Copa do Mundo Feminina

Copa do Mundo feminina é a realização do direito das mulheres de sonhar

Sempre foi preciso zapear muito os canais ou ligar a TV num horário específico para encontrar alguém como eu falando sobre o futebol; hoje, não é mais

Eu sempre assisti programas esportivos de televisão, mas nunca questionei a ausência de mulheres neles. Basta fechar os olhos que me transporto para a sala da casa dos meus pais, em um dia de semana qualquer. Meu pai trabalhava à noite e meu horário de chegada sempre coincidia com a abertura do Debate Bola, extinto programa da Record, apresentado por Milton Neves. As referências eram raras. Quando, pela primeira vez, assisti a ESPN, vi Soninha Francine. Aos domingos, Michelle Gianella no Mesa Redonda, da TV Gazeta. Às vezes, me deparava com Mylena Ciribelli ou Glenda Kozlowski, na TV Globo. Tempos depois, Renata Fan.

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Sempre foi preciso zapear muito os canais ou então ligar a TV em um horário específico para encontrar alguém como eu falando sobre o futebol, minha maior paixão. Naquela época, esse raciocínio não era muito claro para mim, uma menina da periferia que decidiu ser jornalista porque escrevia bem e gostava de esporte. Não que o preconceito fosse uma grande novidade – a exclusão das rodinhas de conversas na escola é uma realidade comum para todas as meninas como eu. Entender-se parte desse processo é que leva tempo.

Fecho e abro os olhos novamente. Volto para 2023. A mesma menina da periferia, hoje aos 30 anos, com 12 anos de carreira, metade deles no jornalismo esportivo, abre uma notificação no celular e se depara com uma foto de divulgação da equipe da TV Globo dedicada à cobertura da Copa do Mundo Feminina, que começou na última quinta-feira (20), na Austrália.

Renata Silveira, Renata Mendonça, Natália Lara, Alline Calandrini, Isabelly Morais, Denise Thomaz Bastos, Gabriela Moreira, Bárbara Coelho, Ana Thais Matos e Rafaelle Seraphim ganharam um protagonismo até então inédito. E aquilo mexeu comigo.

Referência e inspiração fazem toda a diferença

Desde aquele momento, me pergunto como uma referência desse peso teria feito diferença para mim, enquanto adolescente torcedora, estudante de jornalismo, ou uma recém-formada que sabia muito bem o que queria – e engoliu muito sapo por isso.

Talvez, se meus pais tivessem visto há 15 anos mulheres da competência das hoje escaladas pela TV Globo, ou pelos outros diversos canais e mídias nesta Copa, frequentar estádios sem uma companhia masculina não seria uma questão tão problemática, como foi.

Talvez, desbravar vagas de empregos que sempre ofereceram menos do que para colegas de mesma formação — mas do sexo masculino –, seria menos frequente. Ou então, os casos de assédio de chefes ou em entrevistas de emprego teriam sido mais raros.

Muitas que já estiveram na minha posição desistiram. E não é para menos. Quanto mais a gente quer, mas o mundo do futebol parece dificultar nossos caminhos. Essas mulheres, que conseguem superar essas barreiras todos os dias, servem não só como incentivo, mas como grande inspiração.

Não vai ser fácil. Nossa escada parece ter mais degraus. À vista do grande público, espelho da sociedade machista e patriarcal em que vivemos, nunca estaremos à altura do assunto. Mas pode ser menos difícil do que já foi um dia.

O peso do erro é muito maior no futebol feminino

O desprezo de grande parte do mundo do futebol pelo feminino é assunto batido, e não se esconde. Bastou um só jogo, o da estreia, para virem à tona novamente episódios da misoginia nossa de cada dia com comentaristas e jogadoras.

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Aqui o erro sempre pesa mais. Um comentário, às vezes mal colocado (ou não), uma opinião, tudo vira contra nós de forma violenta. Somos bodes expiatórios de uma estrutura problemática. De tudo que pode dar errado no futebol, nada é tão vigiado quanto o que é feito por e para mulheres.

Daqui pra frente, tudo vai ser diferente

A foto é um símbolo para todas que pisam ou não nos estádios de futebol, e que sonham em fazer disso o seu sustento, seja como jornalistas, jogadoras de futebol, árbitras ou técnicas de futebol.

É uma pequena fração da grande revolução que vemos e vivemos recentemente. Estamos ocupando todos os espaços que nos foram negados ao longo de anos. E esse movimento não vai parar. Pode desagradar alguns haters desocupados em um chat de rede social? Pode. Mas o que tenho a ver?

O caminho é sem volta. Sugiro que aceitem.

Foto de Denise Bonfim

Denise Bonfim

Denise Bonfim é jornalista e produtora de conteúdo. Participou da cobertura de duas Copas do Mundo e duas Olimpíadas, e soma passagens por Estadão, CNN, Jovem Pan, UOL e Globo.
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