Ásia/Oceania

Há 15 anos, a Austrália vivia uma noite inesquecível, ao derrotar o Uruguai nos pênaltis e voltar a uma Copa após três décadas

Houve um tempo em que a Austrália não batia cartão em Copas do Mundo. Enquanto compuseram a OFC, os australianos conquistaram a vaga no Mundial em apenas duas oportunidades. A primeira delas aconteceu em 1974, superando também concorrentes asiáticos para chegar à Alemanha Ocidental. Foram 32 anos de espera, até que os Socceroos repetissem o feito. E num momento em que a federação já alinhava sua mudança à AFC, os australianos foram capazes de eliminar o Uruguai na repescagem para de novo disputar uma Copa do Mundo na Alemanha. Em 16 de novembro de 2005, há exatos 15 anos, Mark Schwarzer se agigantou nos pênaltis e recolocou a Austrália no mapa da bola rumo ao Mundial de 2006.

A Austrália tinha uma longa história de frustrações em repescagens. Foram quatro vezes nas quais os Socceroos chegaram a um mata-mata valendo vaga na Copa e acabaram perdendo a classificação. Em 1985, os australianos sucumbiram diante da Escócia. Chegaram perto de novo em 1993, mas não tiveram forças para peitar a Argentina. Em 1997, o trauma ocorreu diante do Irã, com um empate que classificou os persas em Melbourne. Já em 2001, ocorreu o primeiro embate contra o Uruguai, em que a vitória australiana por 1 a 0 em Melbourne foi revertida pelo inapelável triunfo charrua por 3 a 0 no Centenario.

Quatro anos depois, a Austrália tinha recorrido aos serviços de Guus Hiddink para tentar se classificar à Copa do Mundo, após o sucesso do treinador à frente da Coreia do Sul em 2002. Os Socceroos contavam com vários remanescentes das eliminações anteriores, sobretudo jogadores com rodagem nas grandes ligas europeias. A defesa tinha a segurança de Mark Schwarzer no gol, além da presença de Tony Vidmar e Lucas Neill. O meio reunia boas opções como Brett Emerton, Tim Cahill, Mark Bresciano e Harry Kewell. Já na frente, a responsabilidade recaía sobretudo nas costas de Mark Viduka, capitão da equipe. Era uma equipe talentosa.

Dirigido por Jorge Fossati, o Uruguai possuía uma equipe de transição. Via símbolos de um período anterior da Celeste, como Álvaro Recoba e Paolo Montero, reunidos com Diego Lugano e Diego Forlán, duas lideranças no renascimento que ocorreria depois, sob as ordens de Óscar Tabárez. E aquela queda na repescagem, afinal, teve grande influência nas transformações que se desencadeariam com os charruas. Ainda assim, a equipe esteve próxima de conquistar a classificação à Copa de 2006, após terminar as Eliminatórias Sul-Americanas na quinta colocação.

A torcida da Austrália marcou presença no Centenário (Robert Cianflone/Getty Images/One Football)

Diferentemente do que aconteceu em 2001, a primeira partida se deu em Montevidéu. E o Uruguai cumpriu sua parte no Estádio Centenário, diante de 55 mil espectadores, ao conquistar a vitória por 1 a 0. Depois de passar os dias anteriores ao confronto concentrada e treinando em Buenos Aires, a Austrália começou bem. Os visitantes levaram perigo no início da partida e Viduka exigiu uma ótima defesa de Fabián Carini, em pancada cobrando falta. Todavia, foi uma bola parada do outro lado que permitiu o triunfo uruguaio. Aos 37 minutos, Recoba cruzou e Darío Rodríguez completou no segundo pau. Durante o segundo tempo, os sul-americanos tiveram as melhores chances para ampliar, mas sem finalizar com tanta qualidade para superar Schwarzer. O pesar ficava por conta de Forlán, que não estava em suas melhores condições físicas e precisou ser substituído ainda na primeira etapa, virando desfalque à volta.

O segundo duelo aconteceu apenas quatro dias depois. A logística das equipes, aliás, faria a diferença. A Austrália saiu do Centenário direto ao aeroporto. Patrocinadora oficial da seleção, a Qantas ofereceu um avião fretado com bicicletas ergométricas e camas de massagem para os jogadores, enquanto a federação preparou um cronograma especial para regular o sono. Já o Uruguai não conseguiu um avião fretado e até adiantou o horário do jogo em Montevidéu, para ter tempo de pegar uma linha comercial à Oceania. Alguns jogadores, incluindo o grandalhão Richard Morales, precisaram voar na classe econômica.

Desta vez, o Estádio Olímpico de Sydney foi escolhido como casa da Austrália. Mais de 82 mil pessoas estiveram presentes na partida, que poderia marcar a história do futebol na Austrália. Faziam um barulho imenso, sobretudo no hino nacional. E a resposta dos Socceroos veio em campo, com a vitória por 1 a 0. O Uruguai ameaçava e, com meia hora de jogo, Guus Hiddink resolveu mandar o time para frente, ao promover a entrada de Kewell no lugar do zagueiro Tony Popovic – que já tinha tomado um amarelo, por deixar o braço em Recoba. O gol decisivo aconteceu aos 35, numa linda trama pela esquerda. Kewell furou o chute, mas a sobra ficou com Bresciano, que bateu firme no alto da meta de Carini.

Na volta ao segundo tempo, Richard Morales chegou a desperdiçar uma cabeçada totalmente livre na área australiana. Em compensação, os Socceroos eram melhores e forçavam mais pelo segundo gol, com Carini realizando uma defesa importante diante de Kewell. A diferença mínima prevaleceu no tempo normal e se seguiu na prorrogação, sem tantas emoções. A Austrália seguiu superior, mas o Uruguai poderia ter evitado os pênaltis já no fim do segundo tempo extra, quando um tiro cruzado de Morales levou muito perigo. Porém, seria mesmo na marca da cal que as duas seleções definiriam seus destinos rumo à Copa de 2006.

Schwarzer pega o pênalti de Zalayeta (Adam Pretty/Getty Images/One Football)

Schwarzer, então dono da meta no Middlesbrough e com longa experiência na seleção, quase foi substituído no fim da prorrogação. Guus Hiddink mandou ao aquecimento o “especialista em pênaltis” Zeljko Kalac, mais alto que o titular, mas o goleiro reserva não entrou porque Emerton sofreu câimbras e precisou deixar o campo. O camisa 1, então, seria decisivo. Depois de Kewell converter pela Austrália, Schwarzer pegou a primeira cobrança do Uruguai, de Darío Rodríguez.

Na sequência, os times acertaram o pé. Neill, Gustavo Varela, Vidmar e Fabián Estoyanoff fizeram. Viduka poderia ter praticamente definido a classificação australiana no quarto tiro, mas justo o capitão perdeu, num chute para fora quando tentou superar Carini. No entanto, a noite seria mesmo de Schwarzer. Logo na sequência, Marcelo Zalayeta buscou o alto e o camisa 1 se esticou para espalmar a bola. Assim, coube a John Aloisi converter a última batida dos Socceroos e confirmar a vitória por 4 a 2, que encerrou uma espera de 32 anos no país.

A comemoração dimensiona bem o tamanho da paixão dos australianos por futebol, com um ambiente bastante vibrante em Sydney. Iniciada três meses antes, a A-League aproveitou o momento para se impulsionar. E a vitória ainda teve um sabor especial, ao homenagear Johnny Warren. Camisa 9 da Austrália na Copa de 1974, o ex-atacante foi um dos grandes incentivadores do esporte no país. Não viveu o suficiente para ver a nova classificação ao Mundial, falecido exatamente um ano e um dia antes. Nas arquibancadas, faixas mencionavam seu nome e prestavam tributo ao ‘Captain Socceroo’.

A Austrália faria um papel digno na Copa de 2006. Após bater o Japão por 3 a 1 na estreia (na primeira vitória do país em Mundiais) e perder para o Brasil por 2 a 0 na segunda rodada, o time assegurou a classificação ao segurar o empate por 2 a 2 contra a Croácia. Os australianos seriam eliminados nas oitavas de final, contra a futura campeã Itália, vendendo caro a derrota por 1 a 0 – com um gol de pênalti de Francesco Totti nos acréscimos do segundo tempo, após falta inexistente cavada por Fabio Grosso. Desde então, ver a Austrália no Mundial deixou de ser uma surpresa e o time se classificou em todas as três tentativas pela AFC, encarando a repescagem apenas em 2018. Aquela noite especial de 2005 marcou o início de uma nova era à seleção, bem como consagrou a geração dourada do futebol local.

A simbiose entre time e torcida em Sydney (TORSTEN BLACKWOOD/AFP via Getty Images/One Football)

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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