Futebol feminino

Formiga não se cansa – principalmente, de impressionar e de nos orgulhar

Já são seis Olimpíadas nas costas. Aos 38 anos, Formiga tem no tempo um inimigo e um aliado. Sim, a passagem dos dias diminuiu as chances de títulos, tornou escassas as oportunidades para a meio-campista abrilhantar ainda mais a sua grandiosa carreira. Mas o tempo ressaltou um fenômeno. A veterana que, não importa a fadiga de duas décadas atuando em alto nível, permanece incansável. Assim como o tempo nos oferece a chance de presenciar, jogo a jogo, um dos maiores talentos que o futebol feminino já contou. Uma medalha de ouro serviria para ratificar a história fantástica de Formiga no futebol. No entanto, ela não vem nos Jogos Olímpicos de 2016. Apesar de todo o esforço da veterana, o bronze é o que resta em sua última partida como atleta.

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Formiga viveu altos e baixos nos Jogos do Rio de Janeiro. Temeu ficar de fora da competição, após se lesionar na fase de grupos. Voltou a tempo para ser uma das melhores do time nos mata-matas. A meio-campista ofereceu aquilo que nós estamos acostumados há anos. E ainda assim impressiona: a onipresença em cada metro quadrado do gramado, a visão de jogo excepcional, a vontade em cada dividida. Contra a Austrália, nas quartas de final, a baiana permaneceu voando, mesmo na desgastante prorrogação. Por pouco não decidiu com seus lançamentos. Já nesta terça, de novo se destacou contra a Suécia.

O primeiro tempo de Formiga foi excelente. Com espaço para trabalhar a partir de trás, criou oportunidades para as companheiras e ofereceu enorme proteção na cabeça de área. Embora mais presa, conseguiu aparecer na área para ajudar na definição vez ou outra. Em uma equipe de parca organização, era a mente mais lúcida, a partir de sua capacidade individual. Com o decorrer da partida, as suecas diminuíram sua liberdade e até forçaram alguns erros. Mesmo assim, a camisa 8 se sobressaía, quase desempatando no fim do tempo regulamentar. Durante a prorrogação, mesmo com mobilidade reduzida após um choque, não deixou de se empenhar em busca da classificação. Infelizmente, não pôde comemorar.

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O mais instigante é que, independente do que diga sua idade, o fim parece distante a Formiga. A meio-campista demonstra o suficiente para fazer acreditar que estará na próxima Copa do Mundo, talvez até nas Olimpíadas seguintes. Não acontecerá. Se as pernas não dão qualquer sinal de desgaste, o que aproxima a veterana da aposentadoria é a sua cabeça. A força mental apresentada no Maracanã não deixa muitas dúvidas que, a ela, basta querer. A decisão, de qualquer forma, está tomada. Sua luta por melhores condições ao futebol feminino no Brasil se seguirá fora de campo.

“Troco tudo que conquistei e o que posso conquistar pela implantação do profissionalismo no Brasil. Sem pensar um momento. Eu não teria medalha, mas o Brasil ganharia muitas. Basta profissionalizar para que venha o ouro muitas vezes”, declarou horas antes da semifinal, em entrevista a Luis Augusto Simon, no UOL. “Quando a gente joga aqui, o carinho é enorme. Todo mundo gosta da gente. É um sucesso. Por que os clubes não montam times femininos? Impossível dar errado”.

Agora, é seguir em frente para o último desafio. Esperar a decisão do terceiro lugar e buscar o bronze, a terceira medalha de sua carreira. Mais uma conquista a quem já fez tanto, e demonstra que pode ainda mais por toda a sua vontade e por seu talento – mas, depois das Olimpíadas, se projetando como treinadora ou dirigente. “Não vou parar de falar. As coisas precisam melhorar”. Não temos dúvidas quanto a isso. Formiga é incansável.

PS: Fica aqui, também, a homenagem à seleção feminina de handebol, apesar da queda nas quartas de final. Não deixou de lutar contra a Holanda, embora tenha feito uma partida ruim do ponto de vista técnico, com falhas que já tinham acontecido na única derrota da primeira fase e o nervosismo diante da desvantagem no placar. De qualquer maneira, o trabalho feito na modalidade precisa ser elogiado. São verdadeiras craques.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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