Histórias Olímpicas

Em Melbourne-1956, Yashin apresentou seu talento ao mundo como campeão olímpico

Esta coluna é uma parceria da Trivela com o OlimpCast, que trará toda semana um texto relembrando algum fato marcante dos torneios olímpicos de futebol. Leia mais colunas aqui e ouça o podcast OlimpCast.

Apontado na semana passada como o goleiro do Dream Team criado pela revista France Football, Lev Yashin somou uma coleção de honrarias e prêmios, tanto durante quando após sua longa carreira como profissional. Uma delas, a primeira vestindo a camisa da seleção da União Soviética, foi a medalha de ouro na Olimpíada de Melbourne, em 1956.

Yashin já era considerado uma estrela de primeira grandeza em seu país. Depois de um início de carreira conturbado, com disputas pela camisa 1 do Dynamo Moscou que o levaram a se revezar entre o futebol e o hóquei, ele só se firmou mesmo como titular a partir de 1954, mesmo ano em que começou a ser convocado para a seleção da União Soviética. Na estreia, uma goleada por 7 a 0 sobre a Suécia; em seguida, um empate por 1 a 1 com a poderosa Hungria, meses depois de o time liderado por Puskás ter ficado com o vice-campeonato mundial.

O bicampeonato nacional com o Dynamo em 1954 e 1955 firmou de vez Yashin, aos 26 anos, como titular da seleção. Em 11 de julho de 1956, foi o titular na vitória por 5 a 0 sobre Israel, em Moscou, que praticamente selou a presença da equipe nos jogos de Melbourne – vinte dias depois, esteve também em Tel-Aviv para o jogo de volta, nova vitória soviética, agora por 2 a 1.

Mas entre essa eliminatória e os Jogos, os primeiros a se realizar no Hemisfério Sul, e por isso deixados mais para o fim do ano, entre 22 de novembro e 8 de dezembro, o caldo entornou dentro da Cortina de Ferro. Na madrugada de 24 de outubro, tropas do Exército Vermelho invadiram Budapeste para coibir protestos de estudantes e operários que exigiam mais liberdade política na Hungria. A intervenção no governo local, considerado liberal demais para os padrões soviéticos, só foi consolidada depois de duas semanas de muita tensão – o que provocou uma baixa enorme no esporte húngaro, inclusive com o exílio de craques como Puskás e Kocsis e o consequente abandono pela seleção do torneio de futebol.

Curiosamente, o último jogo dos dois pela seleção da Hungria foi justamente um amistoso contra a União Soviética, disputado em Moscou, com Yashin no gol dos anfitriões e vitória dos visitantes por 1 a 0.

Se, por um lado, a desistência da Hungria facilitou o caminho da União Soviética levar a medalha de ouro, por outro a tensão da ocupação de Budapeste envolveu toda a delegação soviética em Melbourne. O destino ainda colocou os dois países frente a frente na decisão do polo aquático, tão violenta que ficou conhecida como a Batalha do Sangue na Água, história que contamos em nosso episódio 15, sobre os Jogos de Melbourne.

Com a bola rolando, o torneio ficou restrito a 11 seleções – além da Hungria, desistiram China, Egito, Turquia e Vietnã do Sul. E os soviéticos estrearam diante da Alemanha, que competia de forma unificada, mas que para aquela competição levou jogadores de futebol apenas do lado ocidental. E, apesar de amadores, os alemães deram trabalho: a União Soviética venceu por 2 a 1. Nas quartas, o adversário foi a Indonésia, e mesmo após 120 minutos de jogo o placar não saiu do 0 a 0. Em tempos anteriores à invenção da disputa por pênaltis, foi marcado um jogo extra dois dias depois, que terminou com vitória soviética tranquila, por 4 a 0. Mas Yashin não jogou essa partida: o técnico Gavril Kachalin preferiu escalar o outro goleiro, Boris Razinsky, do CSKA. 

Nas semifinais, o desafio era “interno”, contra a Bulgária, que chegava credenciada por uma goleada de 6 a 1 sobre o time amador britânico. Yashin voltou a ser titular, e o jogo novamente ficou no 0 a 0 no tempo normal. Na prorrogação, Ivan Kolev abriu o placar para os búlgaros aos 5 minutos da etapa inicial, mas a União Soviética conseguiu a virada no segundo tempo, com gols de Eduard Streltsov, aos 7 minutos, e Boris Tatushin, aos 11.

Na decisão, um reencontro com a Iugoslávia, contra quem os soviéticos tinham feito um épico e frustrante duelo em Helsinque, quatro anos antes: depois de chegar a estar perdendo por 5 a 1 e buscar um empate por 5 a 5, o time levou 3 a 1 no jogo extra e foi eliminado. Era a hora de revanche, e o ouro veio com um solitário gol de Anatoli Ilyin, marcado de cabeça no começo do segundo tempo. No vídeo abaixo há várias filmagens do jogo.

Enquanto a Iugoslávia amargava a terceira prata seguida, os soviéticos passaram a sonhar com conquistas maiores, sempre com Yashin no gol. Em 1958, foram às quartas de final do Mundial da Suécia, caindo para os donos da casa nas quartas; e dois anos depois alcançaram sua maior conquista, a primeira Eurocopa, vencendo novamente os iugoslavos na decisão. Yashin seguiu na seleção até 1967, disputando ainda as Copas de 1962 e 1966, onde conseguiu seu melhor desempenho, o quarto lugar, mas nunca mais disputou uma Olimpíada. Também foi reserva na Copa de 1970, sem entrar em campo. Pendurou a camisa 1 negra com a inscrição “CCCP” com a invejável marca de 72 gols sofridos em 74 jogos, menos de um por partida.

Yashin aposentou-se de vez no Dynamo em 1971, perto de completar 42 anos, com direito a um jogo de despedida que contou com Pelé e Beckenbauer, entre outros. Seguiu ligado ao clube e, ao contrário de outros ídolos soviéticos, não se envolveu diretamente com a gestão do esporte de forma mais ampla. Não há registro, por exemplo, de que tenha participado da organização dos Jogos de Moscou, em 1980. Sem problemas: o lugar do maior goleiro de todos os tempos entre os vencedores na maior de todas as competições esportivas já estava garantido.

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Fernando Cesarotti

Fernando Cesarotti é jornalista há 22 anos e professor há sete. Na Copa de 2018, escreveu a coluna 'Geopolítica das Copas' na Vice. Hoje, entre uma aula e outra, produz o OlimpCast, podcast que conta histórias dos Jogos Olímpicos. No Twitter, @cesarotti.

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