Esta coluna é uma parceria da Trivela com o OlimpCast, que trará toda semana um texto relembrando algum fato marcante dos torneios olímpicos de futebol. Leia mais colunas aqui e ouça o podcast Olimpicast.

O destino e os desígnios dos cartolas foram ingratos na hora de estabelecer uma relação entre Diego Maradona e os Jogos Olímpicos. Nascido em 31 de outubro de 1960, meses após a edição disputada em Roma, na Itália, o Pibe que nos deixou nesta quarta-feira como um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos engrossa a lista de estrelas da bola que não tiveram a possiblidade concreta de disputar a maior de todas as competições poliesportivas. Maradona já beirava os 50 anos quando esteve pela primeira vez numa Olimpíada, a passeio. Mas já chegamos lá.

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Começamos nossa história no caminho até a Olimpíada de Moscou-1980, quando Maradona já estava fora de esquadro para os Jogos. Estrela da Argentina na conquista do Mundial Sub-20 no Japão, no ano anterior, ele já era visto como um craque de primeira grandeza – e, já consolidado como profissional do Argentinos Juniors, não poderia mais jogar o Pré-Olímpico, disputado em janeiro daquele ano, na Colômbia.

Não se esqueça: era a época do “amadorismo” entre aspas, que permitia aos países do bloco socialista escalar suas principais estrelas que não eram, ao pé da letra, profissionais. Os demais países europeus e os sul-americanos, em geral, levavam times de garotos. A Argentina venceu com sobras o torneio seletivo – mas, de toda forma, não foi à União Soviética porque os generais que comandavam o país aderiram ao boicote comandado pelos Estados Unidos, oficialmente como represália à ocupação soviética do Afeganistão.

O boicote tirou muitas estrelas de Moscou e trouxe de vez o debate político para os Jogos Olímpicos. Saiba mais dessa história no nosso episódio 23:

Maradona se tornou rapidamente o craque da seleção principal da Argentina, e, mesmo sem brilhar na Copa do Mundo de 1982, sua presença nos campos da Espanha o impediu de jogar as Olimpíadas seguintes, Los Angeles-1984 e Seul-1988, nas quais valeu a regra que vetava jogadores que tivessem entrado em campo na principal competição da Fifa.

A AFA inclusive desistiu do Pré-Olímpico em 1984, disputado no Equador – Brasil, medalha de prata, e Chile foram os indicados da Conmebol. Já em Seul, o time foi com força brigar pela medalha, mas parou no Brasil nas quartas de final, com um golaço de Giovane.

Em 1992, começou a valer a regra da idade máxima de 23 anos, mas ainda sem as três exceções. E a Argentina novamente fracassou no Pré-Olímpico, no qual avançaram Paraguai e Colômbia. Ao fim, a última Olimpíada no radar do jogador Maradona foi a de Atlanta-1996, mas o craque já estava fazendo suas danças finais pelo Boca Juniors, muito longe do radar do técnico – e desafeto – Daniel Passarella, que levou como “veteranos” o zagueiro Sensini, o lateral-esquerdo Chamot e o volante Simeone. A Argentina ficou com a prata, derrotada pela Nigéria na final.

Depois de ficar fora de Sydney-2000, eliminada pelo Chile no Pré-Olímpico, a Argentina quebrou em Atenas-2004 um jejum de mais de 50 anos sem medalhas de ouro. Em dose dupla: ganhou o basquete masculino e o futebol, liderada por um Tevez em estado de graça. Mas Maradona vivia naquele momento o auge de sua luta contra a dependência química, internado em uma clínica de Buenos Aires depois de um tempo de tratamento em Cuba.

Foi só em Pequim-2008 que Maradona e os Jogos Olímpicos enfim se encontraram. E foi uma festa, com o craque fazendo o que sabia de melhor fora dos campos: bagunça e agitação. Foi visto nas arquibancadas do tênis, prestigiando David Nalbandian, e no basquete, na torcida pelo time de Ginóbili & cia. E, claro, seguiu de perto o futebol. Estava nas arquibancadas no dia em que a Argentina de Messi, Riquelme e seu então genro Aguero, treinada pelo velho amigo Sergio Batista, destroçou o Brasil de Dunga nas semifinais, um 3 a 0 que saiu até barato.

O Brasil levou o bronze ao vencer a Bélgica, a Argentina ficou com o ouro e Diego então participou da cerimônia de entrega de medalhas, com direito a um papo especial com Ronaldinho Gaúcho, com quem sempre trocou elogios. Mais do que isso, Maradona aproveitou o passeio à China para dar seu último grande pulo do gato no futebol: foi lá que começou a fazer a cabeça de Julio Grondona, presidente da AFA, para assumir o comando da seleção principal, que vinha sendo criticada nas Eliminatórias sob o comando de Alfio Basile. Ao fim, uma derrota para o Chile em outubro selou a saída do veterano treinador e a escolha de Maradona, que levou Batista como auxiliar (dizem os maldosos, para ser o verdadeiro técnico enquanto ele aparecia para as câmeras).

O fato é que as Olimpíadas e Maradona só se cruzaram de longe, sem a chance de um relacionamento mais duradouro. Mas podemos pensar que tudo poderia ter sido diferente lá atrás se o técnico Jorge Griffa, responsável pela seleção amadora no Pré-Olímpico de 1976, tivesse levado Diego para o torneio, disputado em janeiro, em Recife. “Ah, mas ele era novo demais”, podem dizer. Sim, ele mal tinha completado 15 anos, mas já chamava a atenção com suas atuações pelos Cebollitas, como era conhecido o time de garotos do Argentinos Juniors.

Só que Griffa, decano na revelação de talentos do futebol argentino e até hoje visto como mentor de nomes como Marcelo Bielsa e Mauricio Pocchetino, na época cuidava das categorias de base do Newell’s Old Boys. E o técnico da seleção, Cesar Menotti, o convenceu a levar seu time de garotos de Rosario para representar a seleção no Pré-Olímpico. Uma decisão normal. Não consta que tenha havido protestos e panelaços em Buenos Aires por conta disso.

Num torneio em pontos corridos com seis seleções que classificava as duas primeiras para Montreal, a Argentina acabou em terceiro, atrás de Brasil e Uruguai – e revelou o meia Ricardo Giusti, então com 19 anos e futuro titular da seleção campeã do mundo com Maradona em 1986. A Celeste no fim abriu mão de ir aos Jogos e a Argentina recusou a herança da vaga, que acabou ficando com Cuba. O Brasil ficou em quarto, sua melhor campanha no período. E Maradona estrearia como profissional apenas três meses depois, 10 dias antes de fazer 16 anos, numa derrota do Argentinos Juniors por 1 a 0 para o Talleres, acabando com suas chances de um dia disputar uma Olimpíada. Quem há de adivinhar os desígnios do destino?