Premier League
Tendência

Os números que mostram o quão absurda foi a janela de inverno do Chelsea

O Chelsea quebrou diversos recordes de gastos nessa temporada e fizemos algumas comparações para demonstrar quão acima da realidade são os investimentos dos Blues mesmo para os padrões mais altos do futebol atual

O Chelsea fez uma temporada sem precedentes em relação aos gastos no mercado de transferências. Os Blues desembolsaram €611,5 milhões em reforços, sendo €329,5 milhões investidos apenas neste mês de janeiro. Há claras dúvidas sobre a sustentabilidade dessa gastança dentro dos parâmetros do Fair Play Financeiro, mesmo que o novo proprietário dos londrinos, Todd Boehly, tenha arranjado sua maneira de manobrar os valores. Independentemente disso, são meses que representam uma aposta de alto risco realizada em Stamford Bridge. E sem tantos sinais de que dará certo.

O início da temporada indicava que os novos donos do Chelsea queriam mostrar serviço. Depois da turbulenta saída de Roman Abramovich, antecipada pela guerra na Ucrânia, os americanos pareciam dispostos a deixar suas próprias impressões digitais. Aconteceram mudanças significativas na gestão e, quando possível, também no comando técnico. Além disso, os Blues já se colocaram como o clube que mais investiu dinheiro até o fechamento da janela em agosto. Nomes como Wesley Fofana, Kalidou Koulibaly, Marc Cucurella, Denis Zakaria, Carney Chukwuemeka, Raheem Sterling e Pierre-Emerick Aubameyang inauguravam uma nova era em Stamford Bridge. O que mesmo assim pareceu não bastar.

O Chelsea se sugere um time sem identidade, especialmente com a troca de Thomas Tuchel por Graham Potter. Os resultados deixaram de vir. Os indicativos de uma temporada muito abaixo do padrão eram claros. Foi então que os novos donos dos Blues resolveram apostar mais alto nesta janela de janeiro. Segundo matéria do site The Athletic, a diretoria tratou a pausa para a Copa do Mundo como o momento mais oportuno para negociar. A rede de contatos se expandia, numa compreensão de que o clube teria menos concorrência neste período do ano e que também não encararia possíveis recusas que, dentro de alguns meses, uma potencial ausência na próxima Champions causaria.

A janela de inverno normalmente é usada para aparar arestas e garantir reforços pontuais. Quando muito, times desesperados tentam evitar o descenso com um punhado de reforços. Pode até haver certa preocupação em Stamford Bridge com a chance real de não se garantir em uma copa europeia na próxima temporada. Entretanto, o que norteou as ações do Chelsea aparentemente era a capacidade de devastar o mercado como nenhum outro clube estava disposto a fazer – e até superando os concorrentes de mais peso que tinham uma bala na agulha, como no caso do Arsenal por Mykhaylo Mudryk.

O Chelsea contratou oito jogadores em janeiro. Seis vieram em definitivo, um chegou por empréstimo e outro só desembarcará na próxima temporada. Em comum, o fato de todos serem muito jovens, nenhum acima dos 23 anos. A maioria não possui salários tão altos, por não serem superestrelas, enquanto, exceção feita a João Félix, a garotada experimenta pela primeira vez um time com status de “Superliga”. Podem se desenvolver em Stamford Bridge ou, caso isso não aconteça, ainda render um dinheiro de revenda no futuro. E é nessa aposta de duas vias que a diretoria se agarra para evitar uma quebra imediata.

Todos os contratos assinados pelo Chelsea são longos, de até oito anos e meio. Isso serve para amortizar os valores das contratações: dividi-los por mais tempo nos balanços financeiros e garantir mais equilíbrio dentro do Fair Play Financeiro. Enquanto isso, possíveis vendas caem de maneira integral no balanço corrente da temporada e diminuem ainda mais o saldo negativo. Uma manobra com riscos se esse time não der certo e principalmente se os atletas perderem o valor, mas que acabou adotada de uma maneira inesperada pelos Blues e que, recheou o elenco.

Não necessariamente parece ter havido um planejamento esportivo nesse mercado do Chelsea. De fato, muitos jogadores são talentosos e podem se firmar como craques. Mas não se indica uma linha de raciocínio para sanar todas as carências do plantel, já que algumas continuam urgentes, como a falta de um centroavante. Alguns reforços possuem até posições e características similares. Essa nova etapa dos Blues parece muito mais disposta a moldar a equipe a partir dos destaques que despontarem do que necessariamente pensar nos nomes certos para um grupo de trabalho – como, por exemplo, aconteceu nos tempos de José Mourinho.

Além do mais, outro ponto nevrálgico é a forma como o Chelsea também precisará promover um desmanche em relação aos que já estavam. Mesmo alguns jogadores que chegaram no início da temporada estão propensos a sair. E não que a diretoria arquitete isso de uma forma serena. Pelo contrário, há mais atritos e uma predisposição em desgastar os atletas, visto o que aconteceu na novela ao redor de Hakim Ziyech, que fez de tudo para se transferir ao Paris Saint-Germain e não contou com a ajuda da burocracia dos londrinos. É outra ponta solta que precisa ser amarrada, mas que a esta altura anda negligenciada.

Há muitas perguntas sem respostas e muitas peças a se encaixar. Fato é que o Chelsea tratou esse mercado de transferências com uma voracidade nunca antes vista no futebol. Abaixo, separamos alguns números que demonstram como o que os Blues fizeram é muito atípico. E que parece esticar a corda em direção a uma Premier League irreal dentro do futebol, talvez para estourá-la em forma de Superliga Europeia.

– Nesta janela de inverno, o Chelsea gastou cinco vezes mais do que qualquer outro clube: foram €329,5 milhões apenas em janeiro. O mais próximo foi o Southampton, com €63,25 milhões desembolsados. Aliás, dos 11 times que mais investiram neste inverno, 10 são da Premier League – com a exceção feita ao Olympique de Marseille, oitavo dessa lista.

– Lembra que o Newcastle parecia num patamar fora do normal na virada de 2022, ao ser vendido para os sauditas? Pois é, os Magpies gastaram, em janeiro de 2022, três vezes menos que o Chelsea nesta janela. E o Hertha Berlim, quando tinha acabado de ser comprado por Lars Windhorst em 2020? Gastou quatro vezes menos do que o Chelsea.

  • A segunda maior janela de inverno da história foi feita pelo Barcelona, quando tirou Philippe Coutinho do Liverpool. Era um negócio suntuoso para a época. Naquele janeiro de 2018, os blaugranas investiram €147,4 milhões, bem menos da metade do Chelsea atual.
  • Tirando o Chelsea, o Barcelona é o segundo clube que mais gastou no inverno ao longo de toda a última década. Totalizou €242 milhões em dez anos, contando desde 2013/14, só €12,5 milhões a mais do que o Chelsea desembolsou apenas nesta janela. Assim, janeiro de 2023 representa ao Chelsea um gasto maior do que o feito por qualquer clube europeu, exceção feita ao Barcelona, nos últimos dez invernos somados.

  • Nos tempos de Roman Abramovich, a janela de inverno mais badalada do Chelsea foi em janeiro de 2011. Era um momento em que os Blues quebravam a banca para comprar David Luiz e Fernando Torres, este numa transação de valores emblemáticos. Sabe quanto foi o total? “Módicos” €83,5 milhões, um quarto do que fez Todd Boehly agora.

  • Os gastos do Chelsea neste inverno representam, sozinhos, 40% do que a Premier League gastou na janela de janeiro. Se forem considerados só os times do chamado “Big Six”, o Chelsea representa 72%.

  • Some os gastos de todos os clubes de Ligue 1, Bundesliga, La Liga e Serie A neste mercado de inverno. As 78 equipes em questão ainda assim investiram €70 milhões a menos que o Chelsea sozinho no período.

– Somando verão e inverno, o Chelsea gastou €611,5 milhões. É mais que o dobro do segundo clube que mais gastou nessa temporada, o Manchester United, com €243 milhões.

  • Mesmo nos tempos de Roman Abramovich, o Chelsea nunca chegou a metade dessas cifras atuais. A temporada de maiores gastos com o russo foi a de 2017/18. Foram €260,5 milhões, apenas 42% do total dessa temporada atual.

  • A janela de transferências mais emblemática do Chelsea aconteceu em 2003/04. Foi quando Abramovich chegou em Stamford Bridge e iniciou a montagem de um elenco praticamente novo. Figurões como Hernán Crespo, Damien Duff, Juan Sebastián Verón, Claude Makélélé, Adrian Mutu, Wayne Bridge e Joe Cole chegaram de uma só vez. Custaram €170 milhões, €283 milhões em valores corrigidos, ainda assim menos da metade do gasto atual. A temporada seguinte ainda garantiu Didier Drogba, Petr Cech, Arjen Robben, Ricardo Carvalho, Paulo Ferreira, Alex e Mateja Kezman. Não passaram de €162,4 milhões.

  • Na história do futebol, somente outras três vezes um clube gastou mais do que €300 milhões numa só temporada. Nunca ninguém tinha passado sequer dos €400 milhões, quanto mais dos €600 milhões, o que o Chelsea fez agora. A saber, os que mais se aproximam do Chelsea atual são o Barcelona de 2017/18 (€380 milhões), o Real Madrid de 2019/20 (€355,5 milhões) e o Manchester City de 2017/18 (€317 milhões). Clubes como o Manchester United e o Paris Saint-Germain nunca chegaram a metade do que o Chelsea gastou na atual temporada.

  • O gasto da atual temporada representa pouco menos da metade do que o Chelsea gastou nas nove temporadas anteriores somadas, um total de €1,99 bilhão. Os €611,5 milhões dos Blues em 2022/23 são aproximadamente o que investiu um clube como o Atlético de Madrid em cinco anos (€616 milhões), como o RB Leipzig em dez anos (€589 milhões), como o Olympique de Marseille em 15 anos (€ 614 milhões) e como o Villarreal em 20 anos (€625 milhões).

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo