Eliminatórias da Eurocopa

Israel se prepara para, em meio à guerra, voltar aos gramados europeus por clubes e seleção

Esta quinta-feira marca o retorno de clubes israelenses a campo em competições europeias, enquanto a seleção do país se prepara para retomar atividade pelo sonho de ir à Eurocopa 2024

Viajar para jogar fora de casa é uma realidade para clubes ucranianos há algum tempo, desde que a insana guerra com a Rússia acontece. Para o Shakhtar, por exemplo, essa é a realidade desde 2014. Uma realidade que agora é vivida também por clubes israelenses. Maccabi Tel Aviv e Maccabi Haifa estarão em campo nesta quinta-feira para jogar competições europeias, depois de mais de um mês parados. Enquanto isso, a seleção israelense se prepara para voltar a campo na Data Fifa, tendo boas chances de ir à próxima Eurocopa. A guerra impactou clubes e a seleção do país. Como lidar com tudo isso?

A retomada do futebol em Israel é apenas parcial. O campeonato local está parado desde os ataques terroristas do Hamas, no dia 7 de outubro. Dois dias antes, o Maccabi Tel Aviv tinha perdido do Gent por 2 a 0 fora de casa pela Conference League. O Maccabi Haifa tinha empatado em casa com o Panathinaikos pela Liga Europa. Todos os jogos da liga israelense, compreensivelmente, foram adiados desde então.

Os jogos europeus também foram adiados. O Maccabi Tel-Aviv deveria ter enfrentado contra o Zorya Luhansk no dia 26 de outubro, mas o jogo precisou ser adiado. Assim como o jogo do Maccabi Haifa, que deveria enfrentar o Villarreal no mesmo dia 26 de outubro. A retomada do futebol dos clubes israelenses começará com esses jogos europeus.

Retomada de jogos europeus

A retomada do futebol para os clubes israelenses significa que eles terão que jogar fora de casa mesmo quando forem mandantes. O Maccabi Haifa mandará seu jogo contra o Villarreal em Larnaca, no Chipre. Já o Maccabi Tel Aviv viaja para a Polônia para um jogo fora de casa contra o Zorya Luhansk, outro clube que precisa mandar seus jogos fora do país, por também viver uma guerra.

A situação fez com que os jogadores de Maccabi Tel Aviv e Maccabi Haifa se encontrassem no Aeroporto Ben Gurion e, mesmo sendo rivais, tirassem fotos juntos, posando com uma bandeira de Israel. Um sinal de união em meio a um conflito que persiste sem prazo para acabar e em um mar de incertezas de como isso afetará o futebol do país.

Enquanto o Maccabi Haifa definiu o Chipre como sua casa neste período conturbado, o Maccabi Tel Aviv ainda não sabe onde mandará seus jogos. Alemanha, Polônia, Hungria e o próprio Chipre são países estudados para receberem a equipe. Jogar, porém, é o último passo. Antes disso, os clubes precisam lidar com problemas mesmo se considerar só a parte esportiva, dentro de campo.

Os clubes estão parados desde o dia 5 de outubro. Estrangeiros que atuam nos clubes receberam autorização para deixarem o país. Voltaram aos seus países e ficaram treinando separadamente, com sua equipe pessoal ou em clubes locais dos seus países. Como preparar um time que não só não joga partidas oficiais há mais de um mês, mas principalmente mal conseguiu treinar nesse tempo?

“Eu amo este jogo na minha vida e eu ficaria muito feliz em jogar futebol, mas como isso é possível?”, disse Messay Dego, técnico do Maccabi Haifa, ao ler um comunicado na coletiva de imprensa. Ele não quis responder perguntas, apenas leu o comunicado. O clube israelense vai a campo com diversas incertezas no país.

O Maccabi Tel Aviv está em situação similar. O técnico é Robbie Keane, famoso ex-jogador do Tottenham e da seleção da Irlanda. Ele foi um dos que recebeu autorização para sair do país, junto com seu assistente, Rory Delap (aquele, ex-Stoke, famoso pelas cobranças de lateral longas), o treinador de goleiros Mike Stowell, o preparador físico Andy Liddell e o analista Phil Hudson.

Desde o início da guerra, nenhum deles voltou a Israel. Eles têm comandado treinos no país por chamada de vídeo, enquanto os jogadores locais treinam em um complexo nas imediações da cidade de Tel Aviv. Na última semana, o time conseguiu fazer um amistoso contra o Bnei Yehuda, de forma a tentar dar um pouco de ritmo ao time.

Os jogadores estrangeiros e locais se reencontraram no último domingo, quando as equipes viajaram para o exterior para os jogos europeus. Foi a primeira vez em um mês que todo o elenco dos times estava reunido e treinaria junto. Seriam poucos dias para se preparar para seus jogos.

Além do caos em campo, com pouco tempo de trabalho para preparar as equipes, os clubes precisam lidar com outra preocupação: a segurança. Normalmente, os clubes israelenses já levam uma equipe de segurança própria, mas que desta vez foi bastante reforçada. Há o temor que os clubes sejam alvos em meio a um conflito que gera muitos questionamentos, de lado a lado.

Há esperança, ainda que pequena, que nas próximas semanas haverá uma definição sobre a situação do futebol de Israel. Se especula que a Fifa pode criar uma regra temporária que permita aos jogadores estrangeiros que atuam no país serem liberados de seus contratos e possam se transferir a outros clubes, como aconteceu com Rússia e Ucrânia após o início da guerra. Isso, porém, está longe de estar claro.

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Seleção de Israel tem grande chance de ir à Eurocopa

Em meio a esse caos da guerra e um caos dentro de campo também, com clubes e jogadores parados, há uma situação animadora no horizonte, em termos esportivos. Israel tem chances bastante boas de chegar à próxima Eurocopa. O time está no Grupo I e tem 11 pontos em seis jogos disputados. A líder é a Romênia, com 16 pontos em oito jogos, seguida da Suíça, com 15 pontos em sete jogos.

Por ter seus jogos da data Fifa de outubro adiados, Israel tem jogos a menos na tabela. Os duelos contra Suíça e Kosovo, previstos para acontecer nos dias 12 e 15 de outubro, foram adiados. O jogo contra Kosovo acontecerá no dia 12 de novembro, enquanto o jogo contra a Suíça será no dia 15.

Só que a Data Fifa será longa para Israel, porque o time ainda jogará contra a Romênia no dia 18 e contra Andorra no dia 21. Quatro jogos em 10 dias para retomar o calendário e tentar uma vaga que seria um grande feito. Só uma vez na história Israel conseguiu chegar a uma grande competição. Foi a Copa do Mundo de 1970, no México, quando o time se classificou, na época filiada à Ásia/Oceania. Israel foi um time nômade ao longo da história das Eliminatórias. O time nunca avançou para a disputa de uma Eurocopa desde que se tornou membro da Uefa, em 1992.

“Estou orgulhoso de embarcar para este imenso desafio com um time maravilhoso e jogadores que entendem muito bem a magnitude do momento”, afirmou Yossi Benayoun, ex-jogador de Liverpool e Chelsea, que atualmente é diretor esportivo da seleção israelense. O momento é tão único que fez com que o principal jogador israelense, Eran Zahavi, de 36 anos, abandonasse a aposentadoria da seleção para tentar classificar o time. A decisão de retomar a presença na seleção veio após o ataque do Hamas e o início da guerra.

Zahavi é um dos jogadores mais bem-sucedidos na história de Israel. Atualmente defende o Maccabi Tel Aviv, clube que o formou como jogador e onde começou, mas ele passou por diversos clubes no exterior, como Palermo, na Itália, Guanghzou R&F, na China, e PSV, na Holanda. Retornou ao seu país em 2022 para jogar pelo Maccabi Tel Aviv.

Sua aposentadoria da seleção tinha sido por discordar de ter que dividir quarto com companheiros de seleção. Ele queria quartos individual. Isso, claro, além de desavenças com o próprio Yossi Benayoun, algo que foi resolvido em um momento que pede mais paciência em meio a um conflito e com tudo que acontece no país.

“Não foi algo fácil para mim, não em termos de ego, mas coloquei de lado pela minha conduta profissional, que me guiou por anos. Eu simplesmente decidi arriscar pelo bem maior e vamos ver o que acontecer”, disse Zahavi.

A convocação da seleção israelense foi todo um ato simbólico. Fotos de reféns foram colocadas nas cadeiras da sala de coletiva de imprensa para anunciar a convocação. “Tentaremos dar um sentimento que podemos fazer um bom de bem”, disse o técnico Alon Hazan na semana passada, quando esteve diante da imprensa para anunciar os nomes.

Israel vai ter como sua casa para os jogos das Eliminatórias da Euro a Hungria. Os jogos serão disputados na Pancho Arena, um estádio que foi construído na pequena cidade de Felcsut, onde o atual Primeiro-Ministro da Hungria, Viktor Orban, cresceu. Orban é um aliado bastante próximo do Primeiro-Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.

Dos 31 convocados para a seleção de Israel, 14 atuam no futebol local, que não joga há mais de um mês. O restante continua em atividade em clube pela Europa ou de outros locais, como Estados Unidos ou Japão. O elenco tem jogadores que estão acostumados a essa situação. O capitão, Eli Dasa, de 30 anos, joga pelo Dynamo Moscou. O defensor Stav Lemkin, de 20 anos, joga pelo Shakhtar Donetsk. Entre as esperanças do time está Shon Weissman, de 27 anos, atacante do Granada.

A seleção israelense não terá muito tempo para se preparar. Os jogadores e a comissão técnica terão 48 horas entre a apresentação e o primeiro jogo, da série de quatro que farão. Será uma maratona decisiva para saber se o time conseguirá avançar à sua primeira Eurocopa. O técnico deve confiar mais nos jogadores que atuam no exterior e terão mais ritmo de jogo.

O problema é como lidar com o mental com o país em guerra. “A vitória pode dar às pessoas um pouco de alegria depois de tudo que passamos no último mês”, afirmou o defensor Miguel Vitor. “Esses são tempos difíceis para pensar em futebol, mas espero que possamos contribuir para levar alguma alegria ao país, assim as pessoas podem pensar em outras coisas”.

O início da maratona de Israel é contra Kosovo, no dia 12, fora de casa. Depois, na Hungria, onde será a sua casa, joga contra a Suíça, no dia 15. Novamente na Hungria, receberá a Romênia, no dia 18. Por fim, joga contra o time mais fraco do grupo, Andorra, fora de casa, no dia 21. Mesmo que a classificação não venha e o time não fique entre os dois primeiros colocados, ainda terá uma chance na repescagem. Seja como for, o futebol de Israel viverá momentos de muita emoção, em meio a uma imensa tristeza e caos que o país vive no momento.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.

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