Eurocopa

Assistente em 2004, Silhavy conduziu uma digna campanha da Tchéquia e sai como um dos melhores técnicos desta Euro

Silhavy criou uma equipe competitiva, mesmo com suas limitações, e mostrou bons recursos nos mata-matas

A República Tcheca saiu da Euro 2020 com um saldo bem melhor do que o esperado. Muitos poderiam duvidar que os tchecos conseguiriam passar aos mata-matas. Não só avançaram às oitavas, como também eliminaram a Holanda / Países Baixos nesta caminhada. E se os tchecos sucumbiram diante da Dinamarca nas quartas de final, ainda assim fizeram um bom jogo em Baku. A superioridade técnica dos escandinavos e mesmo os dois gols de vantagem não intimidaram a Tchéquia. A equipe pressionou durante boa parte do segundo tempo e não surpreenderia caso forçasse a prorrogação. Principal responsável pelo bom trabalho dos tchecos, o técnico Jaroslav Silhavy merece ser exaltado. Mesmo sem contar com grandes astros, o comandante montou uma equipe segura e competitiva, que cresceu em momentos de pressão. Sai do torneio como um dos melhores treinadores desta Eurocopa.

A história de Silhavy na seleção não se limita à atual passagem como treinador. O antigo defensor do Slavia Praga também vestiu as cores da equipe da Tchecoslováquia. Disputou apenas quatro jogos entre 1990 e 1991, sem figurar na Copa do Mundo no período, quando o país realizou uma boa campanha até as quartas de final. Apesar das raras convocações, Silhavy construiu uma trajetória de respeito como jogador e estabeleceu o recorde de partidas pelo Campeonato Tcheco / Tchecoslovaco. Porém, sua fama se superou ao assumir o posto de treinador ao pendurar as chuteiras. Começaria como assistente do Viktoria Zivkov, onde se aposentou, e depois seria assistente do Sparta Praga a partir de 2002. Isso antes de dar um salto rumo à seleção em 2003.

Silhavy seria escolhido por Karel Brückner, seu antigo treinador, para se tornar assistente na seleção da República Tcheca. A equipe nacional vinha de uma frustrante campanha nas Eliminatórias para a Copa de 2002, quando caiu na repescagem. Comandante de uma promissora seleção sub-21, Brückner tinha a missão de acelerar a transição desses talentos sem desperdiçar os veteranos da geração vice-campeã da Euro 1996. Deu liga. Enquanto o técnico principal iniciava uma modernização tática, o assistente analisava os oponentes e planejava os treinamentos. Os tchecos viveram seu grande momento na Euro 2004. Silhavy era exatamente um dos ajudantes na marcante campanha até as semifinais continentais, quando o time perdeu para a Grécia na prorrogação, mas acabou reconhecido como o melhor futebol do torneio. O moral da seleção estava alto.

A República Tcheca não repetiria aquele impacto, embora tenha se classificado à Copa de 2006. Silhavy permaneceu como assistente de Brückner até 2008, quando os tchecos não passaram da fase de grupos da Eurocopa. Também trabalhou ao lado de Petr Rada até o início de 2009, quando começou a dar seus próprios passos como técnico. Ainda como auxiliar na seleção, Silhavy chegou a ter passagens curtas à frente de Kladno e Viktoria Plzen. Seu primeiro trabalho mais longo ocorreu no Ceske Budejovice. À frente de um clube modesto, faria duas temporadas de meio de tabela no Campeonato Tcheco. Acabou demitido por ser “pouco durão para o cargo”, segundo a diretoria. Em contrapartida, tinha indicado capacidade suficiente para assumir o Slovan Liberec, uma das equipes mais importantes do país.

Silhavy ganhou fama logo na primeira temporada com o Slovan Liberec, quando conquistou o Campeonato Tcheco de 2011/12. Numa equipe liderada pelo veterano Jiri Stajner e pelo ascendente Theodor Gebre Selassie, os alviazuis superaram Viktoria Plzen e Sparta Praga numa apertada disputa. O clube não manteria os títulos, mas Silhavy liderou o Liberec aos mata-matas da Liga Europa em 2013/14. Era uma equipe onde o jovem Vladimir Coufal despontava na lateral direita.

Em 2014, Silhavy deixou o Slovan Liberec e assumiu o Jablonec. Ficaria pouco mais de um ano, tempo suficiente para figurar entre os três primeiros da liga e ser vice-campeão da Copa da República Tcheca. E depois de uma breve passagem pelo tradicional Dukla Praga, Silhavy seria contratado pelo Slavia Praga em 2016. O retorno à sua antiga equipe seria exatamente o passo que o credenciaria à seleção. Naquele momento, os alvirrubros já recebiam investimentos chineses e se tornavam bastante competitivos. O treinador então liderou a conquista do Campeonato Tcheco em 2016/17, encerrando um jejum de nove anos no clube – e, mais significativo, depois de um período no qual a instituição esteve ameaçada pela falência.

Aquela equipe do Slavia Praga se refletiria na atual seleção da República Tcheca. Nomes como o lateral Jan Boril, o volante Tomas Soucek e o meia Antonin Barak começavam a despontar naquele momento – além do goleiro Jiri Pavlenka, que seria o titular na Euro 2020 se não fosse cortado por lesão. Ainda que nem todos surgissem como protagonistas, Silhavy moldava ali uma base que daria mais frutos ao próprio Slavia. O treinador deixaria o cargo em dezembro de 2017, após cair na fase de grupos da Liga Europa. De qualquer maneira, havia iniciado uma ascensão que se consolidou com Jindrich Trpisovsky, seu sucessor e que iniciou a atual hegemonia do Slavia, tricampeão nacional.

Silhavy não ficaria tanto tempo sem emprego. O treinador assumiu a seleção da República Tcheca em setembro de 2018. Pegou uma equipe que até conseguiu disputar a Euro 2016, mas não intimidava muita gente e vinha de uma série de resultados ruins, incluindo uma goleada da Rússia por 5 a 1 que culminou na demissão de Karel Jarolim. Mesmo sem contar com uma base tão brilhante assim, Silhavy transformou a percepção ao redor da Tchéquia. Depois de um início ainda duro, que incluiu uma goleada da Inglaterra por 5 a 0, os resultados claramente melhoraram. O time se classificou à Euro 2020 na segunda colocação do grupo, dando o troco contra a própria Inglaterra por 2 a 1, e também descolou o acesso à primeira divisão na Liga das Nações 2020/21. Já na Data Fifa de março, durante o início das Eliminatórias da Copa, o empate contra a Bélgica foi o ponto alto.

Apesar da evolução da República Tcheca, a equipe ainda não recebia tantas atenções antes da Eurocopa. E não faria uma fase de grupos tão impressionante assim. Foi um time seguro e com seus mecanismos, especialmente pela velocidade nas transições e também por capacidade no passe. A boa forma de Patrik Schick também impulsionou a campanha dos tchecos até as oitavas de final. De qualquer maneira, a seleção passou longe de encantar. Mas foi a partir de então que Silhavy realmente apresentou o valor de seu trabalho. O treinador soube aproveitar o futebol de muitos velhos conhecidos, como Coufal e Soucek, enquanto manteve uma base centrada em cima do sucesso do Slavia Praga.

Tão importante quanto a reconstrução em campo foi a condução fora dele. Silhavy mantém uma relação próxima com os jogadores e também bastante serena, embora exigindo trabalho duro. Isso contrastou com o antecessor Karel Jarolim, bem mais disciplinador, e contribuiu à união do grupo. O técnico é elogiado por sua franqueza e pela clareza com a qual se comunica com os atletas. Se o caráter era uma das virtudes elogiadas por Karel Brückner quando o escolheu como capitão e assistente depois disso, tal predicado também transparece no atual trabalho.

A República Tcheca conquistou a classificação sobre a Holanda com uma atuação segura. É verdade que o resultado dependeria de lances pontuais, entre o gol perdido de Donyell Malen e a expulsão de Matthijs de Ligt. Ainda assim, os tchecos fizeram uma exibição defensiva sólida quando estava 11 contra 11 e depois não deram mais chances à Oranje. Com um homem a mais, a Tchéquia partiu para cima e construiu a vitória forçando os erros dos adversários. Depois, não deu qualquer brecha à reação para abrir o placar em 2 a 0.

Neste sábado, por sua vez, a República Tcheca começou desligada na defesa. Tomou o primeiro gol e só então saiu mais para o ataque, mas sem dar tanto trabalho a Kasper Schmeichel. O segundo gol pouco antes do intervalo parecia enterrar de vez as chances do time. A reviravolta aconteceu no segundo tempo. E ali se viu o dedo do treinador. Silhavy promoveu mudanças e a Tchéquia realizou uma blitz que valeu seu gol. Embora exposto aos contragolpes e perdendo o fôlego nos minutos finais, o time não deixou de buscar o empate e parou em boas defesas de Schmeichel. Deixou a Eurocopa, mas caiu lutando.

Esta República Tcheca não será exaltada como a de 2004, mas merece ser lembrada como uma equipe digna. Tem claras limitações e poucos jogadores realmente acima da média – Coufal realizou um excelente torneio na lateral direita, assim como Schick mereceu o estrelato por seu golaço na estreia. E se não foi o time mais inventivo, não deixou de apresentar recursos. Foi seguro de si, tinha suas jogadas e sentiu bem a temperatura dos jogos. Não à toa, derrubou a Holanda quando teve chance e equilibrou um duelo que parecia muito difícil contra a Dinamarca – que também possui mais refinamento. O saldo é positivo.

Aos 59 anos, Silhavy dificilmente dirigirá algum clube nos grandes centros da Europa. Em compensação, mostrou capacidade para conduzir a República Tcheca a bons momentos na Eurocopa. Deve seguir em frente na missão e terá uma oportunidade de tentar classificar o país de volta a uma Copa do Mundo após 16 anos. Quem sabe, para deixar uma impressão melhor do que a vista em 2006, quando presenciou a decepção na Alemanha bem de perto. Agora o comando está em suas mãos para escrever uma nova história.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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