Futebol feminino

Diferença entre Brasil e Suécia está no banco: Seleção tem talento, mas Vadão não soube aproveitá-lo

O Macaranã foi palco de uma desilusão na tarde de terça. O Brasil perdeu para a Suécia nos pênaltis por 4 a 3, depois de um empate por 0 a 0 no tempo normal e prorrogação. A Seleção, melhor tecnicamente, não conseguiu se impor no jogo ofensivo, viu as suecas se armarem muito bem, em um time organizado. Se o talento era o grande trunfo do Brasil, o da Suécia estava no banco de reservas: Pia Sundhage, técnica campeã olímpica em 2008 e 2012 pelos Estados Unidos. Foi ela a grande responsável por montar um time que se organizou para frear a maior qualidade técnica do Brasil e sair do Maracanã vitorioso. No lado brasileiro, Vadão mostrou mais uma vez que está longe do nível que se espera de um técnico de seleção de ponta.

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A seleção brasileira pareceu não ter estudado o jogo da Suécia com os Estados Unidos e nem ter alternativa de jogo. Muitas vezes jogou no talento, em velocidade, tentando o drible como a forma de quebrar a defesa adversária. O problema é que a Suécia parecia preparada para isso. Se uma era driblada, logo outra jogadora estava fechando o espaço. Seria preciso um lance de muita inspiração para criar jogadas.

Sem Cristiane, o Brasil entrou em campo com Debinha novamente no ataque. O time teve postura e atitude, duas coisas que a seleção brasileira feminina tem de sobra, e isso é inegável. O time vinha de dois jogos sem marcar gols – o 0 a 0 com a África do Sul na última rodada da fase de grupos e o 0 a 0 com a Austrália nas quartas de final. Precisava, então, de mais eficiência ofensiva. A Suécia, ao contrário, sabia que precisava evitar o jogo de velocidade brasileiro.

O que se viu em campo foi uma Seleção que esteve no campo de ataque praticamente o tempo todo. As suecas entraram em campo para se defender e complicar o jogo da mesma forma como fizeram contra os Estados Unidos. Méritos para a técnica Pia Sundhage, medalha de ouro nas duas últimas Olimpíadas, que mudou a forma como o time marca depois de tomar 5 a 1 do Brasil ainda na primeira fase. Foi ali, na segunda rodada, que ela viu que seu time não poderia jogar como jogou contra o Brasil no estádio Nilton Santos. E tudo mudou.

No primeiro tempo, o Brasil amassou a Suécia e empurrou o time europeu para dentro da área. Debinha, de cabeça e de fora da área, teve duas ótimas chances para marcar. Marta, em uma linda jogada pela direita, quase marcou um lindo gol. O Brasil, bem melhor no jogo, tinha dificuldades de entrar na área com a bola dominada, mas conseguia criar jogadas. Deu a impressão que, uma hora ou outra, acabaria marcando o gol.

No segundo tempo, o técnico brasileiro, Vadão, mudou o time. Tirou a volante Thaísa e colocou a meia-atacante Andressinha. O time ficaria mais ofensivo e, no começo do segundo tempo, o Brasil tentou a mesma estratégia do primeiro, empurrando a Suécia para a defesa. Só que não durou muito. Desorganizado, o Brasil muitas vezes usou ligação direta, cruzou bolas na área sem ter quem pudesse completar para o gol e viu o tempo passar sem conseguir entrar na área adversária.

O Brasil não conseguiu trabalhar muito a bola e viu as comandadas de Pia Sundhage ameaçarem. Em contra-ataques, as suecas chegaram com perigo e ameaçaram o gol brasileiro. Já tinha sido assim no fim do primeiro tempo e, com o passar dos minutos, o Brasil sentiu o cansaço e o nervosismo. Viu o desempenho cair.

A Suécia, bem armada em um 4-5-1, não deixava as brasileiras entrarem na área. A maioria das jogadas acaba em finalizações com pouco espaço, ou de fora da área. Mesmo assim, na base do talento e do abafa, a Seleção foi para cima e tentou. Criou algumas chances, não tão claras, mas mesmo assim era melhor.

O empate por 0 a 0 no tempo normal foi o terceiro seguido. Contra África do Sul, na primeira fase, e depois contra a Austrália, nas quartas de final, o time já tinha passado batido. No caso deste último, ficou 120 minutos sem balançar as redes.

Nesta terça, sofreu com os mesmos problemas de outros jogos: finalização ruim e falta de jogadas trabalhadas. Dependeu do seu talento. O talento sobrou, mas parou na excelente organização do time sueco, que se manteve alinhado e bem posicionado mesmo na prorrogação, com o cansaço.

Quando a disputa vai para os pênaltis, a distância técnica entre os times quase desaparece. A Suécia pareceu ter estudado muito os pênaltis das brasileiras. A goleira Lindahl acertou o canto em todas as cobranças, desde a primeira, de Marta. Conseguiu pegar duas: a de Cristiane, que bateu muito mal, no meio do gol, e a de Andressinha, que bateu no canto, mas ela foi buscar. As suecas erraram apenas com Asllani, em cobrança que Bárbara defendeu.

No final, 4 a 3 para as suecas, que vão disputar a medalha de ouro na próxima sexta-feira, no mesmo Maracanã. Para elas, a medalha também é inédita. O time sueco jamais conquistou sequer uma medalha, então já faz história. O Brasil jogará também na sexta, mas em São Paulo, para decidir a medalha de bronze.

A CBF precisa pensar seriamente sobre o comando técnico do Brasil. Se a Suécia conseguiu chegar até a final, tem muito do trabalho de Pia Sundhage. Já o Brasil pode colocar na conta de Vadão a falta de ideias de um time que não soube jogar sem depender de jogadas individuais. O talento brasileiro sobra entre as jogadoras, ainda que o desfalque de Cristiane tenha sido sentido a ponto de ela entrar, sem plenas condições, para jogar.

Cabe ao técnico trabalhar o time para ter alternativas de jogo. O Brasil teve tempo para se preparar e era de se esperar que estivesse melhor treinado, especialmente na questão tática. Está na hora de pensar também em uma técnica mulher. As melhores do mundo são mulheres, seja a Pia Sundhage, seja Ellis Jill, campeã do mundo pelos Estados Unidos.

Emily Lima faz um ótimo trabalho no São José, um dos times mais fortes do futebol feminino brasileiro. Já treinou seleções de base do Brasil. Sissi, ex-jogadora, trabalha como técnica de crianças nos Estados Unidos e já disse em 2014 que sonhava em treinar a seleção feminina. São só dois nomes que podem ser estudados. Há muito espaço para que o Brasil cresça como seleção e como um país de futebol. Resta saber se os dirigentes farão mais do que preparar o time para uma medalha olímpica.

Talento está claro que o Brasil tem. Atitude também. Nunca faltou raça, nem uma incrível força de vontade à Seleção. O público sabe e sente isso, tanto que Marta e as demais jogadoras do Brasil foram ovacionadas pela torcida no Maracanã, tietadas e receberam muito carinho. A eliminação dói, mas serve para vermos que o talento dessas jogadoras não pode mais ser desperdiçado com técnicos de segunda linha do futebol masculino.

Chamada Trivela FC 640X63

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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