Sem Vini Jr, prêmio de Jogador do Ano da Uefa soa, no mínimo, incongruente
Os critérios no Top 11 do Jogador do Ano não ficaram nada claros, e o privilégio à Copa do Mundo quebra histórico da premiação
A Uefa possui seu prêmio de melhores da temporada desde 1998. A condecoração da entidade europeia, naturalmente, privilegia as suas competições. De início, o chamado “Uefa Club Footballer of the Year” era destinado ao melhor futebolista em atividade nos clubes e dava mais atenção a quem arrebentava na Champions League. A partir de 2011, o troféu passou a levar em conta também o desempenho por seleções, mas ainda com foco maior na Europa. Até por isso, o anúncio dos finalistas de 2023 soa um tanto quanto incongruente. Lionel Messi aparece no Top 3, ao lado de Kevin de Bruyne e Erling Braut Haaland. Já a ausência de Vinícius Júnior do Top 11, em especial, não tem sentido algum.
O regulamento do “Uefa Player of the Year”, de fato, considera o desempenho das seleções nacionais. Numa temporada em que a Copa do Mundo está inserida no contexto, seria natural um olhar para o que ocorreu no Catar. Mas a presença de Messi entre os finalistas quebra um pouco o que se imagina do troféu – mais relacionado às equipes europeias e às competições europeias. Não é que Messi viveu uma temporada mágica pelo Paris Saint-Germain para referendá-lo à premiação. No Top 11, a presença de Alexis Mac Allister causa ainda mais estranheza. Foi muito bem pelo Brighton, mas talvez sequer figure como melhor do clube. A influência do Mundial com a Argentina também é subentendida e superestimada.
Desta maneira, o Top 11 do troféu parece mais uma colcha de retalhos, com os jogadores escolhidos previamente por um comitê técnico da Uefa e sem um critério claro. Há jogadores que você supõe que estão bem colocados por causa do trabalho só nos clubes, outros só pelas seleções. Mas tem gente que foi bem por clube e seleção que perdeu fôlego. Rodri, por exemplo. O meio-campista foi essencial ao sucesso do Manchester City e também liderou a Espanha na conquista da Liga das Nações. O quinto lugar parece pouco. Ou mesmo Luka Modric. Que não tenha vivido sua temporada mais vitoriosa pelo Real Madrid, ainda se apresentou em bom nível e conseguiu novas façanhas pela Croácia. Fica num modesto sétimo lugar.
O privilégio às competições europeias de clubes ainda é representado por dois nomes em especial, os craques dos torneios secundários. Declan Rice liderou o West Ham à conquista da Conference League e recebeu votos o suficiente para ficar em nono. Já na Liga Europa, Jesús Navas teve enorme destaque em mais um título do Sevilla e de quebra ainda faturou a Liga das Nações com a Espanha. É o 11° colocado. Tal conjunto da obra, por exemplo, parece ajudar Marcelo Brozovic em oitavo. Não foi o melhor da Internazionale finalista da Champions, mas chegou à semifinal da Copa do Mundo e à decisão da Liga das Nações. Por isso, ficou um passo à frente mesmo de Lautaro Martínez, mal no Mundial.
E uma lista de premiação individual não é suficientemente contestável sem suas ausências. Nenhuma chama mais atenção que a de Vinícius Júnior. Os termos individuais seriam argumento suficiente para constar pelo menos no Top 10, pela forma como arrebentou no Real Madrid em frequentes partidas. Ele também foi um dos melhores da última Champions, independentemente da queda nas semifinais, até pelo rendimento altíssimo que teve nas fases anteriores dos mata-matas e mesmo na ida contra o City. É irracional ver alguns nomes na lista de melhores e não ter Vini ali. Kylian Mbappé é um que se sustenta por termos individuais e pela absurda Copa do Mundo, mas não pela temporada com o PSG no geral. Talvez o brasileiro ficasse abaixo do francês, mas está na mesma categoria de critério. Todavia, não há linearidade.
Manchester City, naturalmente, domina
Feitos os devidos questionamentos, é difícil de acreditar que o “Uefa Player of The Year” vá para Messi, e não para um jogador do Manchester City. O desempenho dominante do clube teve um impacto muito grande na votação do Top 11. Nada menos que quatro dos cinco primeiros colocados eram dos celestes – o que proporciona inclusive uma interferência de votos entre si. E não deixa de ser amplamente merecido, pela maneira irretocável como o time de Pep Guardiola ganhou sua inédita Champions League, bem como pela reviravolta ocorrida na Premier League – com a cereja do bolo para a Copa da Inglaterra faturada no Dérbi de Manchester em Wembley.
Erling Braut Haaland e Kevin de Bruyne possuem argumentos favoráveis como finalistas para levar o prêmio final. O centroavante empilhou gols numa temporada meteórica em sua estreia pelo Manchester City, embora sua influência tenha diminuído na final. Já Kevin de Bruyne é o cérebro dos Citizens há anos e tem um papel de referência técnica, sobretudo pelas muitas assistências. Mesmo se outros jogadores dos celestes ficassem entre os finalistas, existiriam pontos favoráveis. Ilkay Gündogan capitaneou o time e tinha uma influência imensa na produção ofensiva. Já Rodri foi o ponto de equilíbrio e o herói da decisão. O espanhol, de certa forma, acaba até prejudicado por não ter a fama de De Bruyne ou Gündogan para constar no Top 3, vide o que também jogou na Espanha campeã da Liga das Nações – e, entre os três, foi quem fez a Copa do Mundo mais digna, mesmo eliminado nas oitavas de final.
A entrega do prêmio da Uefa para o Jogador do Ano acontecerá durante o sorteio da fase de grupos da Champions League. O evento está marcado para 31 de agosto, em Mônaco. A votação está concluída e a entidade europeia apenas aproveitará a ocasião para anunciar o ganhador. Será curiosa ainda a situação de Messi como único dos votados que não atua mais na Europa. O argentino terá compromisso pela MLS na véspera, quando o Inter Miami enfrenta o Nashville – o mesmo adversário da final da Leagues Cup neste final de semana.
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Como foi realizada a votação
Os jogadores elegíveis do Uefa Player of the Year foram selecionados pelo grupo de estudos técnicos da Uefa. Segundo a entidade, as indicações se basearam no “desempenho durante a temporada 2022/23 por clube e seleção”. Já os votos foram dados por um júri também montado pela Uefa, composto pelos treinadores que disputaram a fase de grupos da Champions, da Liga Europa e da Conference em 2022/23, bem como pelos comandantes das 55 seleções filiadas à Uefa. Também participaram jornalistas indicados pela ESM, entidade europeia que reúne a imprensa esportiva continental.
O tal júri precisou escolher seus três favoritos dentro da lista de finalistas oferecida pela Uefa, montando um ranking entre eles. No caso, a presença de Alexis Mac Allister é questão do grupo técnico da Uefa; a votação expressiva de Messi sem ter ido bem nas competições de clubes, por sua vez, é um reflexo das decisões do júri. Não está claro se Vinícius Júnior esteve entre os finalistas eleitos pelo grupo técnico da Uefa e não recebeu um voto sequer do júri ou se o grupo técnico simplesmente omitiu seu nome dentre os elegíveis. O resultado final de cada jogador corresponde às pontuações atribuídas por treinadores e jornalistas em suas cédulas. Os votantes não podiam escolher atletas de suas próprias equipes.
Como ficou o ranking
Kevin de Bruyne – finalista – Manchester City e Bélgica
Erling Haaland – finalista – Manchester City e Noruega
Lionel Messi – finalista – Paris Saint-Germain e Argentina
Ilkay Gündogan – 4° lugar (129 pontos) – Manchester City e Alemanha
Rodri – 5° lugar (110 pontos) – Manchester City e Espanha
Kylian Mbappé – 6° lugar (82 pontos) – Paris Saint-Germain e França
Luka Modric – 7° lugar (33 pontos) – Real Madrid e Croácia
Marcelo Brozovic – 8° lugar (20 pontos) – Internazionale e Croácia
Declan Rice – 9° lugar (14 pontos) – West Ham e Inglaterra
Alexis Mac Allister – 10° lugar (12 pontos) – Brighton e Argentina
Jesús Navas – 11° lugar (6 pontos) – Sevilla e Espanha
A história dos vencedores
A partir de sua criação, o Uefa Club Footballer of the Year privilegiou os jogadores que brilhavam por clubes europeus. O primeiro vencedor foi Ronaldo, graças às maravilhas que produzia com a Internazionale em 1997/98, com o título da Copa da Uefa para respaldá-lo. Depois disso, porém, a condecoração focou mais na Champions League. Todos os outros vencedores nesta primeira fase da premiação, que considerava apenas os clubes, foram pelo menos finalistas do torneio continental. O único que não ganhou a Orelhuda, mas recebeu o reconhecimento individual, foi Gianluigi Buffon – batido nos pênaltis pelo Milan na final de 2002/03.
Fernando Redondo, por exemplo, ganhou em 1999/00 pelo ótimo desempenho na Champions com o Real Madrid. Zinédine Zidane levou a taça em 2001/02 independentemente de seus problemas na seleção da França, campeão continental pelo Real Madrid. Deco foi um merecido eleito como liderança técnica do Porto em 2003/04. Ronaldinho levou a melhor pelo sucesso com o Barcelona em 2005/06, apesar do fracasso na Copa do Mundo. Já o caso mais emblemático foi o da última vez que a Uefa entregou o troféu voltado ao desempenho nos clubes, em 2009/10: Diego Milito decidiu a Champions e mereceu a exaltação, a despeito da sombra de Andrés Iniesta pela Copa do Mundo ou de Lionel Messi com a Bola de Ouro.
A partir de 2010/11, a votação da Uefa passou a considerar também o resultado por seleções. Os jogadores tinham que atuar por clubes europeus, mas não havia problema se defendessem seleções de outros continentes. Apesar disso, a influência das competições locais preponderava. Iniesta venceu em 2011/12 com impulso da Eurocopa, num ano em que Lionel Messi ganhou a Bola de Ouro. Já a Champions de 2013/14 auxiliou Cristiano Ronaldo, acima dos vencedores da Copa do Mundo pela Alemanha e independentemente da queda precoce de Portugal. Exceção feita ao próprio Iniesta em 2012, todos os outros vencedores desde então também ganharam a Champions. Os torneios de seleções serviram de impulso extra, como a Luka Modric pela vitória em 2017/18 ou pelo pacote completo de Jorginho em 2020/21.
O sucesso na Champions auxilia Cristiano Ronaldo a ser o maior vencedor de ambos os prêmios da Uefa, com quatro troféus, um a mais que o próprio Lionel Messi. Já a lista de finalistas em ano de Copa mostra como a influência do Mundial não era tão considerada antes. Em 2018, Antoine Griezmann foi o quarto e Kylian Mbappé ficou em sexto, enquanto o Top 3 teve ainda Cristiano Ronaldo e Mohamed Salah. Bola de Ouro do Mundial, Eden Hazard ficou apenas em nono. Já em 2014, os alemães foram um pouco mais destacados com Manuel Neuer em segundo, além de Thomas Müller e Philipp Lahm no Top 5. Mesmo assim, não bateram Cristiano Ronaldo.
Os vencedores do Uefa Club Footballer of the Year
1998 – Ronaldo – Internazionale
1999 – David Beckham – Manchester United
2000 – Fernando Redondo – Real Madrid
2001 – Stefan Effenberg – Bayern de Munique
2002 – Zinédine Zidane – Real Madrid
2003 – Gianluigi Buffon – Juventus
2004 – Deco – Porto
2005 – Steven Gerrard – Liverpool
2006 – Ronaldinho – Barcelona
2007 – Kaká – Milan
2008 – Cristiano Ronaldo – Manchester United
2009 – Lionel Messi – Barcelona
2010 – Diego Milito – Internazionale
Os vencedores do Uefa Player of the Year
2011 – Lionel Messi – Barcelona e Argentina
2012 – Andrés Iniesta – Barcelona e Espanha
2013 – Franck Ribéry – Bayern e França
2014 – Cristiano Ronaldo – Real Madrid e Portugal
2014 – Lionel Messi – Barcelona e Argentina
2016 – Cristiano Ronaldo – Real Madrid e Portugal
2017 – Cristiano Ronaldo – Real Madrid e Portugal
2018 – Luka Modric – Real Madrid e Croácia
2019 – Virgil van Dijk – Liverpool e Holanda
2020 – Robert Lewandowski – Bayern e Polônia
2021 – Jorginho – Chelsea e Itália
2022 – Karim Benzema – Real Madrid e França



