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“As mulheres afegãs perderam a esperança”: O relato de Khalida Popal, a jogadora que revolucionou o futebol feminino no Afeganistão

Refugiada na Dinamarca desde 2016, a pioneira do futebol feminino afegão recebe pedidos desesperados de socorro das antigas companheiras

Khalida Popal pode ser considerada uma revolucionária do futebol. A afegã de 34 anos possui uma longa trajetória, em que aproveitou a força do esporte para lutar por espaços e direitos às mulheres em seu país. Antiga capitã da seleção principal e diretora da federação, Popal lidera uma série de iniciativas que visam espalhar o futebol entre as mulheres e ampliar os reflexos disso na sociedade como um todo. Por seu trabalho corajoso, a afegã precisou deixar o país em 2011, em consequência de ameaças recebidas. Refugiada na Dinamarca, Popal agora pede que as garotas apoiadas por seus programas fujam de suas casas e se escondam, enquanto as conquistas do futebol feminino afegão desabam com a volta do Talibã ao poder.

“Tenho encorajado outras jogadoras a suspender suas contas nas redes sociais, apagar fotos, fugir e se esconder. Isso parte meu coração, porque em todos esses anos trabalhamos para aumentar a visibilidade das mulheres. Agora, estou dizendo às minhas garotas no Afeganistão para que se calem e desapareçam. Suas vidas estão em perigo”, declarou Khalida Popal, em entrevista à Associated Press, nesta segunda.

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Khalida Popal conheceu a força do futebol logo na infância: sua mãe era professora de educação física e mostrou como o esporte poderia garantir oportunidades às mulheres. “Comecei a jogar futebol simplesmente porque era divertido. Mas pouco depois se tornou bem mais sério que isso. Diziam que não era bom para mim jogar futebol e que isso me desonrava”, contaria a jogadora em 2018, durante uma entrevista ao jornal The Independent. Em 1996, a garota precisou deixar Cabul pela primeira vez, aos nove anos de idade. Sua família fugiu da cidade, exatamente quando o Talibã tomou a capital. Khalida atravessou o início da adolescência num campo de refugiados no Paquistão.

A volta da família Popal ao Afeganistão aconteceu após a invasão americana, em 2001. E a garota seria importante para apresentar o futebol como um caminho a outras mulheres, especialmente diante da supressão dos direitos que ainda permanecia com a queda do regime fundamentalista, inclusive impedindo que elas praticassem esportes. Khalida Popal começou organizando jogos entre as meninas de sua escola. Por conta das perseguições e dos preconceitos, elas precisavam jogar escondidas. No entanto, à medida que mais mulheres se uniam aos jogos, o grupo passou a bater sua bola em locais públicos. Encaravam agressões verbais e físicas, de extremistas que as viam como “prostitutas” apenas por jogarem futebol – em ataques vindos inclusive de pais e irmãos das jogadoras.

“Algumas vezes eu ainda tenho pesadelos. Esses homens estão olhando e rindo para mim ou há um medo de que eles me estuprarão”, contaria Khalida Popal, ao jornal The Guardian, em 2017. Mesmo com o Talibã fora do poder, ela ainda lidava com a mentalidade do grupo que permanecia na sociedade. “Meu problema não era só o Talibã com a arma, mas também o Talibã de terno e gravata. Pessoas com a mentalidade do Talibã que eram contra as mulheres e a voz delas”.

Quando tinha 20 anos, em 2007, Khalida Popal conseguiu criar uma equipe afegã formada por estudantes para disputar competições internacionais. Além de atuar, ela coordenava os treinos de meninas mais novas. A iniciativa ganhou apoio da federação local e do comitê olímpico, mas os treinos acabavam realizados dentro de uma base da OTAN para evitar ataques. E, com proteção, o primeiro jogo ocorreu no Estádio Ghazi – principal palco do futebol nacional, que antes era usado pelo Talibã para execuções e linchamentos.

“Sempre que eu chutava a bola no Estádio Ghazi, minha mente não parava de imaginar. Já tinha visto fotos e vídeos do que havia acontecido lá antes. Sabia que era o lugar para execuções públicas e que muitas mulheres tinham morrido naquele mesmo campo. Sabia que essas coisas tinham ocorrido no gramado onde eu estava. Mas, cada vez que chutava, parecia uma vitória para todas as mulheres que morreram e para as que não conseguiram lutar por seus direitos. Para as que foram vítimas sem motivo. Portanto, quebrar a barreira de jogar naquele local foi muito importante e todas estávamos orgulhosas por fazer história”, relataria, ao Independent.

Já em dezembro de 2010, Popal tornou-se capitã da seleção feminina em sua primeira partida oficial. O Afeganistão disputou o Campeonato da Federação de Futebol do Sul Asiático (SAFF), realizado em Bangladesh. O time somou um ponto em três jogos – perdeu para Paquistão e Nepal, além de empatar com Maldivas. Apesar do resultado modesto, a representatividade daquele momento era imensa, tendo em vista as limitações às mulheres afegãs.

“Minha geração tinha a esperança de construir o país, desenvolvendo a situação para a próxima geração de mulheres e homens no país. Então, comecei com outras jovens a usar o futebol como ferramenta para empoderar mulheres e meninas”, contou Popal, à Associated Press. “Ficamos muito orgulhosas de vestir a camisa da seleção. Foi a sensação mais linda, a melhor de todas”. Além da liderança na federação, Popal formou-se como professora de educação física e passou a lecionar em escolar particulares de Cabul.

A revolução encabeçada por Khalida Popal através do futebol, entretanto, a tornou um alvo maior para os extremistas. A jogadora convivia com ameaças frequentes. Recebia ligações anônimas, prometendo ataques inclusive contra familiares, enquanto pessoas nas ruas atiravam lixo e pedras contra ela. Em 2011, diante de sua situação gravíssima, a capitã acabou fugindo do Afeganistão. “Recebi muitas ameaças de morte porque eu estava aparecendo na televisão. Eu chamava o Talibã de nosso inimigo. Minha vida estava em grande perigo”, contou Popal, à Associated Press. A jogadora levaria apenas seu computador e uma foto da seleção na mochila durante a fuga. Somente sua mãe e seu pai foram avisados de sua decisão. Passaram-se semanas até que suas companheiras soubessem de seu paradeiro.

“Quando comecei a jogar futebol, ou mesmo quando decidi levar o futebol mais a sério, realmente nunca pensei que um dia isso me levaria a deixar meu país. Fui o mais longe que pude, mas no final senti que não tinha mais apoio para permanecer ali. As pessoas ameaçaram minha vida e eu não queria morrer, porque sabia que, se eu morresse, então gerações de mulheres depois de mim conviveriam com esse medo. E eu não queria que isso as impedisse de jogar futebol. Então, escolhi sair do país e viver, mas ainda continuar lutando por meu gênero”, complementaria, ao Independent.

Khalida Popal atravessou o Paquistão e viveu primeiro na Índia, onde permaneceu em constante deslocamento por não ter visto. Mesmo assim, ela conseguiu organizar uma partida da seleção afegã no país para mostrar que estava bem às amigas. Quando deixou a Índia, passaria um tempo num centro de acolhida a refugiados na Noruega, antes de se mudar a um local parecido na Dinamarca. Sem visto garantido permanentemente ou qualquer definição sobre seu futuro, Popal ainda sofreu uma séria lesão no joelho que a impediria de seguir sua carreira nos gramados.

“Eu não era a mesma mulher de antes. Disse a mim mesma muitas vezes que não arrisquei minha vida para acabar num centro para refugiados na Dinamarca. Não era esse meu objetivo. Eu me sentia como um pássaro na gaiola, estava deprimida. Parei de falar todos, comecei a ter pesadelos de que seria deportada. Sentia falta do meu time, ouvia as vozes das garotas chamando meu nome e rindo. Era realmente duro. De repente, eu estava perdendo tudo. Perdi meu país, minha identidade, minha família, não podia jogar. Eu me sentia como uma boneca suspensa no ar. Não podia voar aos céus e nem voltar ao chão”, contaria, ao Guardian.

Depois de um ano na Dinamarca, Khalida Popal finalmente ganhou um visto de residência e, com a carreira abreviada nos gramados, passou a atuar de diferentes maneiras para incentivar o futebol feminino. Mesmo longe, também seguia como uma voz ativa pelas mulheres afegãs. Ajudava a expor os abusos sofridos no país, assim como as ameaças de morte e estupros com as quais as jogadoras conviviam. Manteve um cargo diretivo na federação e se formou em gestão de marketing numa universidade dinamarquesa.

Na Dinamarca, Khalida Popal passou a introduzir o futebol feminino em centros para refugiados. A organização Girl Power, criada pela afegã, reúne mulheres de diferentes origens para praticar esportes (o futebol sendo o principal deles) e se integrar na comunidade, reconstruindo suas vidas no novo país. Através da fundação, a afegã trabalhou em cooperação com a Uefa e com a Fifa. Além disso, Popal também é embaixadora da Copa do Mundo para Crianças de Rua, uma fundação que tenta promover um ambiente seguro a essas crianças ao redor do planeta.

“Mesmo quando eu estava doente no centro de refugiados, via mulheres que tinham situações piores que a minha e queria salvá-las. Caminhava com elas, dava uma bola e dizia para apenas chutarem. Elas então elas corriam atrás da bola, chutando com sandálias. O esporte é uma grande ferramenta para quebrar o gelo e ajudar mulheres a ganhar autoconfiança”, diria Popal, ao Guardian. “Minha mensagem para reescrever o código é que as mulheres não são para ficar em casa ou lavar louças. Elas podem jogar futebol. Essa deve ser uma escolha. Eu jogava como defensora, o que é algo da minha personalidade – defender mulheres, defender meu time, defender meu gênero”.

Outro trabalho de Popal nos últimos anos aconteceu em conjunto com a Hummel, companhia dinamarquesa que fornece material esportivo às seleções afegãs. A jogadora ajudou a desenvolver um uniforme com a presença do hijab – o véu usado por mulheres muçulmanas, num tecido mais leve para facilitar as práticas esportivas. E mesmo longe do Afeganistão, a antiga capitã mantinha contato com suas companheiras, até a ascensão do Talibã colocar em xeque o futuro do futebol feminino e das mulheres afegãs como um todo, diante dos sinais imediatos de repressão.

Durante os últimos dias, Khalida Popal realizou uma série de ligações para mulheres no Afeganistão. A ex-jogadora ouvia pedidos desesperados de socorro e gritos angustiados ao fundo. Seu conselho era doloroso: que essas pioneiras do futebol feminino afegão apagassem suas próprias histórias, deletando registros e se escondendo, para escapar da repressão daqueles que conheciam suas lutas em prol das liberdades.

“As mulheres no Afeganistão acreditaram na promessa dos Estados Unidos, mas eles foram embora do país porque não existia mais interesse do governo. Então por que eles prometeram? É isso que minhas garotas estão dizendo, enquanto choram. Por que não dizer antes que iriam embora assim? Pelo menos poderíamos nos proteger. Não teríamos criado inimigos”, relataria a jogadora. “Elas estão chorando, apenas chorando. Elas estão tristes, desesperadas. Elas têm muitas perguntas. O que está acontecendo não é justo”.

“Elas estão se escondendo. A maioria deixou suas casas para morar com parentes e se esconder, porque os vizinhos sabem que são jogadoras. Elas estão com medo. O Talibã voltou. Eles estão criando terror. Minhas garotas continuam gravando vídeos e fotos da janela de suas casas, mostrando extremistas do lado de fora. Isso é muito triste”, finaliza Khalida Popal. “Foi muito doloroso testemunhar a rendição do governo. As mulheres perderam esperança”.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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