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Uefa cria regra para evitar manobra fiscal usada pelo Chelsea

Artifício usado pelo Chelsea ajudou a amortizar valores recorde de transferências gastos pelo clube na última janela, mas Uefa cria limite usando o bom senso

A Uefa decidiu mudar uma das suas regras financeiras para impedir uma manobra que foi usada e abusada pelo Chelsea na última janela de transferências. A entidade estabeleceu que os valores pagos por transferências, que antes eram amortizados pelo tempo de contrato assinado pelo jogador, agora serão pagos em até cinco anos. Com isso, desvincula a amortização dos valores das contratações da duração do contrato assinado pelo jogador, brecha que ajudou o Chelsea a fazer a janela de transferências mais alta da história.

Habitualmente vemos os clubes fazerem cinco anos de contrato com os jogadores. Em alguns países, há uma limitação da lei para os contratos no futebol profissional para esse tempo, mas em outros não há, como na Inglaterra. Por isso, o Chelsea começou a fazer contratos longuíssimos com seus jogadores, por uma razão muito mais contábil do que esportiva, com objetivo de burlar o Fair Play Financeiro. Além de ser visto como uma manobra para burlar a regra, também é uma vantagem competitiva injusta, já que alguns países não permitem contratos de mais de cinco anos com os jogadores. Por isso, decidiu agir.

Como funcionava a regra da Uefa

Logo da Uefa em congresso da entidade (Icon Sport)

É preciso entender como funciona, em termos de Fair Play Financeiro, os valores das transferências pagas pelos clubes. Até agora, a regra da Uefa era que o valor da contratação seria dividido igualmente nos anos de contrato do jogador. Com isso, um valor pago não entra no balanço do clube de uma vez, entra aos poucos, ano a ano no contrato.

Isso independente da forma de pagamento de um clube a outro. Ou seja: não importa se o clube pagou o valor total à vista, em termos de balanço, o valor pago era dividido pelos anos de contrato, já que o jogador é tratado como um ativo financeiro do clube durante um tempo limitado.

O que o Chelsea passou a fazer, então, é aumentar o número de anos dos contratos dos jogadores que contrata para, assim, amortizar o valor por mais tempo e reduzir as chances de infringir o Fair Play Financeiro que, é importante lembrar, só analisa as três últimas temporadas dos clubes. Por isso que o alongamento dos contratos – e consequentemente da amortização do valor da transferência – é amenizado.

Como fica a nova regra da Uefa

  • Transferências de jogadores poderão ser amortizadas em balanços financeiros em no máximo cinco anos
  • Caso o contrato do jogador seja maior do que cinco anos, o valor da sua transferência será dividido em no máximo cinco anos
  • Regra vale também para renovações de contratos, também limitados a cinco anos
  • Trocas de jogadores serão fiscalizadas para não serem usadas artificialmente para inflar valores e lucros de transferências (como foi no caso Arthur x Pjanic)

Como o Chelsea abusou da regra aumentando contratos

Mykhailo Mudryk é anunciado pelo Chelsea (divulgação)

Tomemos como exemplo que aconteceu no caso Mykhailo Mudryk, jogador ucraniano de 22 anos. Ele chegou do Shakhtar Donetsk por €100 milhões, sendo €70 milhões inicialmente e outros €30 milhões em bônus. Portanto, o valor que irá para o balanço é de €70 milhões.

Só que como o contrato com o jogador foi oito anos e meio, os valores foram divididos em nove temporadas diferentes: a que termina agora em junho, 2022/23, e mais oito. Ou seja: o valor que entra no balanço a cada ano é de cerca de €8 milhões. Com isso, reduz significativamente o impacto no orçamento do clube ano a ano.

Uma manobra legal, mas que não foi bem-vista pela Uefa. Por isso, a entidade que dirige o futebol europeu criou uma regra que passará a entrar em vigor já na próxima temporada, a partir do dia 1º de julho, mas não valerá para acordos que já foram assinados. Ou seja, não será retroativo. Significa que acordos como o de Mudryk continuarão valendo pela regra antiga, porque são contratos já assinados, que não podem ter a regra alterada depois da assinatura.

Outro acordo que não será afetado será o de Enzo Fernández. O argentino foi contratado por €121 milhões em um contrato de oito anos, ou seja, o valor será amortizado em oito temporadas no balanço financeiro do clube de Londres. Foi outra transferência que ligou o alerta da Uefa que a brecha estava sendo não só usada, mas esgarçada pelo Chelsea para escapar de uma possível violação do Fair Play Financeiro nos próximos anos.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.
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