Futebol feminino

‘A reação quando defendi mulheres trans no futebol me fez perceber que tinha que fazer mais’

Lateral do Manchester City demonstrou apoio às mulheres trans após proibição no futebol feminino

A proibição da participação das mulheres trans pela Federação Inglesa de Futebol no futebol feminino do país chocou os apoiadores ao contrastar com histórico de inclusão da modalidade.

Em abril, um mês antes da decisão da Suprema Corte do futebol inglês, a lateral-direita do Manchester City, Kerstin Casparij, celebrou o gol marcado no empate contra o Everton por 1 a 1 beijando uma faixa nas cores azul, branco e rosa — referente à bandeira trans –, que usava em seu pulso direito.

—  Senti uma grande pressão política e emocional em relação à decisão da Suprema Corte [de proibir as jogadoras trans]. Isso me magoou muito, mesmo sendo uma mulher cisgênero, e ainda me magoa porque atinge pessoas da minha comunidade –, declarou a jogadora em carta escrita ao “The Guardian”.

Após a foto ser publicada em sua conta em uma rede social, Casparij recebeu apoio de jogadoras como Vivianne Miedema, Esme Morgan e Sandy MacIver, além de clubes da WSL. Já a capitã da Inglaterra, Leah Williamson, também se manifestou a favor da inclusão trans no esporte feminino.

— Após a decisão da Suprema Corte, eu queria espalhar solidariedade, dar-lhes amor e apreço e acabar com todo o ódio que eles estavam recebendo. Recebi tantas respostas incríveis de dentro da comunidade trans, de fãs trans de todos os clubes da WSL, de pessoas trans que amam esportes, mas de pessoas do mundo todo –, afirmou.

A resolução da entidade resultou em mudanças em todo o esporte do Reino Unido. Com a nova resolução, o jornal inglês pontuou as implicações, citando que a ação impede que mulheres trans participem de conselhos públicos em cargos reservados às mulheres, além de influenciar a formulação de políticas sociais em questões como vestiários públicos e espaços exclusivos para mulheres.

Womens Super League – Chelsea v Manchester City – Stamford Bridge
Kerstin Casparij no Manchester City (Foto: Imago)

Antes da decisão da FA, Natalie Washington, principal organizadora da campanha “Futebol vs. Transfobia” e que joga futebol americano de base desde 2017, disse 
ao “The Athletic” que temia que pessoas trans fossem afastadas do esporte.

Ainda segundo o “The Guardian”, a decisão deverá impactar entre 20 e 30 jogadores transgêneros, todos da base do futebol inglês.

— Aquela ação em campo, a resposta e o impacto que teve, me fizeram perceber que minha voz é muito mais alta do que eu imaginava. Subestimei a importância do nosso apoio àqueles que precisam de voz. Decidi que queria ajudar mais, retribuir à minha comunidade e, principalmente, ajudar as mulheres. São as mulheres trans que são afetadas pela decisão da Suprema Corte, mas é um ataque às mulheres como um todo — afirmou Kerstin.

De falta de representatividade na infância a embaixadora de fundação LGBT+

Em publicação no jornal inglês, Kerstin também relembrou a infância, quando a ausência de referências LGBTQIA+ no local em que nasceu impactou na sua relação com a comunidade “queer”.

— Cresci em uma cidade pequena na Holanda e não tinha muita gente queer no meu círculo social ou na escola, não havia muita representatividade na TV. Não me sentia parte da comunidade porque não sabia que ela existia. Crescendo, me assumindo e participando do futebol feminino, que tem um ambiente muito receptivo e aberto, e depois me mudando para Manchester, senti que podia ser eu mesma e me conectei muito mais com a comunidade. Tem sido uma parte revigorante da minha vida — relembrou a jogadora.

Manchester United Women v Manchester City Women
Women’s Super League
04/05/2025.
Kerstin Casparij durante partida pelo Manchester City (Foto: IMAGO / Pro Sports Images)

— Comecei a procurar maneiras de ajudar e entrei em contato com a Fundação LGBT, sediada em Manchester. Tornei-me patrona da organização em setembro e, em 3 de outubro, anunciei no meu Instagram o lançamento de um programa feminino chamado Levelling the Playing Field, onde estou ajudando a arrecadar fundos –, explica.

A fundação que a jogadora participa atua em diferentes áreas de apoio às mulheres em situação de vulnerabilidade e, para além dos gramados, Kerstin Casparij segue deixando um legado que representa em sua essência o futebol feminino: a inclusão e o combate à discriminação.

— A fundação ajuda centenas de mulheres a obter cuidados vitais, oferece a elas um espaço seguro e realiza workshops sobre saúde sexual, violência doméstica, sobriedade e muito mais. Especialmente no futebol feminino, somos bons em inclusão, e isso é algo de que nos orgulhamos. Precisamos de mais empatia em todas as áreas da sociedade –, declarou.

Foto de Carol Guerra

Carol GuerraRedatora de esportes

Jornalista formada pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), com passagens pelo Globo Esporte, Jornal do Commercio e Diario de Pernambuco. Apaixonada por futebol feminino e esportes olímpicos.

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