Histórias Olímpicas

Emmanuel Amunike: o pé esquerdo que levou a Nigéria ao ouro em Atlanta-1996

São 43 minutos do segundo tempo e o calor do fim de tarde em Athens adiciona um elemento a mais ao cansaço típico dos minutos finais de uma decisão. Mas Emmanuel Amunike ainda tem fôlego para mais uma arrancada pelo lado esquerdo. Passa por um carrinho de Christian Bassedas e avança até perto da área, quando recebe uma trombada em Javier Zanetti e vai ao chão. O árbitro Pierluigi Collina marca falta sem pestanejar, apesar dos protestos dos argentinos.

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Se você ainda não identificou, estamos na final do futebol masculino nos Jogos Olímpicos de Atlanta-1996 entre Argentina e Nigéria, talvez um caso raro de jogos dos vizinhos de ficar sem saber par quem torcer – afinal, são décadas de rivalidade local com os albicelestes, mas os africanos haviam acabado de tirar o Brasil da briga pelo ouro com um histórico 4 a 3, a épica virada liderada por Nwankwo “ele é perigooooooso” Kanu. Mas tenha calma, já chegamos lá – Amunike, nosso herói deste texto, já nem estava em campo.

Os campos norte-americanos não eram uma novidade para ele, é verdade. Ele era em Atlanta um dos remanescentes da empolgante seleção que fizera sua estreia em Copas no Mundial de 1994, e marcou sua participação com dois gols: um na estreia, o último dos 3 a 0 contra a Bulgária (você certamente se lembra pouco do gol dele, e mais da comemoração nas redes de Yekini após o primeiro gol), e outro nas oitavas de final, abrindo o placar contra a Itália. Foi substituído no segundo tempo e já estava fora quando Baggio marcou duas vezes, uma nos minutos finais, outra na prorrogação – exatamente como Kanu castigaria o Brasil dois anos depois.

Amunike já havia sido decisivo para a seleção meses antes, em 10 de abril de 1994, quando fez os dois na vitória sobre Zâmbia que deu à Nigéria seu segundo título na Copa Africana de Nações.   Nessa época, defendia o Zamalek, do Egito, e os gols importantes lhe renderam um carimbo no passaporte rumo ao futebol europeu, para defender o Sporting. Brilhou pouco, e começou a sofrer com seguidas lesões nos joelhos. Mesmo assim, mostrou o suficiente para ser chamado à missão olímpica.

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Em Atlanta, a Fifa e COI (Comitê Olímpico Internacional) fizeram um ajuste na regra criada para os Jogos de Barcelona-1992: continuava o limite de idade de 23 anos, mas seriam permitidas três exceções para cada seleção. Isso permitiu a presença de algumas estrelas, como o goleiro italiano Gianluca Pagliuca e seu colega mexicano Jorge Campos. Também apareceram algumas futuras estrelas, como o espanhol Raúl, os italianos Alessandro Nesta e Fabio Cannavaro, o português Nuno Gomes e o mexicano Cuauhtémoc Blanco.

Mas foram os sul-americanos que levaram a coisa realmente a sério. Classificados após o Pré-Olímpico disputado no começo do ano em Mar del Plata, Brasil e Argentina queriam de qualquer jeito o ouro inédito e levaram a força máxima possível, inclusive os técnicos, Zagallo e Daniel Passarella, os mesmos das seleções principais.

Zagallo tinha um Ronaldo (ainda “Ronaldinho”) em grande forma física, além de jovens como Dida, Roberto Carlos e Juninho Paulista, e escolheu levar, fora do limite de idade, dois heróis do tetra, o zagueiro Aldair e o atacante Bebeto, e um futuro astro do penta, Rivaldo. Já Passarella começava a formar a geração que vestiria a camisa da seleção pelos próximos dez anos: lá estavam, ainda dentro do limite de idade, Pablo Cavallero, Javier Zanetti, Roberto Ayala, Matias Almeyda, Marcelo Gallardo, Ariel Ortega, Claudio López, Gustavo López, Hernan Crespo. Acima dos 23 anos, optou por remanescentes da Copa de 94 ainda com gás: o volante Diego Simeone, então com 26 anos; o lateral José Chamot, de 27; e o zagueiro Roberto Sensini, de 29.

A Nigéria, por sua vez, tinha conquistado sua vaga sem muita dificuldade, em mata-matas contra Quênia, Egito e Zimbábue. E o técnico Jo Bonfrere, que também era o responsável pela seleção principal optou, como “veteranos”, pelo meia Daniel Amokachi, outro remanescente da Copa, que havia ficado fora do prazo por dois dias (só valiam jogadores nascidos a partir de 1º de janeiro de 1973 e ele é de 30 de dezembro de 1972); o zagueiro Uche Okechukwu, de 28 anos; e Amunike, de 25 – ele nasceu no dia de Natal de 1970.

As Àguias estrearam com uma vitória apertada, 1 a 0 sobre a Hungria, gol de Kanu, e Amunike saiu durante o segundo tempo. Seria uma constante: ele entrava como o ponta pela esquerda num 4-4-2 à inglesa de muita movimentação; como segundo jogador mais velho e com joelhos frágeis, acabava não resistindo ao forte calor. Foi assim também na vitória contra o Japão, por 2 a 0, gols de Babangida e Okocha já no fim da partida, e na derrota por 1 a 0 para o Brasil, gol de Ronaldo, na última partida da primeira fase. Como o Japão havia surpreendido os brasileiros na estreia e todos venceram a Hungria, sul-americanos e africanos avançaram no saldo de gols, deixando os asiáticos pelo caminho.

Nas quartas de final, uma vitória tranquila contra o México, por 2 a 0, e Amunike mais uma vez saiu durante o segundo tempo. Nas semifinais, o chaveamento mal feito colocou a seleção de novo frente a frente com o Brasil, que venceu Gana por 4 a 2. A história já é bem conhecida: o Brasil abriu 3 a 1 no primeiro tempo, perdeu muitos gols na etapa final, Dida pegou um pênalti batido  por Okocha, Rivaldo perdeu uma bola besta no meio-campo que terminou em gol de Ikpeba – que havia substituído Amunike no intervalo.

Com o relógio batendo em 45, Okocha bateu um lateral na área e a bola sobrou para Kanu, que teve a tranquilidade de girar na frente de Dida e chutar para empatar o jogo. Com o Brasil moralmente arrebentado, a prorrogação durou menos de 5 minutos: após um lançamento que bateu nas costas de um companheiro, Kanu fuzilou com o pé esquerdo, adiando em 20 anos o ouro olímpico do Brasil e provocando um discurso indignado de Galvão Bueno.

Na final, o adversário seria a Argentina, que havia feito 2 a 0 com tranquilidade em Portugal – também repetindo confronto da primeira fase. Como os rivais tinham jogado um dia antes, e alguns minutos a menos, Bonfrere resolveu mudar sua estratégia e deixou Amunike no banco. Escalando Ikpeba como titular.

Os argentinos abriram o placar com Claudio López, aos 3 minutos, e o menino Celestine Babayaro, então com apenas 17 anos, empatou aos 28 – os dois gols marcados de cabeça. No segundo tempo, aos 5 minutos, Ortega se jogou numa trombada leve de Taribo West e o italiano Pierluigi Collina, visto então como o melhor árbitro do mundo, deu o pênalti, que Crespo bateu com perfeição.

A Nigéria pressionou muito, mas só foi conseguir o empate depois que Bonfrere resolveu apelar para a experiência e a sorte de Amunike, que entrou em campo aos 27 minutos, no lugar de Ikpeba. O ponteiro dos segundos nem completou a segunda volta e gol de empate das Super Águias saiu com um toque do talismã: ele disputa a bola com Sensini na ponta esquerda e consegue o lateral; faz menção de cobrar, mas deixa para Babayaro; o passe vai na cabeça de Kanu, que escora para Oruma furar – mas Amokachi, mesmo pressionado por Chamot, consegue um biquinho que encobre Cavallero.

E aí voltamos ao primeiro parágrafo deste texto: a arrancada de Amunike, o tranco de Zanetti, a fala. Oruma se posiciona para cobrar com o pé direito e o camisa 6 vai para a área, junto com mais três africanos e praticamente todo o time argentino. Só que a defesa resolve fazer uma linha de impedimento, e provavelmente nunca na história dos Jogos Olímpicos o apelido “linha burra” foi tão conveniente: Sensini, justamente o mais velho dos sul-americanos, atrasa alguns décimos, o suficiente para deixar Amunike em condições de desviar a bola fora do alcance do goleiro.

Abaixo, os melhores momentos do jogo com a TV argentina – dá para perceber que narrador e comentarista reclamam da marcação da falta, mas admitem a falha na linha de impedimento (curiosamente, a imprensa brasileira de quase forma unânime cravou a irregularidade do gol coisas de um tempo pré-VAR).

Ainda houve tempo para a Argentina especular em chuveirinhos para a área, sem sucesso. Quatro anos depois da primeira medalha olímpica africana no futebol, vinha o primeiro ouro, pelos pés das Águias vestidas de verde e branco. Nestes vídeos do COI, dá para ver todos os gols da campanha nigeriana e um VT da partida com 50 minutos de duração.

Para Amunike, foi seu auge. Semanas depois, foi contratado pelo Barcelona, a pedido do técnico Bobby Robson. Mas, na temporada 1997/98, já com Louis van Gaal, voltou a sofrer com lesões nos joelhos e quase não jogou. Acabou perdendo também a Copa do Mundo da França, mas voltou à seleção para a Copa das Nações de 2000, onde viu, mais uma vez do banco, sua seleção perder em casa o título para Camarões, nos pênaltis.

Cansado das complicações físicas, Amunike deixou os campos oficialmente em 2006, depois de dois anos praticamente sem jogar. Tentou a carreira de técnico, com passagens de pouco destaque pela seleção nigeriana sub-17 e pela Tanzania, que treinou na Copa das Nações de 2019 – foi demitido após a campanha de três derrotas, para Senegal, Quênia e Argélia. Entre um emprego e outro, vive hoje na Espanha, e sempre será lembrado como o dono do pé esquerdo que colocou a Nigéria e a África no topo do pódio.

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Fernando Cesarotti

Fernando Cesarotti é jornalista há 22 anos e professor há sete. Na Copa de 2018, escreveu a coluna 'Geopolítica das Copas' na Vice. Hoje, entre uma aula e outra, produz o OlimpCast, podcast que conta histórias dos Jogos Olímpicos. No Twitter, @cesarotti.

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