Premier League

Em campo era ótimo, fora dele nem tanto: Firmino detalha relação com Salah e Mané no Liverpool

Em autobiografia, Roberto Firmino falou sobre seu papel fora de campo no trio de ataque histórico que formou com Mohamed Salah e Sadio Mané no Liverpool

O fim das últimas duas temporadas do Liverpool foram marcadas pelas despedidas de grandes ídolos, principalmente no setor ofensivo. Em junho de 2022, a venda de Sadio Mané ao Bayern de Munique por €32 milhões (cerca de R$ 169 milhões, na época) desmanchou o histórico trio de ataque que o senegalês formou com Mohamed Salah e Roberto Firmino por cinco anos. Já em maio de 2023, foi a vez do brasileiro dar adeus à Anfield. Juntos, marcaram 350 gols e venceram seis títulos, incluindo uma Champions League, uma Premier League e um Mundial de Clubes. Em campo, os três sempre se entenderam e foram essenciais na equipe de Jürgen Klopp. Fora dele, no entanto, a relação não era tão simples — muitas vezes conturbada justamente pelo que acontecia nos gramados.

Ao menos é o que diz o próprio Firmino no livro “Sí Señor, My Liverpool years” (“Sim Senhor, Meus anos no Liverpool”), lançado nesta quinta-feira (9) nas livrarias físicas da Inglaterra. Um trecho da obra, por enquanto disponível apenas na língua inglesa, detalha a relação do trio de ataque mais marcante do Reino Unido nos últimos anos e foi publicado pelo The Guardian. Nele, o antigo camisa 9 dos Reds relembra uma desavença entre Mané e Salah durante uma vitória por 3 a 0 sobre o Burnley, em agosto de 2019. Na ocasião, o senegalês saiu de campo visivelmente irritado com o egípcio por não ter recebido a bola em lances em que estava livre. O brasileiro, então, precisou executar uma função que já fazia dentro das quatro linhas: ser o elo entre os dois goleadores.

Em vídeo que viralizou nas redes sociais, Firmino apareceu no túnel rumo ao vestiário entre Salah e Mané, que estavam com a cara fechada. O alagoano, no entanto, esboçava um sorriso em meio à uma careta. O gesto pode ter sido involuntário, mas colocou panos quentes na situação e acalmou a torcida do Liverpool.

— Enquanto subíamos as escadas saindo do campo, o clima estava pesado; não houve a alegria que deveria ter havido com outra vitória – a nossa quarta em quatro jogos na Premier League. E lá estava eu ​​de novo, no meio dos dois. Atrás de Salah e à frente de Mané no túnel, uma câmera olhando diretamente para nós. Quando vi, não pude deixar de sorrir, fazendo uma careta que dizia algo como: ‘Você viu isso?! As coisas esquentaram entre esses caras hoje! Não se preocupe, no entanto. Não é nada’ — relatou o brasileiro.

O ‘bombeiro’ Firmino

Em campo, Roberto Firmino sempre foi considerado voluntarioso no Liverpool. Por mais que fosse a peça centralizada do ataque e utilizasse a camisa 9, ele não era o artilheiro do time, mas sim a engrenagem perfeita para que Mané e Salah fossem os goleadores. Ao que tudo indica, ele era tão importante para o trio fora das quatro linhas quanto dentro, muitas vezes sendo o ‘bombeiro’ e apagando o fogo entre os companheiros.

— Eu conhecia esses caras muito bem, talvez melhor do que ninguém. Era eu lá em campo, bem no meio deles. Vi em primeira mão os olhares, as caretas, a linguagem corporal, a insatisfação quando um estava bravo com o outro. Eu podia sentir isso. Eu era o elo entre eles no nosso jogo ofensivo e o bombeiro nesses momentos. Para muitos, aquele desentendimento entre Sadio (Mané) e Mo (Salah) foi o primeiro; para alguns, o primeiro e o último. Mas eu sabia que isso estava acontecendo desde a temporada anterior, 2018-19. Meu instinto e meu dever era acalmar a situação entre eles. Colocar água no fogo – nunca gasolina — continuou Firmino.

O brasileiro ainda falou sobre a fama de ‘fominha’ de Salah — algo que não surpreende quem acompanha a carreira do egípcio, principalmente nos primeiros anos de Liverpool. Apesar de dizer que a característica do camisa 11 frustrava o restante da equipe, Firmino admite que o companheiro ficou menos ganancioso com o passar do tempo e que a postura era normal para quem sempre quer marcar gols.

— Não sei se ele sabia disso ou não, mas Salah costumava frustrar todo mundo quando não passava a bola. Eu sabia como lidar com essa situação melhor do que a maioria. Klopp abordou esse assunto na frente de todos nós: quando um companheiro estava em melhor posição, a bola tinha que ser passada. Foi uma dica clara dirigida a Salah. Ao longo dos anos, devo dizer, este aspecto do seu jogo melhorou significativamente. Aos poucos ele aprendeu a ser menos egoísta e mais cooperativo – apesar de ser um atacante, um artilheiro, e todo artilheiro tende a ser um pouco ‘ganancioso’ na busca por um gol. Isso é normal — afirmou.

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Para Firmino, Mané era o mais explosivo do trio

Hoje no Al-Ahli, da Arábia Saudita, o jogador de 32 anos revela que Mané era o mais explosivo do trio — outro fato que não surpreende tendo em vista o episódio com Salah contra o Burnley e as desavenças que teve no vestiário do Bayern de Munique na temporada passada. Mesmo assim, o brasileiro e o senegalês sempre se deram bem.

— Mané foi mais intenso nos momentos bons e ruins. Ele foi o mais explosivo de nós três e também a pessoa com quem tive mais liberdade para discutir esse assunto. Eu estava sempre conversando com ele, dando conselhos, tentando acalmá-lo. Eu diria a ele para encontrar a paz, jogar pelo time e ficar relaxado — conta no livro.

Ao terminar de falar sobre o trio de ataque histórico no trecho publicado pelo The Guardian, Roberto Firmino fala sobre a possibilidade da relação entre Mohamed Salah e Sadio Mané ter sido prejudicada pelos confrontos entre Egito e Senegal. Em 2021, a seleção de Mané superou a de Salah na final da Copa Africana de Nações na disputa por pênaltis após um empate em 0 a 0. No ano seguinte, novo triunfo nos pênaltis colocou Senegal na Copa do Mundo do Catar, deixando o Egito pelo caminho.

— Eles nunca foram melhores amigos; cada um se manteve reservado. Era raro ver os dois conversando e não tenho certeza se isso tinha a ver com a rivalidade Egito-Senegal nas competições africanas. Eu realmente não sei. Mas também nunca pararam de conversar, nunca cortaram laços. Sempre atuaram com o máximo profissionalismo.

— Talvez por isso fui o mais substituído por Klopp. Nós três tínhamos personalidades muito diferentes e o Chefe sabia que eu não jogaria uma garrafa no chão nem nada parecido. Se eu estivesse incomodado, falaria com ele em particular depois. Quando era necessária uma substituição, era mais fácil tirar Bobby do que perturbar qualquer um dos outros dois — completou.

Tite e Mundial de Clubes contra o Flamengo

O jornalista Julio Gomes, que escreveu o livro junto com Roberto Firmino, também deu mais detalhes sobre “Sí Señor, My Liverpool years” em coluna no Uol. Sem publicar trechos como o The Guardian, ele fala sobre passagens que contam a relação do atacante com o técnico Tite na seleção brasileira e do Mundial de Clubes vencido sobre o Flamengo em 2019.

Firmino esteve na Copa do Mundo de 2018, disputando quatro jogos e marcando um gol, foi campeão da Copa América em 2019 e fez parte do ciclo para o Mundial do ano passado, mas não foi convocado para ir ao Catar. Seu último chamado para defender o Brasil foi em setembro de 2022, às vésperas do torneio, mas acabou ficando no banco nos amistosos contra Tunísia e Gana.

Obviamente, não ter entrado em campo nos dois compromissos não agradou Firmino, mas o atacante teve suas esperanças de convocação para a Copa renovadas em um encontro com Tite em Anfield, após uma partida contra o Napoli pela Champions League. O atual treinador do Flamengo teria se desculpado por não tê-lo colocado para jogar nos amistosos e culpou um erro dele e da comissão técnica quanto à distribuição de minutos para os jogadores convocados.

A reunião em uma sala de Klopp no estádio do Liverpool também contou com a participação do goleiro Alisson e o volante Fabinho. Ambos foram chamados para a Copa do Mundo do Catar, ao contrário de Firmino. Dentre aqueles que ficaram de fora da lista com 26 nomes, o atacante foi o atleta que mais vezes foi chamado por Tite no ciclo para 2022, com 15 convocações. O atual camisa 10 do Al-Ahli não conversou mais com o técnico após o encontro em Liverpool, tendo recebido apenas uma mensagem de áudio do auxiliar César Sampaio dizendo que havia sido uma decisão muito difícil e pedindo para que ficasse preparado, já que seria a primeira opção em caso de algum corte.

Roberto Firmino foi convocado 15 vezes por Tite no ciclo da Copa do Mundo de 2022, mas não foi chamado para ir ao Catar (Foto: Lucas FIgueiredo/CBF)

Já sobre o Mundial de Clubes de 2019, Firmino destacou uma conversa entre ele, Alisson e Jürgen Klopp. A dupla brasileira alertou o treinador sobre o Flamengo comandado por Jorge Jesus, campeão do Brasileirão e da Libertadores naquele ano. O alemão se surpreendeu com a “questão de honra” trazida por seus jogadores e passou a se interessar mais pelo torneio, perguntando sobre jogadores do Rubro-Negro e preparando a equipe para a decisão com outro peso.

No fim, Roberto Firmino marcou na prorrogação o gol da vitória do Liverpool por 1 a 0 sobre o Flamengo. Difícil saber, mas a conversa pode ter sido decisiva para que o brasileiro seguisse em campo após o tempo normal, já que costumava ser substituído na Premier League. Na época, Klopp afirmou que “ninguém merecia fazer o gol mais do que ele”.

Foto de Felipe Novis

Felipe NovisRedator

Felipe Novis nasceu em São Paulo (SP) e cursa jornalismo na Faculdade Cásper Líbero. Antes de escrever para a Trivela, passou pela Gazeta Esportiva.

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