Eurocopa

Lewa se despede da Euro com sua melhor aparição nas grandes competições, mas frustrado pelo esforço em vão num time aquém de seu talento

Lewandowski manteve a Polônia viva até os últimos minutos contra a Suécia, mas acabaria derrotado e eliminado

Robert Lewandowski carregou a Polônia nesta Euro 2020. O esforço do centroavante, no entanto, seria insuficiente para a classificação da equipe – ou mesmo para uma vitória sequer. Sim, Lewa perdeu duas chances flagrantes durante a competição. Porém, faria muito mais para se redimir e para empurrar uma equipe medíocre, que só manteve alguma esperança graças a seu craque. Nesta quarta, diante da Suécia, o camisa 9 teve uma ótima atuação e sustentou as possibilidades de uma classificação polonesa até os últimos minutos. Não foi suficiente para que seus companheiros evitassem a derrota por 3 a 2 nos acréscimos. Ainda assim, o artilheiro sai de cabeça em pé com sua melhor participação individual num torneio internacional – talvez seu último em alto nível com a camisa da seleção.

A estreia de Lewandowski em competições internacionais aconteceu na Euro 2012. O atacante naquele momento ainda era visto como um jogador em ascensão, depois de fazer sua primeira temporada como titular no Borussia Dortmund e contribuir bastante ao bicampeonato alemão. Lewa marcou o primeiro gol naquela edição do torneio, inaugurando o placar na abertura contra a Grécia, mas os poloneses sofreriam para segurar o empate por 1 a 1. Depois, a equipe ainda empataria com a Rússia e perderia para a República Tcheca, caindo logo na fase de grupos. Mesmo anfitriã e com bons jogadores em ascensão, a Polônia ficaria devendo naquela Eurocopa. Iniciaria uma série de campanhas decepcionantes nas grandes competições, com seu craque também abaixo de reproduzir o que se via na Bundesliga.

A Euro 2016 viu a Polônia chegar às quartas de final, mas mais pela proteção defensiva do que pela fome de gols de Lewandowski. O atacante anotou apenas um gol no torneio, mesmo depois de empilhar bolas nas redes durante a classificação à competição – terminando na artilharia do qualificatório com 13 tentos. Algo muito parecido ocorreria na Copa de 2018. Lewa sobrou nas Eliminatórias e foi artilheiro com absurdos 16 gols acumulados em somente dez partidas. Na Rússia, porém, o craque passou em branco e pouco ajudou a Polônia, que vinha badalada como cabeça de chave e sequer alcançou as oitavas.

A cobrança sobre Lewandowski se tornaria maior na Euro 2020. O centroavante tentaria mudar a história de uma seleção que brilha nas campanhas qualificatórias, mas murcha nas fases finais. Pior, teria que fazer isso numa equipe menos competitiva do que em anos anteriores. Além de vários jogadores poloneses importantes terem se despedido durante os últimos anos, a bagunça imperou nos bastidores, com as mudanças de técnico e a falta de uma linha de trabalho clara. Para atrapalhar ainda mais, as lesões de Arkadiusz Milik e Krzysztof Piatek sequer providenciariam um parceiro de bom nível a Lewa.

A estreia viu uma versão de Lewandowski pouco participativa, anulado pela marcação. A derrota para a Eslováquia já parecia muito custosa à campanha. No segundo jogo, o centroavante precisou jogar sozinho em muitos momentos contra a Espanha. Correu, driblou, passou, finalizou. Até desperdiçou uma chance clara no primeiro tempo, ao carimbar o goleiro Unai Simón num rebote dentro da área, mas seria determinante ao empate com uma cabeçada certeira na segunda etapa. A sobrevivência dos poloneses nesta quarta, por fim, dependeria de uma vitória contra a Suécia. Se já estava claro como as esperanças de seu time passavam muito por Lewa, ele seria preponderante contra os suecos. Contudo, sem um coletivo à altura de sua exuberância individual. Uma pena.

A própria escolha do técnico Paulo Sousa em botar Grzegorz Krychowiak de volta ao meio-campo era questionável, considerando a falta de dinamismo do volante, importante aos poloneses na Euro 2016. Além do mais, o gol da Suécia logo de cara condicionava o jogo, obrigando a Polônia a pressionar contra um adversário acostumado a se trancar na defesa. Lewa martelou na primeira etapa. Faltou um pouco mais de sorte, embora o centroavante tenha perdido uma chance que não costuma. Acertou o travessão numa cabeçada após escanteio e, na tentativa de aproveitar ainda o rebote meio no susto, parou na barra de novo. Os alvirrubros até abafaram mais, mas a superioridade resultava mais da necessidade do que da qualidade do grupo.

Durante o início do segundo tempo, o segundo gol da Suécia parecia dizimar as chances da Polônia. Faltava pouco mais de meia hora e o time estava muito aquém de uma virada desta grandeza. Pois os poloneses contariam com o melhor de Lewandowski. para sobreviver Primeiro, para empatar de imediato. Piotr Zielinski tem méritos pelo ótimo passe, mas foi mesmo o artilheiro quem tirou o coelho da cartola, com um chutaço que morreu no ângulo de Robin Olsen. Faltavam dois gols. A partir de então, Lewa era um exército inteiro em si. Foi a referência não apenas por seu faro de gol, mas também pela qualidade acima da média e pela vontade.

O segundo gol da Polônia seria de Lewandowski, é claro, mas saiu apenas aos 39 do segundo tempo. O artilheiro já tinha estourado sua cota de chances desperdiçadas e, depois de uma bobeira da zaga, ele não perdoou diante de Olsen. Mais interessante ainda foi a maneira como Lewa passou a sair da área para criar. Se os companheiros não tinham habilidade suficiente para gerar lances de perigo, então eles passaram a entrar na área e o camisa 9 foi dar os passes. Num cruzamento fechado, ainda quase complicou Olsen. Mas não houve terceiro gol polonês, quando seriam os suecos a marcarem do outro lado. Nestes 90 minutos, ficou ainda mais claro como uma versão mais solta de Lewandowski ao lado de Milik ou Piatek poderia ser mais destrutiva nesta Eurocopa.

Lewandowski não conseguiu ser a máquina de gols do Bayern de Munique na Eurocopa. Ainda assim, foi muito para uma equipe insuficiente como a sua, abaixo da qualidade que os bávaros oferecem ao seu matador. E se os poloneses permaneceram por tanto tempo vivos na competição, a responsabilidade do camisa 9 é direta. Vai para casa frustrado, mas ciente de que fez tudo ao seu alcance. Com três gols em três partidas, Lewa conseguiu oferecer mais do que em sua Copa ou nas outras Euros que disputou.

Às vésperas de completar 33 anos, Lewandowski sabe que o seu tempo está acabando. E se os poloneses já não começaram bem nas Eliminatórias para o Mundial de 2022, esta talvez fosse sua última oportunidade pela seleção em alto nível. Pela bola que ainda joga, não é difícil de imaginá-lo na Euro 2024 se os alvirrubros chegarem lá. Porém, mesmo na “sua Alemanha”, é bem provável que a melhor fase do Bola de Ouro de 2020 tenha ficado para trás. Por isso mesmo, essa Eurocopa representava tanto a ele. Acaba com aquele sentimento de que o esforço seria em vão, por questões que fugiram de seu próprio talento.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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