Premier League

Tecnicamente brasileiro, taticamente e mentalmente italiano: como Jorginho se define

Sem nunca ter atuado profissionalmente no Brasil, o ítalo-brasileiro Jorginho explicou quais características como jogador casam melhor com cada nacionalidade

Imagine nascer em um país, viver os primeiros 15 anos de sua vida lá, se mudar para outro continente e, nove anos depois, estar defendendo e precisando se identificar com as cores de uma nova seleção nacional. Foi isso que aconteceu com o ítalo-brasileiro Jorginho, atualmente no Arsenal. Sem ter tido muitas oportunidades nas categorias de base de clubes do Brasil, o meio-campista se mudou para a Itália ainda jovem e por lá se encontrou futebolisticamente, não só atingindo o profissionalismo como chegando até a titularidade pela Azzurra numa conquista de Eurocopa em 2021.

Prestes a completar 32 anos, Jorginho agora viveu mais tempo na Europa do que na América do Sul. Seus últimos cinco anos e meio foram na Inglaterra, enquanto os outros quase 12 foram na Itália. Tendo crescido e desenvolvido sua paixão por futebol no Brasil mas tendo alcançado seu sonho na Terra da Bota, o camisa 20 dos Gunners hoje associa partes de seu jogo a cada país. Com a bola no pé, parece mais um brasileiro. Sem ela, tem o pensamento de um italiano. E quem diz isso é ele mesmo.

— Essa é uma (pergunta) complicada porque eu tenho ambas (características). Taticamente, eu não acho que sou brasileiro. Falando de futebol, taticamente para mim é Itália. E tecnicamente, talvez brasileiro. Talvez mentalmente, mais italiano — disse o ítalo-brasileiro em longa entrevista ao The Athletic.

Ao chegar na Itália, Jorginho integrou as categorias de base do Hellas Verona. Antes de atuar pela equipe principal dos Mastini, o meio-campista estreou profissionalmente em um empréstimo ao modesto Sambonifacese. Em 2014, cerca de oito anos depois de deixar o Brasil, ele foi contratado pelo Napoli, onde se destacaria a ponto de ser convocado pela seleção italiana pela primeira vez em 2016.

Jorginho já disse em outras oportunidades que não se arrepende de ter escolhido a Azzurra, até porque foi o país que o “escolheu” (palavras dele mesmo quando chegou ao Arsenal) enquanto o Brasil não lhe deu a chance de realizar seu sonho. Ao The Athletic, no entanto, o jogador comentou sobre como o sentimento de pertencimento dos italianos com ele depende muito do desempenho em campo. Se for bem, é italiano; se jogar mal, é brasileiro.

— Não é fácil. É difícil, é duro. Infelizmente, isso afeta você porque você dá tudo, tenta o seu melhor. Às vezes, seu melhor não é o suficiente. E as pessoas esquecem que somos apenas seres humanos — lamentou.

Críticas após pênaltis perdidos e confiança para bater novamente

Vestindo a camisa da Itália, Jorginho passou por altos e baixos em pouco tempo. Após não conseguir ajudar a Azzurra a disputar a Copa do Mundo de 2018, o meia foi titular absoluto e um dos destaques da conquista da Euro 2020, realizada em 2021. Menos de um ano depois, no entanto, ele desperdiçou dois pênaltis cruciais nas Eliminatórias para o Mundial do Catar que culminaram na ida do país à repescagem e, posteriormente, uma traumática eliminação para Macedônia do Norte. Naquele momento, as críticas foram maiores do que nunca.

— A primeira pessoa que te machuca? É você. Porque você não queria que isso acontecesse. Quando acontece, você é o primeiro a se apunhalar pelas costas. ‘Porque você fez isso' ou ‘porque você não fez outra coisa'. Não é legal. Se um jogador de futebol comete um erro, parece que é o fim do mundo. Todo mundo quer matar você. Se você fizer um erro aqui (no The Athletic), você cometeu o erro e é isso. Talvez seu chefe fique aborrecido com você. Mas nada vai afetar seus filhos, sua família. Conosco, é diferente porque afeta muitas outras pessoas, não apenas nós (jogadores envolvidos). Talvez minha mãe, meu pai e minha irmã estejam no estádio. Meus filhos, quando vão para escola e (as outras crianças) dizem: ‘Seu pai, blá, blá blá', sabe? Isso sem mencionar as redes sociais — declarou Jorginho.

— Eles podem dizer qualquer coisa e se esconderem atrás de uma tela, sabe? Mas isso não afeta apenas eu, apenas o jogador. Não aconteceu comigo mas aconteceu com outros jogadores: ameaças às famílias por um jogo de futebol. É um jogo que todo mundo ama. Ao invés de ser uma alegria, pode ser uma tragédia. Está indo por esse caminho — completou.

Jorginho sempre foi considerado um bom batedor de pênaltis, tendo marcado 42 gols em sua carreira dessa forma. No entanto, os erros contra Suíça nas Eliminatórias, na disputa da final da Euro contra a Inglaterra e, recentemente, contra a Macedônia do Norte criaram dúvidas quanto à sua posição de batedor oficial. Na última quarta-feira (29), no entanto, ele voltou a marcar convertendo uma penalidade nos minutos finais na goleada do Arsenal sobre o Lens pela Champions League — naquele que foi seu primeiro gol pelo clube.

— Eu acredito em mim, e eu acredito que eu posso ajudar o time. Isso não é uma situação egoísta, eu quero provar que sou bom o suficiente… não, eu não preciso provar para ninguém. Eu só acredito que posso ajudar o time a marcar o gol — explicou.

Contando apenas cobranças no tempo normal, Jorginho havia convertido 21 cobranças e perdido somente uma até a metade de setembro de 2020. De lá para cá foram marcados outros 21 gols, mas com sete erros ao longo do caminho. Para o ítalo-brasileiro, a maior incidência de equívocos é decorrência de um estudo maior dos goleiros sobre o batedor, mas existe uma forma de levar e melhor sobre os arqueiros.

— Os goleiros estão estudando cada vez mais, e cobrar uma penalidade está ficando cada vez mais difícil – e vai ficar cada vez mais difícil. Então, em algum momento, pensei: ‘preciso de outra opção’ (de batida). Não é fácil para os goleiros, eles vão estudar, treinar e se preparar apenas para essa opção. Então, tendo outra, pode ficar um pouco mais complicado (para eles) — relatou.

Papel no Arsenal e relação com Arteta

Atualmente, o Arsenal de Jorginho é líder da Premier League e está classificado para as oitavas de final da Champions League com uma rodada de antecedência — e como primeiro colocado do Grupo B. O camisa 20, no entanto, tem tido um papel diferente do que exerceu em seus cinco anos de Napoli e quatro e meio de Chelsea. Na atual temporada, ele participou de 17 das 22 partidas disputadas pelos Gunners, mas foi titular em apenas oito.

— Sim, é um pouco diferente. Mas estou feliz – se não estivesse feliz, não estaria aqui. E é diferente do Napoli porque eu era bem mais jovem. Mas aqui, no Arsenal, é bastante parecido com onde estive no Chelsea. É tudo uma questão de ajudar, alcançar e desenvolver a equipe juntos — garantiu.

Apesar de estar sendo menos utilizado do que em outros momentos da carreira, Jorginho tem a confiança do técnico Mikel Arteta. Ao ser perguntado sobre qual razão fez com que o treinador espanhol solicitasse sua contratação em janeiro deste ano, o meia não soube dizer ao certo, mas revelou que o interesse era antigo.

— Talvez essa seja uma pergunta para ele! Não sei… ele tentou me contratar algumas vezes, tivemos uma conversa e ele disse, ‘essa será a última vez que tentarei’. Mas acho que ele confia nas minhas qualidades, não só dentro de campo, mas fora dele também, porque tudo o que quero e tento fazer é ajudar; ajudar todos os meus companheiros, todo mundo do clube e ajudar a comissão técnica, trazendo minha experiência, minha mentalidade de querer vencer sempre — pontuou.

Por fim, Jorginho falou sobre a forma de Arteta trabalhar e o como o treinador planeja tudo meticulosamente para criar um plano ideal que atenda as características de seu elenco.

— O que ele tenta fazer é criar uma estratégia que consiga tirar o melhor de si, para que ele possa ler as características dos jogadores que tem, e a forma como ele quer jogar permite que as suas melhores características apareçam. Exemplo: quando ele quer que eu jogue, ele não quer que eu vá disputar a bola no ar. Ele colocou a estratégia de que vou para a segunda bola — explicou Jorginho.

— Tudo está planejado. Às vezes não funciona, mas em todas as situações de um jogo, você pode ter certeza que Mikel Arteta trabalha nisso — concluiu.

Foto de Felipe Novis

Felipe Novis

Felipe Novis nasceu em São Paulo (SP) e cursa jornalismo na Faculdade Cásper Líbero. Antes de escrever para a Trivela, passou pela Gazeta Esportiva.
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