu mudanças para temporada que vem.

— Embora o VAR produza uma tomada de decisão mais precisa, foi acordado que melhorias devem ser feitas para o benefício do jogo e dos torcedores — afirmou a Premier League em comunicado.

A principal mudança será a implementação do impedimento semiautomático no outono europeu (entre setembro e dezembro), já aprovada pela liga em abril.

Mas também foram prometidos outros seis pontos:

  • Mais transparência nas decisões tomadas pelo VAR;
  • Treinamento sobre o uso da ferramenta para tornar mais rápida e precisa a tomada das decisões;
  • Manter um “critério alto” de erro grave para o VAR intervir nas decisões de campo;
  • Reduzir o tempo perdido com a ferramenta — o que já acontecerá com o impedimento semiautomático;
  • Decisões do VAR serão anunciadas nos alto-falantes das arenas para explicar a decisão aos torcedores, buscando melhorar a experiência do fã que vai ao estádio, também causada pela redução do tempo na análise;
  • Plano de comunicação para esclarecer o papel da tecnologia no futebol para torcedores e outros interessados.
Fim do VAR? Clube pede e Premier League vai votar continuidade da ferramenta
VAR foi discutido na Premier League (Foto: Icon Sport)

As polêmicas do VAR nesta temporada da Premier League

A elite do futebol inglês utiliza a ferramenta desde 2019, mas os discursos contra o árbitro de vídeo nunca estiveram tão fortes como na temporada recém-finalizada.

Em setembro do ano passado, aconteceu o mais grave erro até hoje da ferramenta na partida entre Tottenham e Liverpool. Aos 33 do primeiro tempo, Luis Díaz abriu o placar para os visitantes, mas foi marcado o impedimento no campo.

O VAR analisou os lances, traçou as linhas e viu que a posição era legal. No entanto, disse para o árbitro confirmar a decisão do campo por pensar que tinham dado o gol.

Um gravíssimo erro de comunicação, pautado pela pressa que o futebol inglês tem em tomar decisões no vídeo, causada por uma resistência local à tecnologia.

O áudio do VAR deixou ainda mais constrangedora a falha, e a PGMOL, associação que representa os árbitros da Premier League, admitiu que houve erro humano. O jogo terminou com vitória dos Spurs, 2 a 1.

Os ataques em entrevistas contra o árbitro de vídeo também foram algo comum na temporada. Mikel Arteta, técnico do Arsenal, soltou os cachorros contra o VAR após a derrota para o Newcastle em novembro.

Na opinião do espanhol, o gol da vitória dos Magpies, marcado por Anthony Gordon, seria ilegal. No lance, há dificuldade em ter certeza se a bola saiu pela linha de fundo ou não, além de uma possível falta.

— Como diabos esse gol foi validado? Incrível. Eu me sinto envergonhado. É isso que é: uma desgraça. Há tanta coisa em jogo, dedicamos tantas horas para competir no mais alto nível e vocês não imaginam a quantidade de mensagens que recebemos dizendo que isso não pode continuar. É constrangedor — disparou Arteta.

Nottingham Forest escreveu uma carta de reclamação e pensou até em processar o PGMOL após perder para o Everton, em abril, quando teve três possíveis pênaltis não marcados pelo árbitro Anthony Taylor.

Por que o Wolverhampton queria o fim do VAR?

Os Wolves não pediram o fim do VAR por se sentirem prejudicados de alguma forma grave na temporada 2023/24.

O clube do Molineux Stadium argumentou que o preço pago por ter uma tecnologia que dá um “pequeno aumento na precisão” está em “desacordo com o espírito do jogo”.

Também exaltaram que o objetivo era construir um debate construtivo e crítico sobre a ferramenta — o que, no fim, deu certo. Ainda elencaram nove itens negativos causados pelo VAR, principalmente para os torcedores.

  1. Impacto nas comemorações dos gols e na paixão espontânea que torna o futebol especial
  2. Frustração e confusão dentro dos estádios devido às demoradas verificações do VAR e à má comunicação
  3. Ambiente mais hostil com protestos, vaias ao hino da Premier League e gritos contra o VAR
  4. Ultrapassagem do propósito original do VAR de corrigir erros claros e óbvios, agora analisando excessivamente as decisões subjetivas e comprometendo a fluidez e integridade do jogo
  5. Diminuição da responsabilização dos árbitros em campo, devido à rede de segurança do VAR, levando a uma erosão da autoridade em campo
  6. Erros contínuos apesar do VAR, com os torcedores incapazes de aceitar erros humanos após múltiplas visualizações e replays, prejudicando a confiança nos padrões de arbitragem
  7. Interrupção do ritmo acelerado da Premier League com verificações demoradas do VAR e mais tempo de acréscimo, fazendo com que as partidas sejam excessivamente longas
  8. Discurso constante sobre as decisões do VAR, muitas vezes ofuscando a partida em si e manchando a reputação da liga
  9. Erosão da confiança e da reputação, com o VAR alimentando alegações de corrupção completamente absurdas

VAR deve sofrer com hostilidades na próxima temporada

Apenas a abertura de uma votação de proibição do VAR deve levar a hostilidades contra a ferramenta na próxima temporada.

Como no Brasil, com os discursos de John Textor sobre suposta manipulação de resultado no campeonato nacional, agora quando algum árbitro errar na Inglaterra terão vários torcedores alegando que “os Wolves estavam certos” — no Brasileirão, qualquer falha dos juízes vira motivo para “Textor está certo“.

E é exatamente ao contrário. O VAR, apesar das falhas, torna o futebol mais justo. Um dado que evidencia isso é o aumento nos acertos dos árbitros.

Segundo o The Athletic, desde que o VAR foi implementado em 2019, a eficácia das decisões saltou para 96%, sendo 82% no período antes da tecnologia.

Um bom exemplo é a Championship, a segunda divisão inglesa que não tem o árbitro de vídeo e teve 85% no acerto das decisões de campo, de acordo com a English Football League (EFL).

Claro, melhorias são sempre bem-vindas. Só a chegada do impedimento semiautomático já diminuirá muito as críticas.

Mas é importante lembrar que ainda é uma ferramenta operada por humanos, está sujeita a falhas — e poucas, como vimos.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius é nascido e criado em São Paulo e jornalista formado pela Universidade Paulista (UNIP). Escreveu sobre futebol nacional e internacional no Yahoo e na Premier League Brasil, além de eSports no The Clutch. Além disso, atuou como assessor de imprensa no setor público e privado.
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