Copa do Mundo Feminina

Calçamos as nossas chuteiras porque podemos e seguimos em frente

Há 40 anos, o Brasil via o futebol feminino ser regulamentado no país após décadas de proibição e repressão

Eu lembro de quando ganhei o meu primeiro par de chuteiras. Na época, com 11 anos, jogava em uma escolinha de futebol na região de Campinas, interior de São Paulo, que aceitava meninas. Existiam poucas. Por algumas semanas, pela resistência dos meus pais em comprar o calçado adequado, treinei com um tênis All Star roxo (aquele lá mesmo). “É uma fase, vai passar. Por que gastar dinheiro com isso?”, diziam.

Meus pais são pessoas antenadas, progressistas, e ainda assim demoraram um pouco para entender que era hora de comprar uma chuteira para a sua menina. Felizmente, a resistência de ambos foi curta. Até porque a fase não passava – igualmente a chatice de uma pré-adolescente muito insistente.

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Nunca vou me esquecer da sensação de conquista ao chegar na loja de materiais esportivos na companhia do meu pai e calçar aquele lindo par de chuteiras. Quem se lembra da Total 90 dourada? Um modelo que certamente deveria ser exibido no museu. 

Bom, sem sombra de dúvidas, aquele foi um dos dias mais felizes da minha vida. 

Os anos se passaram e, com eles, muitas chuteiras também. Por razões técnicas, nunca calcei nenhuma delas para entrar em campo profissionalmente (risos). Até cheguei a sonhar com isso – acho que é mal de jornalista esportivo -, mas a verdade é que para nós, mulheres, um momento tão banal quanto calçar chuteiras é simbólico. Mais do que isso, é um ato de resistência, porque um dia nós fomos proibidas de fazê-lo. 

Contudo, a minha experiência se mistura a de muitas outras meninas da minha geração. Uma geração que já colheu frutos mais doces no futebol feminino, de tolerância e aceitação. 

Torcedora mirim em treino aberto da seleção feminina (Foto: Thais Magalhães/CBF)

O quanto nós evoluímos no país do futebol?

Em 2019, o Brasil completou 40 anos da revogação do decreto-lei que proibia as mulheres de praticar futebol, além de outras modalidades consideradas “incompatíveis” com seu gênero. O marco foi muito celebrado, com direito a exposição no Museu do Futebol. 

Esse fato pode parecer não ter tanta importância hoje, uma vez que vivemos um período de efervescência do debate feminista na sociedade e no esporte. Mas para evoluir, com fôlego para encarar os milhares de obstáculos que a sociedade impõe, é preciso entender a história.

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Digo isso porque este é o primeiro ciclo de Copa do Mundo Feminina em que a torcida brasileira de forma geral já tinha noção da grandeza do evento. O produto futebol feminino ganhou valor real por aqui. Um valor que não é só de mercado ou de mídia. Óbvio que dinheiro é o coração de toda a operação, mas o sucesso financeiro e o desenvolvimento humano precisam caminhar juntos. 

Dito isso, listo abaixo uma linha do tempo que aponta para o renascimento do futebol feminino após décadas de proibição e repressão. 

Torcida brasileira acompanhando um jogo da seleção (Foto: Thais Magalhães/CBF)

1983 – Regulamentação do futebol feminino

Naquele ano, a CBF permitiu a criação de competições, criação de calendário, utilização de estádios e o ensino do futebol nas escolas. No Rio de Janeiro e São Paulo, os clubes Radar e Saad – que não estão mais em atividade – foram pioneiros no processo de profissionalização.

1991 – Primeira Copa Feminina

Apesar dos trancos e barrancos, o Brasil enviou sua primeira seleção de jogadoras para disputar um Mundial. Foi naquela edição que Elane dos Santos marcou o primeiro gol da canarinho em Copas.

2004 – A primeira medalha olímpica

O Brasil conquistou a medalha de prata nos Jogos de Atenas 2004. Foi a primeira final olímpica em que a seleção feminina esteve desde sua entrada da modalidade nas Olimpíadas.

2009 – A estreia da Libertadores

Mesmo com duas décadas de atraso, a Conmebol organizou a primeira Copa Libertadores Feminina. Simplesmente, o esquadrão do Santos, que tinha Marta, Cristiane e cia., conquistou a primeira taça.

2019 – A obrigatoriedade

Ao contrário do que muitos pensam, a obrigatoriedade dos clubes em ter uma equipe feminina para poder participar de torneios organizados pela Conmebol e CBF, não é uma coisa ruim. Foi a partir dessa obrigação que os times passaram a estruturar a modalidade

2020 – Diárias iguais entre as seleções

Após inúmeras reivindicações de grandes nomes, como Marta e Cristiane, a CBF decidiu igualar as diárias das seleções feminina e masculina. Até então, as mulheres recebiam um valor consideravelmente menor por participações em datas Fifa.

2022 – Recorde de público

Depois de alguns estádios cheios, em 2019 e 2021, para ver futebol feminino, o segundo jogo da final do Brasileirão Feminino 2022 quebrou mais um recorde. O confronto contra o Internacional, que garantiu o quarto título da competição ao Corinthians, registrou o maior público em uma partida entre clubes no Brasil e na América do Sul: 41.070 torcedores (40.691 pagantes), com uma renda bruta de R$ 900.981,00.

2023 – A maior cobertura de Copa do Mundo Feminina

Com transmissão de todos os 64 jogos na internet, 32 na TV fechada e pelo menos 7 na TV aberta, a Copa do Mundo Feminina, que por anos não teve transmissão no Brasil, em 2023 tem sua maior cobertura na mídia. 

Ainda temos muito a conquistar, é verdade, mas que bom é ter o que celebrar no futebol de mulheres. O que não nos faltará é coragem para calçar as nossas chuteiras e seguir em frente desbravando o mundo. Ainda bem que a evolução é sempre uma questão de tempo. 

Foto de Livia Camillo

Livia Camillo

Formada em jornalismo pelo Centro Universitário FIAM-FAAM, escreve sobre futebol há cinco anos e também fala sobre games e cultura pop por aí. Antes, passou por Terra, UOL, Riot Games Brasil e por agências de assessoria de imprensa e criação de conteúdo online.
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