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Todo mundo gostaria de contar com uma Formiga no time (e na seleção masculina)

Ela corre, e muito. Em um instante ela está na área, ajudando a marcar. Rouba a bola e já aparece puxando o ataque. Para também servir de opção dentro da área na conclusão. Ela tem uma visão de jogo como poucas (e poucos) e uma qualidade nos passes que a permite cumprir a risca tudo o que pensa, milimetricamente. Parece não se cansar, mesmo se multiplicando dentro de campo. Mesmo tendo 37 anos e disputando a sua sexta Copa do Mundo. A voz de liderança é, ao mesmo tempo, a cabeça pensante do time, as pernas do meio-campo, o reforço na marcação e o elemento surpresa no ataque. É impossível não se impressionar ao ver um bom jogo da Formiga. E não querer que ela defenda as cores do seu time.

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A habilidade de Marta é de outro mundo. Assim como Cristiane possui um faro de gol acima do comum. Uma grande camisa 9 e uma grande camisa 10. Formiga, por sua vez, consegue ser ao mesmo tempo uma excepcional 5 e uma excepcional 8, e se deixarem, também assumiria a 7. Talvez seja a soma desses três números que realmente explique sua camisa 20 na Copa do Mundo de 2015. Guardadas as devidas proporções, quando a via das arquibancadas, me lembrava Pirlo e Gattuso. Ao mesmo tempo, no mesmo jogo. A volante que sai para o jogo com extrema maestria e que também corre atrás da bola como se fosse um prato de comida. A pianista e quem carrega o piano.

Já são 20 anos de seleção brasileira. Nem parece. Basta ver a atuação da meio-campista em sua estreia no Mundial do Canadá. Marta ganhou os holofotes por quebrar o recorde de gols em Copas. Mas a melhor em campo mesmo foi Formiga. Marcou o primeiro gol e sofreu o pênalti do segundo. Estava em todo o canto, só vendo o videotape em câmera lenta para saber quantas camisas 20 estavam em campo. E dando a impressão de que poderá ir para a sua sétima Copa, aos 41 anos. Se duvidar, à oitava, aos 45.

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Formiga é sinônimo de trabalho. E como trabalha em campo. Sua e se esfola, na defesa e no ataque. É o tipo de jogadora que merece aplausos a cada lance. Ao final da partida, uma ovação só para ela. É o tipo de jogador que a gente sempre quer ver no nosso time, que vira ídolo pela dedicação e pelos anos de serviços prestados – ainda que, pela qualidade técnica, a veterana também valha muito. É uma craque que merece muito mais consideração, por estar entre os maiores que vestiram a camisa da seleção. E não falamos só das mulheres aqui.

Se muita gente sente saudades de volantes como Mauro Silva, César Sampaio ou Falcão, Formiga consegue ser um pouquinho de cada um deles. Dá um gás e um toque refinado que não se nota na seleção masculina há algum tempo. Quem sabe, também tivesse seis Copas do Mundo no currículo se fosse homem. Talento e capacidade física não faltam, apesar das diferenças naturais entre os gêneros.

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Com orgulho, eu digo que vi Formiga defender o meu clube, o São José, capitã no tri da Libertadores feminina. Que nunca vi outro melhor que ela com aquela camisa. E que, mesmo conhecendo um bocado da história da Águia, a considero maior do que qualquer outro, entre homens e mulheres. É raça e o refinamento reunidos de uma maneira única. Que merece todo o reconhecimento e que é bom aproveitar enquanto é tempo, porque não a veremos por mais tantos anos com a camisa da Seleção. Afinal, será difícil de encontrar outra volante assim. Com todo o perdão da palavra: a Miraildes é foda.

PS: Já tinha pensado em fazer este texto desde a estreia do Brasil, mas aproveitei a ocasião desta quarta. Com Formiga, Marta e as outras titulares no banco, o time reserva do Brasil venceu a Costa Rica por 1 a 0, no encerramento da fase de grupos da Copa do Mundo Feminina. Já garantida na primeira posição da chave, a Seleção venceu com gol de Raquel e manteve os 100% de aproveitamento. Pegará a Austrália nas quartas de final.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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