Argentina

Maradona não nos avisou, mas seu ato derradeiro no futebol foi um conto fantástico: a última veneração nos estádios argentinos

A cada rodada, um tipo diferente de culto. Cada estádio se transformava realmente num templo, abarrotado de fiéis, para venerar o deus do futebol argentino. Maradona não nos contou, mas teceu o último conto de realismo mágico de sua vida quando decidiu voltar a ser treinador na Argentina. E nem um grande escritor, por mais genial que fosse, poderia imaginar a epopeia derradeira de Maradona adornada por tantas reverências. Diego teve seu ato final nos gramados à frente do modesto Gimnasia, numa peregrinação cujo resultado das partidas quase nunca importou. Dios escolheu uma maneira única de se despedir, tão divina e tão terrena. Tão cheia de paixão, como haveria de ser, para que cada torcedor no país tivesse o conforto da última homenagem em vida antes do adeus.

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A relação de Maradona com o futebol argentino não se resume a cores. Não é uma história pintada em celeste e branco, por mais alto que tenha elevado a bandeira do país. Também não é uma história que se limita ao azul e dourado, por maior que fosse seu amor ao Boca Juniors. Diego era o menino do bairro, aquele que dormia com a bola e estava a cada esquina brincando de ser jogador. Era o Pibe, o Pibe de Oro, com o qual praticamente todos os compatriotas se identificavam. Porque Diego, como bom argentino, vivia o futebol em seu máximo. E viveu o futebol como só ele, em uma trajetória tão repleta de luz – própria, de um craque iluminado, ou dos holofotes apontados.

Diego tratava a bola como sua melhor amiga. Tratava a camisa como sua segunda pele. Tratava cada partida como a última e cada instante como seu. Diego era paixão em sua essência, o digno representante de uma nação que encarna o futebol em seu dia a dia. E uma nação esta que não é apenas a Argentina, ainda que os argentinos tivessem o orgulho de ver Diego como um dos seus.

A Argentina aplaudiu o Maradona que tocou os céus com a Mão de Deus, que transcendeu os limites do universo como Barrilete Cósmico. A Argentina sofreu junto com Maradona, e estendeu a mão para caminhar ao seu lado, tal qual a enfermeira na emblemática cena da Copa de 1994. A Argentina sonhou junto com o menino e realizou os sonhos junto com o craque. A Argentina entendeu o homem e entendeu que os erros do homem não diminuíam em nada aquilo tudo que foi sonhado. Afinal, “la pelota no se mancha”.

Todas as vezes que Maradona, em seu estado mais humano, precisou de ajuda, os argentinos abriram os braços para recebê-lo. Longe da bola, aquele deus do futebol se mostrava suscetível aos pecados mundanos. A fé maradoniana o sustentava, não por pena ou pesar, mas por gratidão. E por mais tortuosos que fossem os caminhos escolhidos pelo ídolo, os argentinos sabiam se reconhecer nele. Se ninguém poderia repetir a mágica que Diego fazia com a bola nos pés, seus fiéis não se viam no direito de apontar às suas falhas. Diego era gente, palpável. Assim, tão fácil de tocar.

Maradona se transformou em deidade através da bola. Depois, muitas vezes buscou a sensação de onipotência por outros meios e não conseguiu. Esteve perto da morte algumas vezes, mas a driblou como um daqueles beques da Inglaterra. Talvez sua história aguardasse um último capítulo de lenda, em outro papel dentro do futebol, que dimensionasse o tamanho daquilo que construiu com a canhota. Não seria na seleção argentina, como técnico em uma Copa do Mundo, tendo seu maior herdeiro como pupilo. Seria no campeonato local, onde os torcedores professam sua fé todas as semanas, desejando que algum menino talentoso surja como o novo Diego.

A última missão de Maradona seria à frente do Gimnasia de La Plata. Um clube com fama de azarado, sem um título sequer na era profissional do Campeonato Argentino, e que lutava contra o rebaixamento. O destino parecia escolher as circunstâncias mais dramáticas, prontas a figurar na letra lastimosa de um tango, para que Diego ressurgisse nos estádios do país. A luta da equipe dirigida pelo gênio seria a desculpa aos cultos a céu aberto, que se repetiram durante praticamente cinco meses, de setembro a fevereiro.

A apresentação de Maradona no Gimnasia surgiu tão logo com os detalhes surreais de um conto fantástico. Diego quis que a jornada começasse num domingo, com portões abertos para que a sua gente testemunhasse o início do ato derradeiro. Torcedores de todos os cantos foram ao Estádio del Bosque, tomando as ruas muito antes do horário marcado, carregando qualquer objeto que exaltasse o ídolo. Um estrondo tomou as arquibancadas assim que o novo técnico apareceu. E só Diego para explicar uma comoção que não se entende racionalmente.

O deus estava ali, em carne e osso. Aquele messias imaginado em seu esplendor num celeste cintilante sob o sol mexicano, agora, aparecia como um senhor vulnerável de boné e agasalho. Maradona não escondia o estado debilitado, nem a mente carregada pela emoção. Festejou e foi às lágrimas. Seria assim a peregrinação final, evidenciando as marcas do tempo, a passagem da vida. Talvez fosse uma mensagem sobre o corpo em seu fim, enquanto a alma absorvia toda a reverência oferecida pelos torcedores ao redor do país.

Diego prometeu corresponder o carinho das arquibancadas com trabalho árduo à frente do Gimnasia. Quem ganhou foi o futebol argentino, com tributos recorrentes e que ficam para sempre, dignos do sentimento que Maradona sempre suscitou em seu povo. A caminhada começou em casa, contra o Racing que ele havia treinado em outra aventura. Contra o Independiente em Avellaneda, Diego recebeu uma réplica do troféu de 1986 entregue por Ricardo Bochini – seu companheiro naquela conquista e também seu ídolo de infância. Em Rosário contra o Newell’s Old Boys, que abriu as portas ao camisa 10 em seus momentos difíceis, um trono foi oferecido à beira do gramado. E assim seria a cada compromisso. Porém, nada se compararia ao que ocorreu na Bombonera.

A homenagem a Maradona abriu uma noite inesquecível ao Boca Juniors, e a Diego. O estádio pulsava pelo deus presente em seu culto, mas também pela última rodada do Campeonato Argentino, que poderia dar o título aos xeneizes. E assim se fez, com o time ultrapassando o River Plate no topo da tabela justo na última oportunidade. Pouco importava a derrota do Gimnasia, que não cairia naquele momento, nem seria rebaixado com a interrupção da temporada semanas depois. Importava Diego ali, o torcedor, podendo vivenciar a Bombonera explodindo e comemorando sua última grande alegria no futebol. A última jornada com o estádio vivo, casa cheia, antes que os portões se fechassem por conta da pandemia.

Abstinência de futebol, estádios vazios, distanciamento social. Os últimos meses certamente não foram fáceis a Diego, pois o afastavam de sua essência. O homem enfrentou novos fantasmas e não voltaria à beira do campo com a retomada do Campeonato Argentino. A última aparição de Maradona pelo Gimnasia foi tímida, em meio às homenagens por seus 60 anos, mas às vésperas de enfrentar a recente cirurgia cerebral. Se a sua saúde andava frágil, opostamente fortes seriam as imagens dos torcedores fazendo vigília ao redor do hospital, antes que Diego recebesse alta. Antes que passasse os últimos dias em casa, até o anúncio desta quarta.

O homem se vai. Maradona descarna do corpo que o conduziu ao topo, que permaneceu como prova de que o fantástico aconteceu, que representou a autenticidade de seu gênio. A imortalidade fica nas lembranças de um deus que não se desfez por seus atos humanos e que nunca se desmancharia pelo ato mais inerente de ser humano – a morte. A lenda vive nos gestos de quem carrega Diego dentro de si, no peito de quem compartilha o fervor que Diego carregou nos gramados. Diego Armando Maradona transcende os limites de um personagem, e por vezes da própria compreensão. Isso, os argentinos puderam entender perfeitamente durante as últimas aparições do craque nos estádios. As últimas vezes que, de muito perto, presenciaram um messias feito à imagem e à semelhança da paixão que se leva à cancha.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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