Eurocopa 2024

Espanha ‘africana’ consagra o drible e busca o inédito tetra europeu

Vale recordar do toque preto e brasileiro na ascensão do futebol espanhol

Até hoje se discute na Espanha se a chegada dos mouros, no ano 711, foi um movimento migratório ou uma invasão religiosa. Fato é que a invasão realizada da África para a Europa, através do Estreito de Gibraltar, resultou numa dominação de oito séculos que até hoje deixa marcas na cultura espanhola. 

Em 2024, dois descendentes de africanos que nasceram na Espanha dão nova cara ao futebol que busca se consagrar como o primeiro tetracampeão europeu. Dos pés e dos dribles de Lamine Yamal, filho de pai marroquino e mãe da Guiné Equatorial, e Nico Williams, filho de ganeses, emerge uma nova Espanha. À troca de passes apurada que norteou as conquistas de duas Eurocopas e uma Copa do Mundo entre 2008 e 2012 foi acrescentada a arte do drible e da criatividade trazida por dois negros espanhóis de origem africana.

Campeã europeia pela primeira vez em 1964, a Espanha era conhecida como Fúria, devido ao estilo feroz de jogo da seleção por volta dos anos 1920. A partir de 2008 essa maneira de jogar foi alterada, com um toque brasileiro. Não apenas pela presença de Marcos Senna, preto paulistano de nascimento e naturalizado espanhol, que foi fundamental na condução do ritmo de jogo do time campeão europeu daquele ano. Além dele, havia a admiração genuína do treinador espanhol Luís Aragonés (falecido em 2014) pelos jogadores brasileiros. Aragonés foi treinador dos brasileiros Leivinha e Luís Pereira, ídolos do Palmeiras, no Atlético de Madri, nos anos 1970, e adorava trabalhar com atletas brasileiros.

Nova Espanha é multicultural

A nova Espanha de Yamal e Willians também é de Dani Olmo, um branco nascido na Catalunha que dribla como se fosse sul-americano ou africano. Quem coordena essa fusão de toque de bola e dribles é Rodri, um ritmista madrilenho que determina o andamento dos jogos.

Em sua busca pela primazia do tetracampeonato europeu, essa Espanha multicultural deixou pelo caminho a tricampeã Alemanha e a bicampeã França e aguarda rival na decisão de domingo.

Confesso uma ponta de inveja ao ver o estilo de jogo espanhol nessa Euro. Passes mais objetivos, pura técnica para o momento certo, e essa pitada de ousadia trazida por jovens abusados no bom sentido.

Lembra muito do que costumava ser o futebol brasileiro. O estilo de Yamal é o mesmo de Estêvão, do Palmeiras. Joga pelo lado direito e traz para o meio para finalizar de pé esquerdo, além de driblar de forma desconcertante seus marcadores. Yamal terá 17 anos no dia da final europeia. Estêvão tem 17 e viu pela TV uma seleção brasileira insossa deixar a Copa América nas quartas-de-final.

Foto de Mauricio Noriega

Mauricio Noriega

Colunista da Trivela
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