Libertadores Feminina

Roberta superou a depressão e hoje ajuda as gurias do Internacional a fazerem história na Libertadores

Em entrevista à Trivela antes de disputar histórica semifinal da Libertadores pelo Internacional, lateral Roberta Schroeder abre coração e fala sobre trajetória marcada por depressão

Independente de qual for o desfecho da Libertadores Feminina, a lateral Roberta Schroeder, do Internacional, já pode se considerar uma vencedora. A alegria que toma conta ao falar da histórica campanha das Gurias Coloradas nem sempre fez parte da vida da catarinense de 30 anos.

Em determinado momento de uma carreira marcada por lesões, Roberta enfrentou a depressão em seu estado mais grave. Em entrevista recente ao videocast “A Glória é Delas”, da CONMEBOL, ela revelou que cogitou suicídio. Foi o que a levou a procurar ajuda e consultar a terapeuta que a acompanha até hoje.

Direto de Cali, na Colômbia, onde entra em campo nesta quarta-feira, às 21h30min (horário de Brasília), contra o Corinthians, pela semifinal da Libertadores, Roberta atendeu com exclusividade a reportagem da Trivela. De coração aberto, contou mais detalhes de sua trajetória e ressaltou a importância do cuidado com saúde mental não só para atletas de alto rendimento, mas para todas pessoas.

“Cheguei no fundo do poço”

Como muitos jovens que vão atrás de seus sonhos, já cedo Roberta deixou a casa dos pais, na pequena Ituporanga, no interior de Santa Catarina. Ela precisou amadurecer rapidamente para encarar o, por vezes, cruel mundo do futebol. A depressão se desenvolveu após sofrer uma lesão que colocou em xeque a continuidade da carreira. 

— O time no qual eu estava, que prefiro nem comentar aqui, teve uma conduta que não foi muito legal. Isso me afetou demais. Trouxe vários gatilhos. Eu não acreditava mais que voltaria a jogar, não acreditava mais que era capaz de passar por mais aquele obstáculo, porque já estava um pouco cansada, por ter vivenciado muitas coisas dentro do futebol, em relação a lesão, superação, no que diz respeito a mim como atleta, como pessoa também — conta a lateral.

A opinião dos outros influenciava. Pessoas “muito importantes” falaram para Roberta que não acreditavam que ela voltaria a jogar futebol. E a defensora embarcou nessas falas.

A distância da família também a deixava vulnerável. Inicialmente, Roberta não quis revelar a eles o que estava sentindo, para não preocupá-los. Apegou-se nas companheiras de time, que hoje considera irmãs. Mas chegou a um ponto em que preciava contar aos seus familiares o que estava acontecendo.

— Eles estavam percebendo toda minha tristeza, a falta de sorriso no rosto quando me ligavam, coisa que eu sempre tive. Chegou o momento em que não conseguia esconder de mais ninguém. Foi um momento em que tive que baixar minha guarda. Cheguei no fundo do poço. Tive que procurar ajuda. Não queria que meu fim, tanto de carreira quanto de pessoa, aqui na Terra, de alma, fosse dessa maneira.

Cheguei no fundo do poço. Tive que procurar ajuda. Não queria que meu fim, tanto de carreira quanto de pessoa, aqui na Terra, de alma, fosse dessa maneira.

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Terapia foi fundamental para Roberta

Foi então que uma amiga, companheira de profissão, indicou a Roberta uma terapeuta. A profissional havia ajudado a colega da lateral a superar situação semelhante.

— Desde nosso primeiro contato me senti muito à vontade. [A terapeuta] Foi uma pessoa que trouxe luz em um momento em que eu só queria tomar decisões. Lembro que uma das primeira falas dela foi que existem dois momentos na vida em que você não pode tomar decisões: quando está muito triste e quando está muito feliz.

Existem dois momentos na vida em que você não pode tomar decisões: quando está muito triste e quando está muito feliz.

A terapia fez tão bem para Roberta que ela segue com a mesma profissional até hoje. E istrui as companheiras de Inter a também procurarem ajuda. Mas não só elas.

— Hoje sei que toda pessoa que pudesse procurar um psicológo, terapeuta… é necessário. É muito bom falar, mexer em coisas que você carrega por muito tempo dentro da sua vida. Trazendo para nosso mundo, procuro sempre levar para as meninas, falar da importância disso. E não ter vergonha. Ter coragem de pedir ajuda, sentar, falar sobre o dia a dia, sobre o que acontece. E tirar um pouco esse tabu que temos, do alto rendimento do futebol, em relação à terapia, psicologia também. Do quanto precisamos de ajuda para ter nossa mente alinhada com nosso corpo — enfatiza.

Em levantamento realizado em setembro, a Trivela mostrou que metade dos clubes da Série A do Campeonato Brasileiro de futebol masculino não contam com psicólogos. Embora ressalte a importância da presença desses profissionais nas equipes de alto rendimento, Roberta também destaca o caráter individual desse trabalho.

— Muitas pessoas dizem ‘ah, o clube tem psicólogo, mas as meninas não procuram’. Acho que é muito de você se sentir à vontade, sentir que ‘bateu’ com o profissional — opina.

Momento com as Gurias Coloradas

Com a maturidade de quem fala abertamente sobre esse tema delicado, mas tão relevante, Roberta tem acrescentado muito ao Inter na inédita participação de ambos na Libertadores. Mesmo reserva, é praticamente uma 12ª jogadora para o técnico Lucas Piccinato, com quem já havia trabalhado no São Paulo. A lateral, que atua tanto na direita quanto na esquerda, participou dos quatro jogos do Colorado até aqui na competição, e marcou o primeiro gol na goleada por 5 a 0 sobre o Boca Juniors, na última rodada da fase de grupos. Deverá atuar novamente nesta noite, na semifinal diante do Corinthians. Confira o que ela disse à Trivela sobre o momento com as Gurias Coloradas:

Campanha na Libertadores

— Desde o momento em que nós chegamos na Colômbia, o nosso objetivo, a nossa expectativa, sempre foi o título. Mesmo com muitas pessoas falando que nós não iríamos passar da primeira fase, porque era o grupo da morte. Tivemos uma primeira fase com vitórias nos três jogos em um grupo muito difícil, contra adversários muito difíceis. Conseguimos realizar boas partidas. Dentro daquilo que as partidas nos apresentavam, conseguimos viver os momentos do jogo. Contra o Colo-Colo, uma equipe muito qualificada, nós sabíamos que seria um jogo muito difícil, como foi na prática. Mas conseguimos ser maduras, marcar os gols e manter a nossa defesa sólida. Também dar tranquilidade para as meninas. Temos essa mescla, de um grupo novo com algumas mais velhas. Eu me encaixo nesse quesito das mais experientes. Acho que a gente está conseguindo equilibrar isso. A gente precisa usar um pouquinho das meninas mais velhas, acalmar um pouco os ânimos. Estou muito feliz de estar na semifinal, e não me assusta porque sei do dia a dia desse grupo, do dia a dia das pessoas que trabalham dentro do Internacional com a gente, que conhecem nosso trabalho e sabem o quanto a gente se dedica, o quanto trabalhamos neste ano para estar aqui. O quanto também foi fundamental as outras meninas que estiveram aqui desde o início do projeto do Inter, para que pudesse ter essa vaga, e estivesse disputando a competição mais importante da modalidade pelo clube.

Gol diante do Boca Juniors

— Eu não tenho muitos gols na minha carreira, então fiquei muito feliz. Mas, acima de tudo, estou muito feliz de estar aqui na Libertadores, porque é uma competição que eu tinha como auge na minha carreira, de ter a oportunidade de participar, de buscar esse título, de ter esse título na minha carreira. Esse gol contra o Boca veio para coroar tantos anos de espera, tantos anos de trabalho. Mas eu sei que tem muita coisa boa ainda pela frente, e só quero ajudar o Inter da melhor maneira: fazendo gol, defendendo, dando carrinho, dando passe… enfim, aquilo que for necessário. Só penso no título, só penso em comemorar com minhas companheiras esse título, levar essa taça para Porto Alegre. O torcedor colorado merece.

Roberta abriu caminho para a goleada que eliminou as atuais vice-campeãs da Libertadores. Foto: Staff Images Conmebol

Lucas Piccinato

— Fiquei muito feliz com a vinda dele pra cá. É um profissional que tenho total respeito, e sei da competência dele. Acho que o time conseguiu assimilar muito rápido, principalmente por enfrentar esse novo desafio, essa troca de comando. Nós sabíamos que tínhamos pouco tempo com ele até a estreia da Libertadores. Foi muito da nossa concentração, do nosso respeito com o trabalho dele, se permitir viver coisas novas com ele, o modelo tático dele, a questão de intensidade de jogo, aquilo que ele desde o início sempre tentou mostrar para nós. Como eu já conhecia, acabei entendendo mais rápido. Consegui também falar com as meninas, repassando para elas o jeito que ele gosta que o time jogue. Todas nós sabíamos da importância dessa Libertadores, sabíamos do tempo curto. Foi um trabalho em que todas estavam ali, diariamente, fazendo o que era necessário, o que era colocado para nós, tanto na parte dele como na parte física, para que pudéssemos chegar aqui na Libertadores e colocar em prática tudo aquilo que tivemos em pouco tempo. Mas era o que tínhamos no momento para chegar aqui na Libertadores preparadas e realizar grandes partidas.

Piccinato observa cobrança de lateral de Roberta: ambos já haviam trabalhado juntos no São Paulo. Foto: Luiza Diniz/SC Internacional

Semifinal contra o Corinthians

— Respeito muito grande pela equipe do Corinthians. Nós sabemos da qualidade que existe do outro lado. Sabemos que vai ser um duelo muito difícil, mas todas nós estamos com a cabeça no lugar, com os pés no chão, principalmente, sabendo que é possível. Sabendo que a caminhada não foi fácil para chegarmos até aqui. Será muito mais difícil para chegar na final. Mas essa questão de favoritismo eu deixo para mídia, para o torcedor. Estou focada no Inter, concentrada com minhas companheiras aqui, com toda a diretoria, com todo o staff, para que a gente possa chegar da melhor maneira possível na quarta-feira, realizar um grande jogo e dar mais um passo na direção do objetivo que a gente traçou desde o dia que nós chegamos aqui.

Foto de Nícolas Wagner

Nícolas WagnerSetorista

Gaúcho, formado em jornalismo pela PUC-RS e especializado em análise de desempenho e mercado pelo Futebol Interativo. Antes da Trivela, passou pela Rádio Grenal e pela RDC TV. Também é coordenador de conteúdo da Rádio Índio Capilé.

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