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Khalida Popal, a afegã que arriscou sua vida e se dedica a lutar pelas mulheres no futebol

Toda mulher carrega uma tonelada de preconceitos, estereótipos e julgamentos nas costas simplesmente por ser mulher. E em qualquer sociedade moderna do planeta. Dentro do futebol, o machismo entranhado nas culturas em geral é refletido ainda com mais precisão, o que torna tudo mais difícil para as mulheres. Gostar, jogar, acompanhar. Quem dirá em países em que elas, muitas vezes, têm seus direitos básicos indeferidos e estão cercadas por números elevados de casos de violência contra a mulher. Por exemplo, no Afeganistão, um dos lugares menos seguros e mais desiguais do mundo nesse sentido. Por isso, são poucas as mulheres que ousam desafiar os costumes, os medos, as ameaças e as repreensões em nome do futebol. Mas a afegã Khalida Popal tem o feito a vida inteira, e luta para incentivar outras mulheres a fazerem o mesmo sendo porta-voz do futebol feminino em seu país e grande defensora dos direitos delas na modalidade.

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A desafiadora história de resistência de Khalida Popal começou em 1987, quando nasceu. Filha de uma professora subversiva à realidade das mulheres no Afeganistão, ela cresceu sendo impulsionada a lutar pelo que queria. E foi percorrer uma estrada enquanto jogadora de futebol o que ela escolheu, já que sua mãe sempre a disse que esportes não eram apenas diversão, a impulsionando a ir atrás de algo sólido relacionado ao futebol feminino como forma de empoderamento. Khalida então se jogou de cabeça nesse meio e foi uma das pioneiras no esporte praticado por mulheres em seu país, sendo, também, uma das primeiras a chegarem à seleção afegã feminina, onde ela foi capitã por muitos anos.

Sua luta em campo acontecia paralelamente à sua luta fora dele. Longe dos gramados, ela tentava dar força, voz e impulso a outras garotas através da prática do futebol ao mesmo tempo que tentava sobreviver a ataques vindos de todos os lados. E é o que ela faz até os dias atuais, embora hoje viva em outro país. Foi justamente por conta dos ataques verbais, das tentativas de repreensão e até das ameaças de morte que ela se viu obrigada a fugir e pedir asilo político na Dinamarca, onde mora desde 2011. Em entrevista ao Guardian, ela conta que as perseguições não vinham somente do Talibã, que é uma ameaça geral. Vinham de pessoas desarmadas, engravatadas, mas que tinham a mesma mentalidade extremista e conservadora do grupo, por exemplo, e, por meio dela, tentavam reprimir e silenciar as mulheres afegãs.

“Apesar de ter conseguido abrigo na Dinamarca, eu não era mais a mulher que eu costumava ser. Eu dizia para mim um monte de vezes que eu não coloquei minha vida em risco para terminar em um centro de acolhimento na Dinamarca. Esse não era meu objetivo. Eu me sentia como um pássaro dentro de uma gaiola. Estava muito depressiva. Parei de falar com todo mundo à minha volta e sempre sonhava que alguém estava vindo e me mandando voltar para o meu país. Eu sentia falta do meu time. Das minhas garotas. Eu conseguia ouvir a voz das minhas companheiras de equipe chamando meu nome e rindo. Foi muito difícil para mim”, conta Khalida, que confessa também que sequer teve tempo de se despedir de sua família e colegas de time antes de partir para uma viagem arriscada para a Índia, onde ela viveu um tempo antes de buscar o mínimo de segurança na Europa.

Khalida ao lado de Shabnam Mabarz, jogadora da seleção afegã feminina que opta pelo uso do hijab (Foto: Jan M. Olsen/AP)
Khalida ao lado de Shabnam Mabarz, jogadora da seleção afegã feminina que opta pelo uso do hijab (Foto: Jan M. Olsen/AP)

Um tempo depois de ter se fincado na Dinamarca, surgiu uma oportunidade para ela jogar em uma equipe local e continuar tocando sua carreira no futebol. Uma grave lesão no joelho, no entanto, acabou dando um fim em sua empreitada nos campos. “De repente, eu estava perdendo tudo. Eu tinha perdido meu país, minha identidade, estava em um asilo para imigrantes, tinha perdido minha família e ainda não podia mais jogar. Eu me senti como uma boneca pendurada no ar. Eu não podia voar no céu e também não podia colocar meus pés no chão”, relembra seus dias mais nublados. Com a ajuda de um psiquiatra e antidepressivos, Khalida conseguiu se reerguer emocionalmente e fazer mudanças em sua vida.

Mas apesar das modificações em seus hábitos, como ter começado a nadar e andar de bicicleta, ela não abandonou o futebol. Em vez de tentar ficar com a bola nos pés o maior tempo possível até fazê-la chegar ao fundo das redes, ela a colocou debaixo do braço e colocou no pé de outras garotas. Nada diferente do que ela já fazia enquanto jogadora e enquanto capitã no Afeganistão. Dessa vez, porém, com mais compromisso, já que ela começou a dispor de mais tempo e a ter mais proteção para executar suas ideias e falar o que quisesse. Como resultado disso, ela criou sua própria organização sem fins lucrativos, a Girl Power, um projeto gerado com a finalidade de encorajar mulheres a se reedificarem dentro de suas duras realidades por meio do futebol.

“O esporte é uma ótima ferramenta para quebrar o gelo e ajudar mulheres a ganharem autoconfiança. Mesmo quando eu estava doente no asilo, eu via mulheres que estavam em situações piores do que a minha e queria salvá-las de alguma forma. De repente, eu estava as levando para passear com uma bola de futebol na mão e falando ‘ei, vocês só precisam chutar a bola’. E lá estavam elas correndo atrás da bola e a chutando com suas pernas à mostra e sem calçados”.

Hoje com 29 anos, Khalida toca seu projeto na Girl Power, está concluindo seus estudos na Copenhagen Business Academy e assume um cargo diretivo dentro da Federação Afegã diretamente ligado à seleção feminina. Vira e mexe, a ex-capitã dá palestras em conferências no mundo inteiro relacionadas a direitos humanos (já discursou para um grande número de pessoas na sede da ONU), futebol feminino e encorajamento de mulheres. Além disso, ela recrutou treinadoras americanas que já jogaram no alto escalão do futebol feminino dos Estados Unidos para debater a situação das muçulmanas e das refugiadas no país, que está ameaçada desde que Donald Trump ascendeu ao poder. “Se o Talibã e as pessoas no meu país tentaram me parar e não conseguiram, não é Trump que vai fazer isso conosco”.

E por falar em suas origens religiosas e culturas, ano passado, Khalida trabalhou junto à Hummel, a fornecedora de material esportivos dinamarquesa que patrocina as seleções masculina e feminina do Afeganistão, para disponibilizar às mulheres muçulmanas um hijab (véu que é um código de vestimenta islâmico) esportivo. “Fizemos isso para mudar a ideia de que o esporte é contra qualquer religião ou cultura. Foi uma maneira de dizer às famílias que respeitamos suas crenças. Uma maneira de proporcionar às muçulmanas um jeito de usarem um material esportivo sem ter que se desprenderem de seus costumes”.

Assim, Khalida segue defendendo o direito das mulheres com a mesma garra que ela desarmava, marcava e defendia seus times enquanto zagueira. “Isto é o que eu faço, esta é minha personalidade: a de defender a mulher, defender minha equipe, defender meu gênero”. Sua finalidade de vida é entusiasmar e libertar mulheres, iguais ou não a ela. E, para fazer isso em uma proporção e frequência ainda maiores, ela aspira a um cargo na Fifa. É o próximo passo que ela quer dar, e pediu que o presidente da entidade, Gianni Infantino, levasse sua proposta em consideração, “como um pai”. “Sou uma mulher. Tenho que ter orgulho de ser uma mulher. Esta é a minha identidade. Em vez de fazer as pessoas te respeitarem, você tem que entender e respeitar quem você é e o que você é”.

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Nathalia Perez

Jornalista em formação trabalhando a favor de um meio esportivo mais humano. Meus heróis sempre foram jogadores de futebol, mas hoje em dia são muito mais heroínas.

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