Azarões EternosEliminatórias da Copa

A turnê mundial de Israel e Austrália, os nômades históricos das Eliminatórias

Austrália e Israel já enfrentaram equipes de todos os continentes pelas Eliminatórias, numa história que deu a volta ao globo em busca da Copa

No verdadeiro périplo da bola ao redor do globo que são as Eliminatórias da Copa, duas seleções podem dizer que já deram a volta ao mundo. Seja por motivos políticos, técnicos ou mesmo de proximidade geográfica, Austrália e Israel são as únicas a já terem enfrentado equipes de todos os continentes – África, América, Ásia, Europa e Oceania – numa disputa de vaga no Mundial. Chegaram inclusive a se cruzar em mais de uma edição da fase de classificação. As histórias de peregrinação dessas duas seleções pelo planeta estão reunidas aqui.

A seleção que precedeu o Estado (1934-1938)

A história de Israel nas Eliminatórias para a Copa do Mundo precede a própria criação do Estado judeu em maio de 1948. Na década anterior, a seleção do então denominado Mandato Britânico da Palestina – formada apenas por judeus – disputou a fase de classificação para os Mundiais de 1934 e 1938. Naquele momento, até por nem todos os continentes terem suas confederações plenamente estabelecidas (na verdade, só a América do Sul contava com uma), não havia uma divisão regional muito rígida.

Sendo assim, na primeira tentativa a seleção da Palestina Britânica foi incluída no Grupo 12 das Eliminatórias, ao lado do Egito e da Turquia, que viria a desistir da disputa. Os egípcios, bem mais experientes (já haviam participado de três edições dos Jogos Olímpicos), não tiveram trabalho para golear nos dois jogos, disputados em março e abril de 1934, cerca de dois meses antes do início do Mundial: 7 a 1 no Cairo e 4 a 1 fora de casa – algumas fontes indicam o local da partida como Jerusalém e outras, Tel Aviv.

A seleção do Mandato Britânico da Palestina em 1940

Já em 1938, a seleção ficou no Grupo 6, que era dividido em duas etapas: na primeira, Palestina Britânica e Grécia se enfrentariam em ida e volta, com o vencedor avançando para enfrentar a Hungria na segunda, num jogo único em Budapeste. E novamente a equipe do futuro Estado de Israel perderia ambas as partidas: 3 a 1 em Tel Aviv em 22 de janeiro de 1938 e 1 a 0 em Atenas no dia 20 de fevereiro. Os gregos, porém, também ficariam de fora do Mundial, arrasados pelos magiares na etapa seguinte por 11 a 1.

No ano seguinte, o time do Maccabi Tel Aviv fez uma excursão de navio até a Austrália entre os meses de junho e agosto, com os trajetos de ida e de volta durando cerca de um mês, e entrando em campo 19 vezes ao todo. Em algumas das partidas, como a retratada neste vídeo, a equipe chegou a ser anunciada como a seleção da Palestina. Compreensivelmente, porém, esses jogos não são considerados oficiais para efeito das estatísticas da equipe nacional do antigo território britânico no Oriente Médio. 

A seleção do Mandato Britânico da Palestina ainda faria mais uma partida em 27 de abril de 1940, goleando o Líbano por 5 a 1 em Tel Aviv. Mas, com a Segunda Guerra Mundial já declarada, os jogos internacionais logo se tornariam inviáveis na Europa e em regiões próximas, suspendendo ainda a realização das Copas do Mundo de 1942 e 1946. Em setembro de 1948, quatro meses após a criação do estado independente de Israel, a seleção do novo país debutava enfrentando o time olímpico dos Estados Unidos em amistoso.

As primeiras campanhas do novo país (1950-1962)

Se um grupo exclusivamente asiático foi ensaiado para 1950, mas não chegou a acontecer de fato com as desistências de Birmânia, Indonésia e Filipinas (e da própria Índia, que abdicou de jogar o Mundial mesmo classificada sem ter precisado entrar em campo), em 1954 ele pôde enfim ser disputado com o confronto em ida e volta entre Coreia do Sul e Japão, duas seleções do chamado Extremo Oriente. Israel, no entanto, manteve-se distanciado deste universo e temporariamente vinculado a outro, mais próximo.

Isso porque nas duas primeiras Copas após a Segunda Guerra ainda persistia certa noção de “Europa e adjacências” quanto à divisão regional das Eliminatórias. Também é possível notar – pelo menos para 1950 – a preocupação em encurtar distâncias, num continente ainda arrasado economicamente pelo recém-encerrado conflito. Sob essa ótica, Israel e Síria foram incluídos no sorteio dos grupos europeus para a fase de classificação do Mundial de 1950, assim como viria a acontecer com Israel e Egito para 1954.

Para o primeiro, os israelenses foram incluídos no Grupo 3, tendo inicialmente a Iugoslávia como adversário – o vencedor desse confronto em ida e volta pegaria a França na etapa seguinte. As partidas foram disputadas em 21 de agosto e 18 de setembro de 1949 e ambas terminaram com vitórias tranquilas dos balcânicos: 6 a 0 em Belgrado e 5 a 2 em Tel Aviv. Ao atacante Yehoshua “Shyie” Glazer, do Maccabi Tel Aviv, pelo menos foi reservada a honra de marcar os dois primeiros gols da nova seleção na competição.

Quatro anos depois, os israelenses tiveram de novo a Iugoslávia como adversária no Grupo 10 europeu, agora ao lado da Grécia com todos se enfrentando em um triangular em ida e volta. Ao contrário dos resultados de 1949, desta vez os placares magros foram a regra em todos os jogos: foram marcados apenas sete tentos nas seis partidas. Além de derrotado em todos os confrontos, Israel ainda viu seu ataque passar em branco: foram dois revezes por 1 a 0 para os balcânicos e por 1 a 0 fora e 2 a 0 em casa para os gregos.

Entre os processos de classificação para os Mundiais de 1954 e 1958, a organização do futebol passou por mudanças com a fundação de confederações continentais na Europa (Uefa), África (CAF) e Ásia (AFC), juntando-se às já existentes CSF (América do Sul), NAFC (América do Norte) e CCCF (América Central e Caribe) – as duas últimas se fundiriam para dar origem à Concacaf em 1961. Com isso, a Fifa decidiu delegar a cada uma delas a tarefa de levar adiante as Eliminatórias em suas respectivas regiões.

Mesmo assim, com só uma vaga em disputa entre África e Ásia, ainda aconteceu de equipes dos dois continentes se misturarem ao longo das etapas classificatórias. Um dos 14 países fundadores da confederação asiática em maio de 1954, Israel foi realocado, deixando de disputar as Eliminatórias pela zona europeia. Mas se o número de inscritos aumentou bastante em relação à Copa anterior (fruto, em parte, do processo de descolonização), muitas seleções desistiram no meio do caminho, por vários motivos.

Um desses motivos era o agravamento da tensão política no Oriente Médio em virtude da crise do Canal de Suez entre egípcios e israelenses. Porém, a Turquia, que seria a primeira adversária de Israel, alegou outro motivo – a recusa em disputar o grupo da Ásia – para se retirar da disputa. Na etapa seguinte, seria a vez da Indonésia deixar o caminho livre depois que a Fifa não aceitou sua demanda de enfrentar os israelenses em campo neutro. Mais uma vez sem jogar, Israel seguia à decisão da vaga daquela região.

Na outra perna das semifinais se enfrentariam Sudão e Egito, que engrossou a lista de desistentes. O problema era que os sudaneses também não aceitavam enfrentar Israel devido ao boicote da Liga Árabe ao Estado judeu. “Vencedores” do grupo sem ter entrado em campo uma única vez, os israelenses se transformaram num problema para a Fifa, já que a entidade havia emitido pouco tempo antes uma determinação de que nenhuma seleção participante das Eliminatórias poderia avançar ao Mundial sem jogar.

A solução da entidade foi improvisar uma repescagem – a primeira intercontinental da história das Eliminatórias – na qual Israel teria como adversário o vencedor de um sorteio feito entre os segundos colocados dos demais grupos do resto do mundo. E o agraciado com uma sobrevida foi o País de Gales. Os jogos aconteceram já em 1958: o primeiro em Ramat Gan em 15 de janeiro e o segundo em Cardiff em 5 de fevereiro. Os galeses obtiveram duas vitórias protocolares por 2 a 0 e carimbaram o passaporte.

Israel x Gales rumo à Copa de 1958

A Fifa voltou atrás na ideia da vaga direta ao grupo afro-asiático para 1962, talvez escaldada pela resistência dos países do Oriente Médio em enfrentar Israel ou então pelo fato de ela diminuir ainda mais o número de seleções europeias num Mundial no qual as Américas já teriam presença expandida devido ao fato de Chile e Brasil – país-sede e atual campeão, respectivamente – terem classificação assegurada. A entidade criou um sistema confuso, subordinando os afro-asiáticos aos grupos europeus.

O vencedor da zona africana, por exemplo, deveria enfrentar o do Grupo 9 da Europa, enquanto o da asiática deveria medir forças com o do Grupo 10 europeu. Israel, por seu lado, acabou de novo incorporado à Europa, na verdadeira miscelânea que era o Grupo 7 – o único daquela região disputado no formato de mata-mata. Os israelenses enfrentariam o Chipre na fase preliminar. Avançando, pegariam a Etiópia. E, se passassem, decidiriam a vaga na Copa com o vencedor da outra perna, entre Itália e Romênia.

E assim aconteceu: em novembro de 1960, o Chipre foi superado com um empate em Nicósia (1 a 1) e uma goleada de 6 a 1 em Tel Aviv. Já a Etiópia caiu após dois jogos em Israel em março do ano seguinte (1 a 0 em Tel Aviv e 3 a 2 em Haifa). Com a desistência da Romênia, a Itália avançou direto para a decisão da vaga e a conquistou com duas vitórias fáceis: 4 a 2 em Tel Aviv no dia 15 de outubro e 6 a 0 em Turim, em 4 de novembro, com quatro gols do atacante ítalo-argentino Enrique Omar Sivori.

Outra curiosidade sobre aquela campanha israelense é que o time era dirigido pelo húngaro Gyula Mándi, treinador de campo do fabuloso esquadrão magiar entre 1950 e 1956, campeão olímpico em Helsinque 1952 e vice-campeão mundial na Suíça dois anos depois. E entre seu período na seleção de seu país e o ciclo em que comandou o escrete do Estado judeu, Mándi trabalhou no futebol brasileiro como técnico do America do Rio de Janeiro, entre meados de 1957 e o início da temporada 1958.

A entrada da Austrália (1966)

A Fifa voltou a reservar uma vaga para o grupo afro-asiático para 1966, mas decidiu manter Israel na zona europeia, também incluindo nela outra seleção asiática, a Síria, que enfrentaria Espanha e Irlanda. A participação israelense foi bastante discreta, perdendo todas as quatro partidas no Grupo 1 e marcando apenas um gol. Contra a Bélgica, foram derrotados por 1 a 0 em Heysel e goleados por 5 a 0 em Ramat Gan. Já diante da Bulgária, levaram de 4 a 0 em Sófia e caíram por um mais apertado 2 a 1 em casa.

Porém, mais uma vez haveria conflito naquelas Eliminatórias. Os africanos protestaram por terem de disputar uma única vaga em um playoff contra o vencedor da Ásia e ainda contra a readmissão da África do Sul ao quadro da Fifa (mesmo que incluída no grupo asiático) após sua exclusão devido ao regime do apartheid. Em meio a críticas ao não reconhecimento da evolução técnica do continente por parte da entidade internacional e ao alto custo de se realizar o playoff, todas as 15 seleções africanas se retiraram.

E as desistências não ficaram por aí: a Síria também abandonou a disputa em solidariedade aos africanos, enquanto a Coreia do Sul alegou motivos logísticos para abrir mão quando o local dos jogos do grupo asiático foi transferido do Japão para o Camboja. Ao mesmo tempo, a Fifa voltava a excluir a África do Sul, que só seria readmitida com a queda do regime de segregação racial nos anos 1990. Assim, só sobraram duas seleções estreantes para disputarem a vaga solitária que cabia ao “resto do mundo”.

Uma era a Coreia do Norte, que buscava emular o feito da vizinha e rival do Sul, a qual já havia se classificado ao Mundial de 1954. E a outra era a Austrália, primeira seleção da Oceania a participar de uma fase classificatória de Mundial. Para a disputa, os australianos chegaram a – pela primeira vez – trocar o antigo esquema de comitê selecionador por um técnico de verdade: o iugoslavo Tihomir “Tiko” Jelisavčić. Mesmo assim, os Aussies foram presa fácil para os norte-coreanos nos dois jogos em Phnom Penh.

Na primeira partida, disputada no dia 21 de novembro de 1965 no Estádio Nacional Olímpico da capital cambojana, a Coreia do Norte passou por cima da Austrália, goleando por 6 a 1. O único gol dos Socceroos, marcado quando os adversários já haviam anotado quatro, foi de autoria do atacante Ladislav “Les” Scheinflug, um alemão naturalizado australiano que mais tarde dirigiria a seleção. No segundo jogo, três dias depois no mesmo local, nova vitória norte-coreana: 3 a 1, com Scheinflug de novo diminuindo.

Medindo forças (1970-1990)

A Confederação de Futebol da Oceania seria fundada em 1966, mas só obteria a condição plena por parte da Fifa 30 anos depois. Diante disso, seus filiados disputariam as Eliminatórias no grupo asiático ainda por alguns ciclos. Foi o que aconteceu em 1970 quando, pela primeira vez, a Fifa atribuiu vagas separadas para África e Ásia. Curiosamente, aquela edição marcaria a única ocasião em que a Austrália enfrentaria uma seleção africana pela fase de classificação ao Mundial, como veremos em breve.

Ao todo, sete equipes participariam pelo grupo asiático, e três delas tiveram de disputar uma fase preliminar em que uma avançaria à etapa seguinte: num triangular em turno e returno jogado em Seul, a Austrália superou o Japão e a anfitriã Coreia do Sul, contra quem selou sua passagem na última partida, com um empate em 1 a 1. Na etapa seguinte, Israel pegaria Nova Zelândia e Coreia do Norte, enquanto os australianos enfrentariam a Rodésia (atual Zimbábue), remanejada para a zona da Ásia.

Além de trazida para outro grupo para evitar problema semelhante ao provocado anteriormente pela presença da África do Sul, a seleção africana havia sido aceita nas Eliminatórias sob condição de levar a campo um time multirracial, e não formado apenas por brancos como o país fizera até pouco tempo antes. Além disso, ambos os jogos aconteceram em campo neutro – curiosamente na África, em Lourenço Marques (atual Maputo), capital de Moçambique – pois o time da Rodésia não obteve o visto australiano.

Após dois empates em 1 a 1 e 0 a 0 nas duas partidas iniciais, em 23 e 27 de novembro de 1969, um jogo desempate foi realizado no mesmo local e terminou com vitória australiana por 3 a 1, levando os Socceroos à decisão da vaga. Do outro lado, com a desistência dos norte-coreanos (que se recusaram a enfrentar Israel por motivos políticos), coube à seleção do Oriente Médio apenas superar a Nova Zelândia. Os dois confrontos aconteceram em Ramat Gan, e os anfitriões venceram facilmente: 4 a 0 e 2 a 0.

Veio então o primeiro confronto direto da história entre os dois “nômades” de Eliminatórias. Em 4 de dezembro de 1969, em Ramat Gan, Israel venceu por 1 a 0 o confronto de ida, gol do meia Giora Spiegel – que poderia ter ampliado a contagem, mas perdeu um pênalti no segundo tempo. Dez dias depois, em Sydney, os israelenses sairiam na frente no jogo da volta, gol de Mordechai Spiegler a 11 minutos do fim. Os australianos ainda empatariam com John Watkiss, mas o 1 a 1 bastaria para levar Israel à Copa.

Com o aumento do número de inscritos para 15, a Fifa decidiu dividir as Eliminatórias do grupo da Ásia/Oceania para a Copa de 1974 em duas zonas, A e B, com seus respectivos vencedores se cruzando para apontar o único classificado. Em grupos diferentes, desta vez Israel e Austrália não se enfrentaram. A trajetória israelense, aliás, começou um pouco antes, ao vencer o Japão por 2 a 1 numa “partida classificatória” que indicava em qual grupo as duas seleções entrariam. Israel ficaria no Grupo 2 da Zona A.

Na primeira etapa, a classificação veio fácil: com todos os jogos daquela zona realizados na Coreia do Sul, Israel derrotou a Malásia (3 a 0) e a Tailândia (6 a 0) antes de empatar em 0 a 0 com os anfitriões. Na semifinal da zona, voltaram a vencer o Japão, desta vez na prorrogação por 1 a 0, gol de Moshe Onana, o mesmo que marcara os dois gols no confronto anterior com os nipônicos. Na decisão, porém, o time seria derrotado pelos sul-coreanos por 1 a 0, também no tempo extra, com gol de Cha Bum-kun.

A Austrália, por sua vez, ficou no Grupo 2 da Zona B, tendo como adversários a Nova Zelândia, o Iraque e a Indonésia. Apesar de os jogos serem em turno e returno, os Socceroos só não jogaram em casa na estreia, diante dos rivais neozelandeses (empate em 1 a 1 em Auckland). Jogando em Sydney, bateram os iraquianos (3 a 1) e os indonésios (2 a 1), voltando a empatar com a Nova Zelândia em 3 a 3. Em Melbourne, um 0 a 0 com o Iraque deixou ambas as seleções com chance de classificação na última rodada.

A decisão do grupo viria numa rodada dupla no Sydney Sports Ground em 24 de março de 1973: o Iraque sonhou com a classificação ao golear a Nova Zelândia por 4 a 0. Mas a Austrália não teve problemas para bater a Indonésia por 6 a 0 e avançar à final da Zona, na qual enfrentaria o Irã. Os jogos aconteceram em 18 e 24 de agosto de 1973: em Sydney, a Austrália venceu por 3 a 0 e levou boa vantagem para a partida de volta. Em Teerã, os Socceroos perderam por 2 a 0, mas seguiram pelo placar agregado.

Com isso, a decisão da vaga no Mundial colocou frente a frente Austrália e Coreia do Sul. Os dois primeiros jogos terminaram empatados: 0 a 0 em Sydney e 2 a 2 em Seul (no qual os sul-coreanos abriram rapidamente 2 a 0, mas os australianos buscaram o empate com gols de Branko Buljevic e Ray Baartz). Foi necessário então um playoff em Hong Kong em 13 de novembro, três dias após a segunda partida. E um gol de Jimmy Mackay aos 25 minutos da etapa final deu a vitória por 1 a 0 e a vaga na Copa à Austrália.

A Austrália, que havia se desligado da confederação da Oceania em 1972, tentou entrar para a da Ásia, mas não obteve sucesso no congresso da AFC realizado em Teerã em setembro de 1974. O mesmo encontro também aprovaria a exclusão de Israel de todas as competições da entidade, uma proposta feita pelo Kuwait depois que, dias antes, as seleções deste país e a da Coreia do Norte se recusaram a enfrentar os israelenses pelo torneio de futebol dos Jogos Asiáticos, alegando motivos políticos.

Mesmo assim, nas Eliminatórias para o Mundial de 1978 tanto Israel quanto a Austrália seguiram disputando a classificação pelo grupo da Ásia e Oceania. Porém, novamente não se enfrentaram, já que ficaram em diferentes chaves e só os australianos se classificaram à etapa decisiva. Mesmo fazendo três de seus quatro jogos em Ramat Gan (incluindo os dois contra o Japão), Israel acabou eliminado pela Coreia do Sul – contra quem ficou no empate em 0 a 0 em casa e perdeu por 3 a 1 em Seul – no Grupo 2.

Já a Austrália competiu num grupo que voltaria a ser formado em outras edições, ao lado da Nova Zelândia e de Taiwan, remanejado para a zona da Oceania devido ao conflito político com a China. Os dois confrontos entre australianos e taiwaneses, porém, aconteceram em campo neutro, em Suva, capital de Fiji. Os Socceroos venceram ambos (3 a 0 e 2 a 1), antes de também superarem os neozelandeses vencendo por 3 a 1 em Sydney e empatando em 1 a 1 em Auckland, passando à fase decisiva das Eliminatórias.

Esta etapa final, um extenso pentagonal em turno e returno disputado entre junho e dezembro de 1977, foi disputada pelos campeões dos cinco grupos da fase anterior. A Austrália fez, de saída, seus quatro jogos em casa. Mas como acabou derrotada pelo Irã em Melbourne (1 a 0) e também pelo Kuwait em Sydney (2 a 1), perdeu o fôlego e acabou bem longe da disputa, em quarto lugar, só à frente de Hong Kong, lanterna com zero ponto. A campanha dos Socceroos teve três vitórias, um empate e quatro derrotas.

Austrália e Irã se enfrentam em 1977

A Austrália acabaria retornando à confederação da Oceania em 1978, mas o continente e seus filiados continuavam confinados a um grupo das Eliminatórias da Ásia para a Copa de 1982. O Grupo 1 contava, além dos australianos, com Nova Zelândia, Indonésia, Taiwan e Fiji. E dessa vez, diferentemente das edições anteriores, os neozelandeses emergiram como concorrentes sérios já de saída, ao prevalecerem nos duelos com a Austrália com um empate (3 a 3) em Auckland e uma vitória (2 a 0) em Sydney.

Os Socceroos tentaram se recuperar do susto inicial vencendo a Indonésia em Melbourne (2 a 0), Taiwan em Adelaide (3 a 2) e goleando Fiji em Suva (4 a 1). Mas os neozelandeses, com jogos a mais, já abriam frente e ficavam perto da vaga. Em 14 de agosto de 1981, a Austrália ainda tentou demonstrar força ao arrasar Fiji por 10 a 0 em Melbourne. Porém, apenas dois dias depois, a Nova Zelândia impôs um placar ainda maior ao frágil adversário: 13 a 0 em Auckland, maior goleada da história das Eliminatórias até ali.

O resultado avassalador garantiu a passagem dos rivais neozelandeses ao quadrangular final das Eliminatórias, reduzindo os dois últimos jogos da Austrália a meros amistosos. Desinteressados, os Socceroos perderam para a Indonésia em Jacarta por 1 a 0 e se despediram com um empate em 0 a 0 diante de Taiwan na casa do adversário. E no fim, ainda tiveram de assistir à classificação dos Kiwis ao Mundial da Espanha, batendo a China no jogo desempate pela segunda vaga da zona da Ásia/Oceania na competição.

Quando o sorteio dos grupos daquelas Eliminatórias foi realizado, no dia 14 de outubro de 1979 em Zurique, Israel era uma seleção não filiada a nenhuma das confederações continentais desde sua expulsão da AFC, em 1974. E inicialmente não estava incluído em nenhuma das zonas. A nota da revista Placar, publicada na semana seguinte, comentava que “A Fifa ainda não sabe o que fazer com Israel – pode colocá-lo em um grupo europeu para evitar boicote dos árabes”. Foi o que acabou acontecendo.

A seleção passou a figurar no Grupo 6 da Europa, ao lado de Escócia, Suécia, Portugal e Irlanda do Norte. A expectativa era a de que a equipe treinada pelo inglês Jack Mansell cumpriria o papel de fiel da balança, mas já de saída ela mostrou ter outras ideias: na abertura, segurou um 0 a 0 com a Irlanda do Norte em casa. Os dois jogos seguintes seriam contra a Suécia. Em Estocolmo, Gideon “Gidi” Damti marcou a dez minutos do fim provocando um surpreendente 1 a 1. Já em Ramat Gan, outro 0 a 0 prevaleceu.

A primeira derrota viria no último jogo de 1980, um inapelável 3 a 0 para uma seleção de Portugal que alinhava nove jogadores do Benfica entre os titulares no Estádio da Luz. O revés desataria ainda uma sequência ruim, com derrotas nos dois confrontos com a Escócia (1 a 0 em Ramat Gan e 3 a 1 no Hampden Park), quando o fator surpresa inicial parecia ter se dissipado. Mas antes do fim da campanha ainda haveria um último grande momento, no jogo de volta contra Portugal em casa, em 28 de outubro de 1981.

Numa tarde inspirada do atacante Beni Tabak, autor de três gols, Israel humilhou a seleção lusa (que, curiosamente, desta vez só incluía um jogador benfiquista entre os titulares) por 4 a 1 em Ramat Gan. O placar foi concretizado com apenas meia hora de jogo: Portugal escapou de uma goleada histórica, mas não de ser empurrado momentaneamente à lanterna do grupo. Na última rodada, porém, os portugueses bateram a já classificada Escócia por 2 a 1, enquanto Israel perdeu por 1 a 0 para a Irlanda do Norte.

A Oceania passaria a formar uma zona própria nas Eliminatórias para a Copa de 1986, ainda que sem a garantia de uma vaga direta no Mundial. E nela, além da Austrália, seria incluído também Israel, remanejado mais uma vez. A Nova Zelândia e Taiwan (na época também conhecido por Formosa) completavam o grupo, que operava no sistema de quadrangular simples, em turno e returno, ainda que os taiwaneses – os mais fracos do grupo – tivessem que disputar todas as suas partidas como visitantes.

Israel largou na frente, goleando Taiwan por 6 a 0 e 5 a 0 nos dois primeiros jogos do grupo. Mas logo a Austrália estreou e ficou em ótima situação com os resultados obtidos nos três primeiros confrontos diretos contra os outros favoritos à vaga: empatou em 0 a 0 com a Nova Zelândia em Auckland e somou uma vitória em Ramat Gan (2 a 1) e um empate em Melbourne (1 a 1) diante dos israelenses. A vaga na repescagem internacional ficaria bem perto ao também golear Taiwan duas vezes: 7 a 0 e 8 a 0.

Na véspera desse segundo confronto, os neozelandeses derrotaram os israelenses por 3 a 1 em Auckland, praticamente pondo fim às chances da seleção do Oriente Médio. Mas seria mesmo a Austrália quem ficaria com a vaga, ao bater a rival por 2 a 0 em Sydney no dia 3 de novembro de 1985. Uma semana depois, num jogo que se tornou mero amistoso, Israel deu o troco na Nova Zelândia vencendo por 3 a 0 em Ramat Gan, terminando com a segunda colocação daquele grupo pelo saldo de gols.

Vencedora da zona da Oceania, a Austrália enfrentaria a Escócia, segunda colocada do Grupo 7 europeu, pela repescagem intercontinental que valeria a última vaga no Mundial do México. Os escoceses ainda sentiam a perda do técnico Jock Stein, falecido após sofrer um infarto à beira do campo durante um jogo decisivo daquelas Eliminatórias contra o País de Gales em Cardiff. Seu substituto, apontado em caráter emergencial, seria um certo Alex Ferguson, então treinador do Aberdeen, campeão nacional.

McAvennie marca para a Escócia e tira a Austrália da Copa de 86

Ferguson faria sua estreia em jogos competitivos à frente do Tartan Army na primeira partida da repescagem diante dos Socceroos, no dia 20 de novembro de 1985 no Hampden Park. E os donos da casa venceriam por 2 a 0, gols de Davie Cooper, de falta, e do estreante Frank McAvennie. Na volta, no Olympic Park de Melbourne em 4 de dezembro, a Escócia conseguiu segurar o placar de 0 a 0 em jogo movimentado: McAvennie acertou o travessão e o goleiro escocês Jim Leighton fez milagre em cabeçada de Oscar Crino.

Para 1990, o cenário foi bastante semelhante: Israel manteve sua residência provisória na zona da Oceania, que ganhou apenas um novo participante: Fiji. O formato é que mudou: após uma fase preliminar, em que a Nova Zelândia e Austrália eliminaram em mata-matas Taiwan e Fiji, as duas se juntavam aos israelenses no triangular que indicaria o participante da repescagem entre continentes. Austrália e Israel bateram a Nova Zelândia em casa e empataram em 1 a 1 em Ramat Gan, fechando o primeiro turno.

Na segunda metade, porém, a maré começou a virar para o lado de Israel logo de saída, quando os australianos – que lideravam pelo saldo – foram surpreendidos pelos rivais neozelandeses em Auckland, perdendo por 2 a 0. Quando os asiáticos conseguiram segurar um bom empate em 2 a 2 na sua vez de visitar os All Whites, passaram a precisar só de mais um empate com a Austrália em Sydney para vencer o grupo e avançar à repescagem. E ele veio, com o placar de 1 a 1 no dia 16 de abril de 1989.

Colômbia e Israel em 1989

Aquela repescagem também marcou a única vez que os israelenses enfrentaram uma seleção das Américas em Eliminatórias – depois de já terem circulado por todas as demais partes do planeta. O adversário era a Colômbia, campeã do Grupo 3 sul-americano, e que teve de passar por outra etapa por ter sido a vencedora de chave com menos pontos na zona da Conmebol. Os dois jogos aconteceriam em outubro de 1989. O primeiro em Barranquilla no dia 15 e o segundo em Ramat Gan no dia 30 daquele mês.

Assim como a Escócia fizera quatro anos antes, a Colômbia tratou de vencer na ida em casa para segurar a vantagem na volta. O placar final de 1 a 0 no Estádio Metropolitano foi definido com um gol do atacante Albeiro Usuriaga, que havia entrado no intervalo e tabelou com Luis Fajardo antes de superar o goleiro Boni Ginzburg na meta israelense os 28 minutos da etapa final. Já em Ramat Gan, a equipe dirigida por Francisco Maturana conseguiu o empate em 0 a 0 que precisava para retornar à Copa após 28 anos.

Cada um para seu lado (1994 em diante)

Admitido pela Uefa como nação convidada em setembro de 1991 e como membro efetivo a partir de 1994, Israel passou a competir na Europa. Porém nunca avançou sequer à repescagem nas Eliminatórias, ficando quase sempre na terceira ou quarta colocação em seu grupo. A vez em que esteve mais perto disso foi 2006, quando perdeu o segundo lugar para a Suíça pelo saldo de gols numa chave muito equilibrada. Nas demais ocasiões, a seleção israelense sempre terminou no mínimo três pontos atrás da vice-líder da chave.

Ainda assim, a seleção conseguiu permanecer 15 jogos sem ser derrotada em casa, incluindo todo o ciclo das Eliminatórias para as Copas de 1998, 2002 e 2006. Entre as derrotas para a Finlândia por 3 a 1 em 10 de novembro de 1993 e para a Letônia por 1 a 0 no dia 5 de setembro de 2009, ambas em Ramat Gan, os israelenses somaram sete vitórias e oito empates. Entre as seleções que não conseguiram vencer nas visitas ao país no período estão França, Espanha, Rússia, Grécia, Irlanda, Áustria, Bulgária e Suíça (duas vezes).

Fora de casa, o resultado mais célebre aconteceu logo na primeira participação: a vitória de 3 a 2 sobre a França em pleno Parque dos Príncipes em 13 de outubro de 1993. Israel somara apenas dois pontos nos primeiros sete jogos, sofrendo 21 gols. Já os Bleus praticamente se garantiriam na Copa com o empate. Ronen Harazi abriu o placar para os visitantes, mas a França logo virou. Só que Israel reagiu e marcou duas vezes nos sete minutos finais, iniciando a derrocada francesa naquelas Eliminatórias.

França 2×3 Israel em 1993: Harazi comemora o gol

Para 2006, a campanha começou animadora, com Israel segurando o 0 a 0 contra a mesma França em Saint-Denis. Nos jogos seguintes, porém, ainda que não perdesse, a equipe teve quase sempre de correr atrás: no Ramat Gan, venceu o Chipre de virada (2 a 1) e foi buscar um 2 a 2 com a Suíça com dois gols de Yossi Benayoun. Mais adiante, voltou a vencer os cipriotas por 2 a 1, agora em Nicósia, graças a um gol de Avi Nimni a quatro minutos do fim. E o ano de 2005 começaria com quatro empates seguidos.

O primeiro deles, 1 a 1 com a Irlanda no Ramat Gan, também só veio nos estertores da partida, com Abbas Souan igualando no último minuto depois de Clinton Morrison ter aberto a contagem no primeiro tempo. O placar se repetiu em casa no jogo seguinte, contra a França, e novamente no sufoco: Walid Badir, aos 38 do segundo tempo, compensou o gol de David Trezeguet no início da etapa final. Em junho, no jogo da volta contra a Irlanda em Dublin, mais uma vez Israel teve de buscar o 2 a 2 após sair em desvantagem.

A última igualdade da série viria na Basileia, diante da Suíça: 1 a 1, com Alexander Frei abrindo o placar para os locais aos seis minutos e Adoram Keisi empatando aos 20. Restavam então apenas os jogos contra as Ilhas Faroe. Em 7 de setembro, em Thórshavn, a equipe comandada por Avram Grant venceu por 2 a 0. No mesmo dia, em Dublin, a França bateu a Irlanda por 1 a 0 e começou a destravar o grupo. Com os outros resultados, Israel precisaria de uma goleada arrasadora sobre os faroeses para seguir com chances.

Quando Benayoun abriu o placar logo no primeiro minuto, a esperança começou a despontar em Ramat Gan. Mas Israel só conseguiria voltar a balançar as redes aos 46 da etapa final, com Michael Zandberg. Pior: dois minutos depois ainda sofreria o gol do desconto dos visitantes, marcado por Simun Samuelsen. O magro 2 a 1 se tornava insuficiente, uma vez que nem um empate em Dublin entre Irlanda e Suíça (que acabou acontecendo: 0 a 0) levaria os israelenses à repescagem, com saldo de gols bem inferior ao dos suíços.

Antes de fazer sua própria transição, a Austrália seguiu ainda por mais de uma década na zona da Oceania e agora ocupando indiscutivelmente o papel de equipe mais forte da região – o que a colocaria como presença certa na repescagem interzonal. Em 1994, aliás, após já ter enfrentado ao longo da história seleções asiáticas, africanas e europeias, além das de seu próprio grupo, os Socceroos enfim mediriam forças – por duas vezes – com times das Américas, num cruzamento tão intrincado quanto emocionante.

Primeiro, o campeão da Oceania pegaria o segundo da Concacaf, região que só teve uma vaga certa (que ficou com o México) pelo fato de os Estados Unidos, país-sede, não terem disputado a fase de classificação. O vencedor desse playoff avançaria para pegar o segundo do Grupo A sul-americano, que tinha quatro participantes (contra cinco do B) devido à ausência do Chile, excluído daquelas Eliminatórias pela Fifa após o incidente do jogo com o Brasil no Maracanã no torneio qualificatório anterior, em 1989.

Assim, o primeiro adversário dos australianos seria o Canadá, com a primeira partida disputada em 31 de julho de 1993 em Edmonton. Os Socceroos saíram na frente graças um gol contra, mas sofreram a virada e perderam por 2 a 1, tendo de vencer na partida de volta no dia 15 de agosto em Sydney. Frank Farina, de bicicleta, abriu a contagem para os donos da casa. Lyndon Hooper deixou tudo igual para os canadenses, mas Mehmet Durakovic, de cabeça, recolocou a Austrália na frente, devolvendo o placar de 2 a 1.

A igualdade no agregado e nos gols fora de casa levou a decisão para os pênaltis. Nela, brilhou o goleiro australiano Mark Schwarzer, que pegou as cobranças de Alex Bunbury e Mike Sweeney, sendo decisivo na vitória dos donos da casa por 4 a 1. A euforia, porém, durou poucas semanas: logo se soube que o próximo adversário seria não a Colômbia, o Paraguai ou o Peru, mas – surpresa! – a Argentina, relegada a aquela segunda chance após a histórica derrota por 5 a 0 para a Colômbia em Buenos Aires.

Foram dois jogos dramáticos. Em Sydney, em 31 de outubro de 1993, Balbo escorou cruzamento de Maradona (estreando naquela Eliminatória) para abrir o placar, mas Aurelio Vidmar empatou para a Austrália ainda no primeiro tempo, e o 1 a 1 seguiu até o fim. Na volta em Buenos Aires, em 17 de novembro, a Argentina dominou, mas venceu por 1 a 0 com um gol chorado, num chute sem ângulo de Gabriel Batistuta que desviou em Alex Tobin e encobriu o arqueiro Robert Zabica, levando a Albiceleste ao Mundial.

O Austrália x Argentina para a Copa de 1994

Mesmo com a expansão da Copa do Mundo para um torneio com 32 equipes em 1998, a zona da Oceania seguiu sem ter direito a vaga direta na competição. Sendo assim, a Austrália, que passou com extrema facilidade em seu grupo, chegando a aplicar históricos 13 a 0 nas Ilhas Salomão e a impor um placar agregado de 5 a 0 à Nova Zelândia na decisão, precisou enfrentar o perdedor de um confronto entre os segundos colocados dos dois grupos decisivos da Ásia – e acabou sendo o Irã, derrotado pelo Japão.

No primeiro jogo, em Teerã, a Austrália saiu na frente com Harry Kewell, mas sofreu o empate com Khodadad Azizi e ficou no 1 a 1, um bom resultado para a volta. A vaga ficou ainda mais perto quando de novo Kewell e Tony Vidmar abriram 2 a 0 na segunda partida em Melbourne, no dia 29 de novembro de 1997. O sonho, porém, começou a ruir quando Karim Bagheri descontou aos 30 minutos da etapa final, antes de Azizi tornar a empatar a quatro minutos do fim. O 2 a 2 levou o Irã à Copa pelos gols fora de casa.

Em 2002 e 2006, coube aos australianos, hegemônicos na Oceania, enfrentar o quinto colocado do grupo da América do Sul, disputado em pontos corridos. E nas duas vezes, essa equipe foi o Uruguai. Em cada caso, porém, a ordem dos jogos foi diferente, o que acabou sem dúvida tendo certa influência no classificado. Assim, em 2002, a vitória australiana por 1 a 0 em Sydney, gol de Kevin Muscat de pênalti, foi revertida cinco dias depois em Montevidéu, com Darío Silva e Richard Morales (dois) marcando nos 3 a 0.

Já em 2006, enfim, os australianos conseguiriam acabar com a série de pesadelos em repescagens que tanto os haviam assombrado em edições anteriores. A vitória da Celeste em Montevidéu com gol de Darío Rodriguez foi anulada na volta por outro 1 a 0, agora a favor da Austrália, com Mark Bresciano balançando as redes. Na decisão nos pênaltis, o goleiro Mark Schwarzer voltou a ser o herói, pegando as cobranças do próprio Darío Rodríguez e de Marcelo Zalayeta para conduzir os Socceroos à Copa após 32 anos.

A comemoração da Austrália em 2006

Por ironia, no mesmo instante em que se preparava para retornar a um Mundial após ter vencido o grupo da Oceania e a repescagem interzonal, a Austrália também formalizava sua migração de confederação para a da Ásia, buscando um nível mais alto de competitividade. Após um período de conversas, o convite da AFC chegou em março de 2005 e a mudança foi aprovada pela Fifa em junho, sendo levada a efeito em 1º de janeiro de 2006. No ciclo seguinte, os Socceroos estreariam nas Eliminatórias asiáticas.

Logo de cara houve controvérsia: entrando apenas na terceira fase no torneio classificatório para o Mundial de 2010, os australianos receberam da AFC o privilégio de serem um dos cinco cabeças de chave no sorteio dos grupos daquela etapa, o que se repetiria no de quatro anos mais tarde. Ambas as Eliminatórias tiveram formato parecido, com duas fases prévias em mata-mata e duas de grupos – uma com cinco chaves de quatro equipes e outra com duas de cinco, com dois times de cada avançando direto à Copa.

Na primeira, após superar uma tumultuada chave com Qatar, Iraque e China, a Austrália avançou para carimbar sua classificação com extrema facilidade no Grupo A da quarta fase, que incluía Japão, Qatar, Bahrein e Uzbequistão. Foram seis vitórias e dois empates em oito jogos, levando a melhor em todas as partidas em casa, marcando 12 gols e sofrendo apenas um, números que a colocaram na liderança com 20 pontos ganhos, cinco a mais que o Japão e o dobro do Bahrein, terceiro, que foi à repescagem.

Já em 2014 foi o oposto: depois de passear no Grupo D da terceira fase, com cinco vitórias e uma derrota em seis jogos contra Omã, Arábia Saudita e Tailândia, a vaga na Copa veio como segunda colocada do Grupo B da quarta fase graças a uma arrancada final, com vitórias em casa diante da Jordânia (4 a 0) e do Iraque (1 a 0), superando os próprios jordanianos (que tiveram de disputar a repescagem zonal com o Uzbequistão e, a seguir, a interzonal contra o Uruguai) e Omã, ficando quatro pontos atrás do Japão.

A Fifa e a AFC modificaram o formato das Eliminatórias asiáticas para 2018, já que elas também serviriam – nas duas primeiras etapas – de classificatórias para a Copa da Ásia de 2019. Agora só haveria uma fase preliminar em mata-mata, que seguia para uma fase de grupos com oito chaves de cinco seleções. Nessas, as duas melhores passariam à etapa decisiva – esta, com dois grupos de seis equipes, nos quais, como antes, as duas primeiras se classificavam à Copa e as terceiras se enfrentariam na repescagem.

No Grupo B da fase decisiva, os australianos teriam a companhia de Japão, Arábia Saudita, Iraque, Emirados Árabes Unidos e Tailândia. E, com duas boas vitórias, largou na frente acompanhada pelos sauditas. Uma sequência de quatro empates, porém, foi atravancando a caminhada dos Socceroos, que após a primeira rodada do returno já se viam na terceira colocação, a três pontos de Japão e Arábia Saudita. Vitórias em casa sobre Iraque e Arábia, em briga direta, devolveram os australianos ao páreo.

Faltando duas rodadas para o fim, era a vez de visitar o Japão em Saitama. Os nipônicos venceram por 2 a 0 e se garantiram matematicamente na Copa. Para a Austrália, o resultado só não foi pior porque a Arábia também perdeu para os Emirados fora de casa. Na última rodada, ambas tinham 16 pontos, três a mais que os Emirados, ainda com chances remotas. Em casa, os Socceroos receberiam a lanterna Tailândia e a Arábia pegaria o Japão. Já os Emirados pegariam o Iraque no campo neutro de Amã, Jordânia.

As chances dos Emirados terminariam com a derrota para o Iraque por 1 a 0, mesmo placar da vitória da Arábia sobre um desinteressado Japão. Assim, restava à Austrália vencer a fraca seleção da Tailândia por três gols de diferença em Melbourne. Porém, os Socceroos levaram 69 minutos para abrir o placar. E, pior: a oito minutos do fim, levaram o empate. A magra vitória por 2 a 1 só veio quatro minutos depois, evitando um vexame histórico. Mas não a perspectiva de disputar a repescagem contra a Síria.

No jogo de ida do confronto entre os terceiros colocados, disputado em 5 de outubro de 2017 na Malásia, a Austrália saiu na frente, mas sofreu o empate a cinco minutos do fim com um gol de pênalti. Já no jogo de volta em Sydney, cinco dias depois, o meia e capitão Tim Cahill foi o herói da vitória de virada por 2 a 1 na prorrogação ao marcar os dois gols, depois que os sírios haviam aberto a contagem logo aos seis minutos de jogo com Omar Al Somah. A próxima parada seria a repescagem interzonal.

Tim Cahill comemora contra a Síria em 2017

O adversário seria Honduras, que havia perdido a terceira vaga direta da Concacaf para o Panamá mesmo vencendo o México por 3 a 2 na última rodada: os panamenhos derrotaram a Costa Rica por 2 a 1 com um gol de Roman Torres a dois minutos do fim e se garantiram no Mundial. Os centro-americanos teriam mais a lamentar: a Austrália segurou um 0 a 0 em San Pedro Sula no jogo de ida e venceu fácil por 3 a 1 em Sydney na volta, com três gols de Mile Jedinak – Alberth Elis diminuiu já nos acréscimos.

Nas atuais Eliminatórias, a Austrália iniciou sua trajetória de maneira impecável, com 100% de aproveitamento na primeira fase de grupos enfrentando Kuwait, Jordânia, Nepal e Taiwan. Porém na etapa seguinte, a campanha foi mais irregular. Tropeços, como os empates fora de casa com Omã e China, e maus resultados em confrontos diretos (duas derrotas para o Japão e um empate em casa com a Arábia Saudita) já jogaram os Socceroos para a repescagem continental com uma rodada de antecedência.

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Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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