Eurocopa

A Europa é azzurra! A grandeza da Itália merecia mais uma Eurocopa e, depois de 53 anos, a seleção é bicampeã dentro de Wembley

A Itália lidou bem com Wembley lotado, pressionou para empatar e contou com Donnarumma nos pênaltis

A Europa volta a ser azul, pela primeira vez desde 1968, com o título da Itália na Euro 2020. A equipe de Roberto Mancini fez uma competição excelente e, apesar da pressão dentro do Wembley lotado, voltará para casa com a taça continental depois de 53 anos. A decisão da Eurocopa teria uma partida equilibrada, em que a Inglaterra abriu o placar logo cedo e a Itália reagiu no segundo tempo, amassando até arrancar o empate por 1 a 1. A prorrogação teve alguns lances de perigo para cada lado, mas os dois times se alternaram e até pareceram cautelosos. A definição ficou para os pênaltis. Então, brilhou Donnarumma, com duas defesas decisivas e os erros dos ingleses que saíram do banco para bater. Méritos expressos da Azzurra, com uma campanha para ser celebrada ao longo de sua história.

As formações

A Itália manteve a escalação da semifinal, com seu 4-3-3. Gianluigi Donnarumma era o goleiro, com Giovanni Di Lorenzo, Leonardo Bonucci, Giorgio Chiellini e Emerson Palmieri na defesa – e a inestimável perda de Leonardo Spinazzola. No meio, a trinca tinha Jorginho, Nicolò Barella e Marco Verratti. Já o trio ofensivo era composto por Federico Chiesa, Ciro Immobile e Lorenzo Insigne. A Inglaterra mudou, desenhada num 5-4-1 para ganhar amplitude nas laterais. Jordan Pickford seguia no gol, com a defesa alinhada com Kyle Walker, John Stones e Harry Maguire. Kieran Trippier e Luke Shaw subiam nas alas, com Declan Rice e Kalvin Phillips mantidos na cabeça de área. Raheem Sterling e Mason Mount faziam a ligação, com Harry Kane na referência.

O gol-relâmpago de Shaw

A Inglaterra precisou de menos de dois minutos para balançar as redes, no gol mais rápido da história das finais de Eurocopa. A jogada começou na lateral esquerda, com Shaw, e teve continuidade com Harry Kane recuado na intermediária. O centroavante abriu com Kieran Trippier na direita e o lateral não se viu pressionado. Teve tempo de observar as movimentações e achar Shaw passando livre na segunda trave. Cruzou com capricho e permitiu que o camisa 3 fuzilasse, sem nem dar tempo de reação a Donnarumma.

Inglaterra escapa pelos lados

A partir de então, o jogo se desenvolveu conforme o esperado: com a Itália trabalhando a posse e a Inglaterra recuada. Entretanto, o gol dava mais segurança aos Three Lions. A Azzurra tinha dificuldades para romper a marcação adversária e sua primeira chance se resumiria a uma cobrança de falta de Lorenzo Insigne, que mandou o chute por cima do travessão. Além disso, a Inglaterra tinha grande escape com seus laterais. Muitas vezes as jogadas acabavam com Trippier e o ala efetuava seus cruzamento. Por volta de dez minutos, deu trabalho à defesa italiana, que precisava rifar o perigo. Os azzurri demoraram a acertar a marcação, dando muitos espaços. A opção tática de Southgate com dois alas desmontava a proteção, especialmente em cima de Emerson.

Paredão da Inglaterra

A Itália não conseguiu sequer responder com contra-ataques neste momento. A defesa da Inglaterra ia bem nos combates pelo chão e mantinha sua área como território proibido. Além do mais, quando os italianos buscavam os cruzamentos, Maguire garantia a segurança. Os italianos também temeram a saída de Jorginho, que sentiu dores, mas voltou ao jogo. A partir dos 25 minutos, o duelo caiu de ritmo em Wembley. A Azzurra trocava passes e esbarrava na parede dos Three Lions. Faltava encontrar alguma brecha.

Itália arrisca um pouco mais

Aos 35 minutos, a Itália teve seu melhor lance no primeiro tempo. Chiesa fez ótima jogada individual, escapou da marcação na marra e arriscou da entrada da área, em chute que saiu ao lado da trave. A posse de bola da Azzurra até aumentou, mas a marcação da Inglaterra não amolecia. Immobile seria travado, antes de Verratti bater para uma defesa tranquila de Pickford. Enquanto isso, os Three Lions também não fariam muito. No máximo, chegaram nas proximidades da área antes de serem desarmados.

As primeiras mudanças na Itália

O segundo tempo começou sem alterações. Nos primeiros minutos, a Itália teria um cartão amarelo para Barella e um contato de Chiellini sobre Sterling na área, que a arbitragem desta vez não interpretou como pênalti. A Azzurra permaneceria ditando o ritmo e ganhou uma ótima falta frontal com cinco minutos, mas Insigne mandou para fora. Ainda não era uma atuação tão agressiva dos italianos, mas a equipe buscava mais. E logo Mancini realizou suas primeiras alterações, aos 10. Domenico Berardi e Bryan Cristante substituíram Immobile e Barella.

Blitz italiana

A Inglaterra daria sua segunda finalização no jogo apenas na sequência. Em cobrança de falta, Mount cruzou e Maguire cabeceou para fora. Mas quem realmente se acendia era a Itália. Na resposta, Chiesa bateu travado e a sobra ficou com Insigne. O ponta chegou à linha de fundo e encheu o pé, mas Pickford conseguiu rebater. A pressão italiana era sufocante e renderia outro bom lance aos 17, quando Chiesa abriu da esquerda para o meio e chutou da entrada da área. Pickford se esticou todo para salvar. Do outro lado, as principais chegadas da Inglaterra se resumiam às bolas paradas. Donnarumma até trabalharia, espalmando uma cabeçada de Stones para a linha de fundo. Mas o momento era mesmo da Itália.

Na raça, Bonucci empata

A Itália conseguiu o empate aos 23 minutos. E seria ela a aproveitar uma bola parada. O escanteio nasceu num cruzamento de Chiesa, que Maguire salvou no limite. Na sequência, Emerson cobrou e Cristante deu uma casquinha no primeiro pau. Chiellini não alcançou e Verratti acertou a cabeçada para baixo, em outra defesaça de Pickford. A bola ainda tocou na trave e ficou viva na pequena área para Bonucci, que concluiu o lance brigado às redes. E não seria o tento que faria a Azzurra tirar o pé do acelerador.

Itália não desacelera

Southgate respondeu ao gol com sua primeira troca, ao colocar Bukayo Saka no lugar de Trippier e retomar a formação da semifinal, num 4-2-3-1. Entretanto, quem quase virou na sequência foi a Itália. Bonucci mandou um lançamento ótimo e Berardi saiu por trás da zaga. Pickford conseguiu fechar o ângulo e o atacante mandou por cima do gol. Logo depois, seria Cristante a abrir o caminho para os italianos e ser travado. Southgate mudou outra vez, com Jordan Henderson dando mais agressividade ao meio no posto de Declan Rice. E o problema da Inglaterra ao subir suas linhas era se expor ao inspirado Chiesa, fazendo fila sempre que possível.

Chiesa sai

O grande lamento da Itália seria perder Chiesa aos 40. O ponta torceu o pé após uma grande arrancada e daria lugar a Federico Bernardeschi. Neste momento, a Inglaterra conseguia se postar mais no ataque, ainda que sem criar tantas oportunidades. Os times pareceram se poupar um pouco mais, já imaginando a prorrogação. O melhor lance dos ingleses viria aos 44, numa grande jogada individual de Sterling, que passou por vários defensores e acabou saindo pela linha de fundo antes de cruzar. Nos acréscimos, a Itália ficaria mais com a bola e tentou algumas espetadas, sem sucesso. Antes do tempo extra, daria tempo a um amarelo a Chiellini por puxar a camisa de Saka e impedir um contra-ataque.

Primeiro tempo da prorrogação

A Itália começou a prorrogação com Andrea Belotti no lugar de Insigne. O ritmo era mais lento, até que a Inglaterra desse os primeiros sustos. Numa bola espirrada, os ingleses contragolpearam e Sterling apareceu com espaço na esquerda, mas Chiellini foi perfeito para travar. Logo depois, na sobra do escanteio, Kalvin Phillips arrematou com perigo de fora. Manuel Locatelli logo substituiu Verratti, enquanto Jack Grealish veio para a vaga de Mount. Os Three Lions eram melhores e pareciam mais propensos ao gol. Ainda assim, a Azzurra melhorou na reta final e a melhor jogada viria aos 13. Emerson se livrou da marcação e cruzou fechado. Pickford saiu bem para rebater quando Bernardeschi aparecia para o desvio e, na sobra, Belotti mandou para fora.

Segundo tempo da prorrogação

O segundo tempo da prorrogação voltou mais animado. Bernardeschi cobrou uma falta para Pickford defender em dois tempos. Do outro lado, Grealish seria travado e Donnarumma saiu no soco em cruzamento que quase o complicou. Depois haveria um contragolpe armado por Locatelli e Belotti, mas o centroavante estava impedido. E quando Sterling apareceu na área, Chiellini realizou um desarme excepcional, todo contorcido. O jogo só pararia numa entrada de Jorginho sobre Grealish, que rendeu o amarelo. A Itália mudaria neste momento, com Alessandro Florenzi no lugar de Emerson. A reta final da prorrogação ficaria picotada, com a Azzurra trocando passes, por vezes arriscando um cruzamento. E Southgate se prepararia aos pênaltis, com Marcus Rashford e Jadon Sancho enfim em campo, nos lugares de Henderson e Walker. Ficaria nisso.

Os pênaltis

A Itália começou cobrando e, em seu primeiro tiro, Berardi só deslocou Pickford. Donnarumma acertou o canto de Kane, mas o artilheiro mandou no cantinho e fez. O primeiro a perder foi Belotti, chutando mal e facilitando a defesa de Pickford. E a Inglaterra passou a frente com Maguire mandando no ângulo. Bonucci tirou do alcance de Pickford para empatar e Rashford mandou no pé da trave. A Itália recuperou a dianteira com Bernardeschi, chutando no meio. Para Donnarumma aparecer pela primeira vez, buscando o arremate de Sancho. Quando Jorginho poderia ter dado a vitória, Pickford esperou e fez a defesa. Porém, no chute final, Donnarumma se agigantou outra vez e espalmou a finalização de Saka, garantindo a vitória por 3 a 2.

O que fica para a Inglaterra

O anticlímax para a Inglaterra é grande. A equipe jogava em casa, crescia no torneio e saiu em vantagem no placar. A defesa sólida deu conta durante um tempo, mas a equipe careceu de recursos quando sofreu o empate. E a cobrança sobre Gareth Southgate será grande. O treinador acertou na escalação, mas as mudanças posteriores não surtiram efeito. Os Three Lions, de qualquer maneira, possuem uma geração jovem o suficiente para manter o país entre os favoritos nas próximas competições internacionais. Mas não terão a força de Wembley, como foi nesta Euro. O jejum de 55 anos e a virgindade na Eurocopa se ampliam.

O que fica para a Itália

A longa invencibilidade da Itália desemboca em uma conquista maiúscula. Ter apenas uma Eurocopa em sua prateleira era pouco à Azzurra e, depois de dois vices, finalmente a taça voltou aos italianos. Roberto Mancini é o melhor treinador desta Euro 2020 e provou isso com uma equipe cheia de recursos, que soube encarar diferentes adversários e lidou até mesmo com a perda de um protagonista como Spinazzola. Neste domingo, Chiellini e Bonucci fizeram um jogo gigantesco no miolo de zaga. Donnarumma seria o herói no momento final. Chiesa brilhou no ataque enquanto esteve em campo. E as mudanças de Mancini, especialmente no segundo tempo, foram bem mais efetivas para a reconquista da Europa.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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