Eurocopa

Bale ofereceu um grande show na fase de grupos, mas se despede da Euro sem ser mais aquele craque para carregar Gales

A classificação da Gales aos mata-matas tem muito a ver com a exibição de Bale contra a Turquia, mas ele não seria suficiente para evitar a goleada da Dinamarca

Gareth Bale se despede da Eurocopa com uma das melhores atuações individuais do torneio. A vitória sobre a Turquia na segunda rodada, tão importante à classificação de Gales, viu uma das melhores versões do meia. O camisa 11 dominou o meio-campo e criou inúmeras oportunidades aos companheiros, que possibilitaram o triunfo por 2 a 0. Aquele show, porém, seria mais o canto do cisne que o renascimento. Às vésperas de completar 32 anos, está claro como Bale não é mais aquele cara para carregar a seleção galesa nas costas como em 2016. E sua despedida da Euro 2020 seria melancólica, com a derrota por 4 a 0 sobre a Dinamarca, em que o capitão pouco produziria sem uma equipe que o ajudasse.

Bale tem um lugar gigante na história da seleção de Gales. O meia, afinal, encerrou o jejum de 58 anos sem o país na fase final de uma grande competição. Os galeses tiveram grandes jogadores neste intervalo – Ian Rush, Mark Hughes e Ryan Giggs, para ficar nos mais vitoriosos. Nenhum deles, todavia, seria capaz de encerrar o hiato. A ampliação da Eurocopa pode ter providenciado uma ajudinha, mas isso não nega os méritos de Bale por alcançar o que outros tantos craques não tinham conseguido. O meia seria preponderante nas eliminatórias, com sete gols que tiveram muito peso à classificação. E seria fantástico também na fase decisiva da Euro 2016. Marcou três gols, protagonizou grandes atuações e liderou sua nação a uma surpreendente semifinal.

Aquele Bale arrasador ainda seria visto por algum tempo no Real Madrid. Mais precisamente, até 2018, quando o craque pareceu farto do futebol após arrebentar o Liverpool na final da Champions. A partir de então, sua carreira por clubes viu mais o descompromisso e o rendimento abaixo de seu potencial, mesmo que esta volta ao Tottenham tenha guardado lampejos. Por Gales, pelo contrário, o capitão seguia dando seu máximo e elevando o patamar da equipe. Mas, sem manter a forma ao longo da temporada, já não dava mais para esperar aquela locomotiva de outros tempos também a serviço dos galeses. Lesionado nas Eliminatórias para a Copa de 2018, ao menos seria de novo importante para recolocar sua seleção na Euro 2020.

Gales de 2020 não é um time tão bom quanto o de 2016. A aposentadoria de Ashley Williams tem seu peso, assim como os protagonistas caíram de nível, inclusive Bale. Atrapalharam também as questões extracampo, com Ryan Giggs interrompendo seu trabalho de treinador por denúncias de agressão. Avançar no Grupo A poderia ser considerado uma surpresa e, no fim das contas, o resultado saiu melhor que a encomenda. Contra a Suíça, os galeses jogaram para o gasto e o empate por 1 a 1 saiu como lucro. Assim, a classificação acabaria decidida contra a Turquia. Foi quando Bale chamou o jogo para si.

Na estreia, Bale tinha deixado claro que não tinha o fôlego de outros tempos. Não era mais aquele ponta possante que ganhava de qualquer adversário na corrida. Porém, mantinha-se como um jogador acima da média e faria um papel excepcional como armador. Não se cansou de deixar seus companheiros na cara do gol e Aaron Ramsey, principalmente, não colaborava. O principal sócio na seleção se redimiria com um golaço servido por Bale, antes que o capitão desse também a assistência para o tento que fechou o placar em 2 a 0. Aquela partida apresentava um novo estilo de jogo a Bale, que parecia ser até capaz de se reinventar. Todavia, se tornou uma mera exceção dentro do torneio.

Bale não conseguiu aparecer diante da Itália, num jogo em que a preocupação de Gales era evitar a goleada para não botar em risco a segunda colocação. Até veria uma chance no segundo tempo, mas desperdiçou. Já diante da Dinamarca, um Bale fora da melhor forma seria pouco para os galeses ambicionarem a classificação. Os adversários não tinham apenas uma equipe coletivamente mais forte, mas também mais valores individuais, e isso transpareceu com o passar dos minutos. O camisa 11 até buscou o jogo em alguns momentos e teria suas tentativas, mas pouco produziria para mudar os rumos do duelo. Até executou um chute perigoso para fora no primeiro tempo, mas basicamente ficou nisso. Seus passes não tinham continuidade e até laterais longos forçados em direção à área bateu, sem sucesso.

As imagens de Bale nessa despedida de Gales na Euro 2020 ficam para dois momentos em que a bola não estava rolando. Primeiro, pela a homenagem realizada a Christian Eriksen, com uma camisa galesa entregue ao capitão Simon Kjaer. Depois, pelo seu discurso aos companheiros na saída de campo após a eliminação. O capitão era o centro das atenções no meio da roda e falava como um líder, digno do que representa e do que ainda busca pela equipe nacional. Mas sem o auge de outrora.

Nas últimas semanas, surgiram muitos rumores sobre a aposentadoria de Bale após a Eurocopa. Ainda não se sabe o que ele fará. As chances de que essa seja sua última aparição por uma grande competição, de qualquer maneira, parecem razoáveis. A renovação do elenco galês não anima tanto e, pelo menos rumo à Copa de 2022, a missão será difícil numa chave contra Bélgica e República Tcheca. Com todas as limitações, Bale conseguiu produzir uma vitória marcante ao seu país na Euro 2020. Mas esta parece a prova definitiva de que já não dá para contar mais com aquele cracaço do passado.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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