Eurocopa

Mais um recorde que parecia inalcançável cai aos pés de Cristiano Ronaldo: Os detalhes de seus 109 gols pela seleção

Cristiano Ronaldo chegou aos 109 gols por Portugal, igualando o recorde estabelecido por Ali Daei com o Irã

O recorde de Ali Daei por algum tempo parecia inalcançável. Nenhum jogador antes do iraniano havia passado dos 90 gols por seleções. O centroavante que estrelou os persas nas Copas de 1998 e 2006 não apenas superou a barreira dos 90, como chegou ao ápice de abrir 20 tentos de vantagem sobre o segundo colocado da lista. Mesmo com o aumento de compromissos pelas equipes nacionais nas últimas décadas, os 109 gols do veterano permaneciam como uma façanha. Aqueles dispostos a alcançá-lo dependeriam não apenas de uma alta média de bolas nas redes pela seleção, mas também de uma longevidade considerável. Foi o que Cristiano Ronaldo se propôs a fazer e, enfim, conseguiu nesta quarta-feira histórica. Com seus dois gols no empate com a França, o capitão de Portugal chegou também a 109 tentos pela equipe nacional, igualando-se como o maior artilheiro do futebol de seleções. Consegue um dos recordes mais notáveis de sua infindável lista de feitos.

Como Ali Daei construiu seu recorde

Ali Daei foi um dos jogadores asiáticos mais importantes na virada do século, mas não que sua carreira por clubes impressionasse tanto. Chegou a passar uma temporada no Bayern de Munique, além de ter defendido Arminia Bielefeld e Hertha Berlim na Bundesliga. Na maior parte do tempo permaneceu no Campeonato Iraniano, vestindo a camisa do Persepolis, no qual figura entre os maiores ídolos. Os 134 tentos por clubes, todavia, mostram como sua passagem pela seleção é muito mais significativa e fantástica.

Pela equipe nacional, Ali Daei contabilizou 109 gols em apenas 149 partidas. O primeiro deles aconteceu em seu sexto jogo, balançando as redes de Taiwan em junho de 1993, pelas Eliminatórias da Copa. Seguiria balançando as redes até março de 2006, às vésperas de disputar sua segunda Copa do Mundo com o Irã – quando, usando a braçadeira de capitão, passou em branco. Mesmo com dois Mundiais na conta, Daei não conseguiu deixar sua marca no torneio. Os números mais impressionantes são por eliminatórias, bem como pela Copa da Ásia.

Dos 109 gols de Daei, 36 ele anotou em Eliminatórias da Copa do Mundo. O atacante aproveitou bem a facilidade das fases iniciais da competição para empilhar gols contra adversários mais frágeis. E o seu peso na classificação do Irã para os Mundiais de 1998 e 2006 é inegável.  Foram nove gols de Daei na campanha até a França, ainda que tenha marcado menos que o companheiro Karim Bagheri, autor de incríveis 19 tentos no qualificatório. Já na caminhada para a Alemanha, Daei repetiu os nove gols e foi o goleador das Eliminatórias na Ásia. Curiosamente, seu melhor desempenho foi antes da Copa de 2002, mas os dez tentos não valeram a classificação dos iranianos.

A Copa da Ásia também corresponde bastante ao sucesso de Ali Daei. O centroavante marcou 14 gols na fase final do torneio e permanece como maior artilheiro da história do certame. O maior impacto ocorreu em 1996, quando o Irã terminou na terceira colocação. O goleador marcou oito gols naquela edição e foi o máximo goleador, incluindo quatro tentos numa incrível vitória por 6 a 2 sobre a Coreia do Sul nas quartas de final. Nas eliminatórias da Copa da Ásia, além do mais, Daei assinalou 23 tentos. Maltratou adversários inócuos, chegando a contabilizar nove gols num intervalo de dois dias, contra Nepal e Sri Lanka, em junho de 1996.

O restante da contagem de Daei ainda inclui 27 gols em amistosos e nove gols em Jogos Asiáticos. De todos os seus 109 tentos, 95 saíram contra seleções asiáticas. Nunca marcou contra uma equipe campeã do mundo. Na Europa, os adversários vazados pelo veterano se restringem a Ucrânia, Bósnia e Macedônia do Norte. Na América do Sul, só balançou as redes de Paraguai e Equador. Independentemente das circunstâncias, ainda assim, o iraniano conseguiu aproveitar sua realidade pela seleção como nenhum outro. Como nenhum outro até Cristiano Ronaldo.

Cristiano Ronaldo decolou a partir de 2013

Cristiano Ronaldo celebra um de seus gols contra a Suécia (AP Photo/Frank Augstein)

Além de Cristiano Ronaldo e Ali Daei, nenhum outro jogador superou os 90 gols oficiais por seleções. O malaio Mokhtar Dahari (89) e o húngaro Ferenc Puskás (84) foram os outros dois que ultrapassaram a barreira dos 80 tentos. Pelé chegaria a balançar as redes 95 vezes pelo Brasil, mas apenas 77 desses gols foram em partidas oficiais contra outras seleções. Até por isso, o recorde absoluto se torna tão significativo. A vantagem de Daei e CR7 é considerável em relação aos outros concorrentes.

Cristiano Ronaldo precisou de 178 jogos para atingir sua marca de 109 gols. Assim, sua média é inferior à de Ali Daei e mesmo de outros jogadores que ocupam as primeiras colocações da lista de artilheiros por seleções – como Puskás e Pelé. O que ajudou o lusitano a elevar sua marca, de qualquer maneira, não é apenas a longevidade. CR7 também cresceu muito sua produção por Portugal durante os últimos anos, o que o permitiu colocar o recorde de Ali Daei em sua mira. Agora, tende a elevar ainda mais o patamar.

Cristiano Ronaldo demorou oito jogos para marcar seu primeiro gol pela seleção, em 2004, exatamente na estreia da Eurocopa contra a Grécia. Nos primeiros 50 jogos do atacante pela Seleção das Quinas, ele contabilizou 19 tentos. Ainda era uma fase menos goleadora do jogador do Manchester United, mais acostumado a atuar como um ponta habilidoso do que como um definidor. Porém, a transformação de CR7 no Real Madrid como uma máquina de gols não se refletiu imediatamente em Portugal. Em seu centésimo compromisso pela equipe nacional, em 2012, o camisa 7 tinha 37 gols – uma média baixa se comparada ao que fazia com os merengues. Havia disputado duas Copas e três Euros, mas seu desempenho era relativamente tímido por Portugal. Tempos em que o craque costumava ser muito criticado por não render tanto com os lusos.

O divisor de águas de Cristiano Ronaldo pela seleção de Portugal aconteceu em 2013. Suas atuações contra a Suécia pela repescagem das Eliminatórias estão na história. Mas aquele também foi o momento em que o craque virou sua chavinha, tornando bem mais frequentes os gols pela Seleção das Quinas. Até então, ele nunca tinha marcado mais de sete gols num mesmo ano pela equipe nacional e nem mantido uma média igual ou superior a um gol por jogo, algo que frequentemente fazia pelo Real Madrid. Em 2013, esses dados mudaram: foram 10 tentos em nove partidas. Desde então, em outras três temporadas ele conseguiu registrar dois dígitos de gols pela seleção num mesmo ano. Se até 2012 sua média de gols por Portugal era de apenas 0,37 por jogo, nos últimos oito anos esse número mais que dobrou, com 0,92 tentos por jogo.

Cristiano Ronaldo estouraria em 2016, não apenas pela conquista histórica na Eurocopa. Seriam 13 gols em 13 partidas por Portugal, superando a marca de 2013. Outro ano mais que especial foi 2019, indo além do título na Liga das Nações. O atacante acumulou 14 tentos em apenas 10 aparições pela Seleção das Quinas, sua melhor média pelo país em um só ano. E o número está alto também em 2021, com sete gols em oito partidas até o momento. CR7 já igualou sua quinta melhor temporada com a camisa lusitana, num total de 18 anos defendendo a equipe nacional. E dá a impressão de que tem mais lenha a queimar nesta sequência de Eurocopa.

Muitos gols em eliminatórias, mas muitos gols de peso

Cristiano Ronaldo comemora o título da Eurocopa por Portugal (AP Photo/Martin Meissner)

Cristiano Ronaldo se aproveitou bastante das eliminatórias da Euro e da Copa para acumular seus gols, de maneira parecida com Daei. Foram 62 gols no total pelas duas competições. Porém, não dá para negar que CR7 também possui feitos expressivos nos grandes torneios. É o maior artilheiro da história da Eurocopa e aumenta este recorde, agora com 14 gols em 24 partidas, cinco apenas nesta edição – já a melhor marca de sua carreira. Também guardou sete gols em 17 jogos de Copas do Mundo, com os quatro de 2018 melhorando este índice. Ainda foram cinco por Liga das Nações e dois por Copa das Confederações. Ainda tem 19 bolas nas redes somadas em 51 amistosos – curiosamente, sua média neste tipo de jogo é pior do que em eliminatórias ou nas competições.

Nas Eurocopas, Cristiano Ronaldo marcou seus primeiros dois gols em 2004, com destaque ao tento que abriu o caminho na vitória sobre Países Baixos / Holanda na semifinal. Só fez um na Euro 2008, mas fecharia a Euro 2012 entre os artilheiros, com três tentos. Já em 2016 foram mais três, com destaque a outro na semifinal, agora contra Gales. Os cinco feitos nesta Euro 2020 não apenas aumentam a média de CR7, como também ganham um simbolismo maior pelos recordes. Já em Copas, o atacante fez apenas um gol em cada uma de suas três primeiras edições – curiosamente, balançando as redes contra o Irã de Ali Daei em 2006, antes de furar Coreia do Norte em 2010 e Gana em 2014. O melhor momento viria mesmo em 2018, com destaque à tripleta sobre a Espanha, antes de mais um conta Marrocos.

Já nas eliminatórias, os números crescem. Na caminhada à Copa de 2006, Cristiano Ronaldo anotou sete gols, ficando atrás de Pauleta na artilharia de Portugal. Foram mais oito tentos rumo à Euro 2008, enquanto o craque passou em branco nas Eliminatórias para a Copa de 2010. E na passagem à Euro 2012, CR7 contribuiu com cinco bolas nas redes. Como dito, a história mudou a partir de 2013, nas Eliminatórias para a Copa de 2014. Cristiano Ronaldo assinalou oito gols, quatro deles na memorável classificação contra a Suécia. Para garantir Portugal na Euro 2016, saíram mais cinco gols. Mais fantásticos seriam os 15 gols nas Eliminatórias para a Copa de 2018. E a lenda seguiria insaciável, com 11 tentos na qualificação para a Euro 2020.

Pela seleção, Cristiano Ronaldo anotou três ou mais gols numa mesma partida nove vezes. Todas elas aconteceram a partir de 2013. Os jogos contra Suécia e Espanha já citados estão entre os mais marcantes, assim como o hat-trick contra a Suíça na semifinal da Liga das Nações de 2019. Além disso, CR7 vazou 44 seleções diferentes. Foram 95 gols contra times da Uefa. Lituânia e Suécia são as mais vazadas, com sete gols cada. O atacante anotou sete gols totais contra as oito seleções campeãs do mundo. Ainda não balançou as redes de Brasil, Inglaterra, Itália e Uruguai. Alemanha e França, enquanto isso, entraram para a lista de vítimas nesta Euro.

Aos 36 anos, Cristiano Ronaldo se aproxima do fim da carreira. Ainda assim, parece difícil querer prever onde a marca de gols pela seleção vai parar. A fome do artilheiro continua intacta e esta Euro 2020 representa bem sua efetividade. A certeza é que o português não vai querer parar com 109 gols. É bem possível que ele eleve ainda mais o recorde e o torne mais difícil aos seus perseguidores. Quem sabe, para que o nome de Ali Daei vire apenas mais um degrau em busca de uma marca do lusitano que beire o impossível.

Um infográfico com os números de CR7

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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