Eurocopa

Apesar da goleada no adeus, Shevchenko conseguiu se tornar maior ao futebol da Ucrânia nesta Euro

Depois de tudo que representou à Ucrânia em campo, Shevchenko levaria o país à sua melhor campanha em Eurocopas

Parecia impossível Andriy Shevchenko se tornar maior ao futebol da Ucrânia. O craque elevou a bandeira do país a patamares que demorarão a ser repetidos. Conquistou a Bola de Ouro. Venceu a Champions com o Milan e também protagonizou históricas campanhas com o Dynamo Kiev. Levou os ucranianos pela primeira vez a uma Copa do Mundo e garantiu a primeira vitória da seleção numa Eurocopa. E se os grandes jogadores muitas vezes não se transformam em grandes técnicos, Sheva continuou fazendo muito pela Ucrânia. A trajetória na Euro 2020 não termina feliz, com a goleada da Inglaterra por 4 a 0 em Roma. Mesmo assim, a melhor campanha auriazul no torneio continental fica gravada. Eleva um pouco mais a adoração por Shevchenko, agora de terno à beira do campo.

Shevchenko foi o principal responsável por colocar a Ucrânia no mapa do futebol de seleções. O atacante insaciável liderou os grandes momentos do país a partir de sua independência. Foram 17 anos na seleção principal, com 111 partidas e 48 gols. A principal missão de Sheva acabou cumprida em 2006, quando o craque levou os ucranianos para a sua inédita Copa do Mundo. O artilheiro marcou gols importantes e abrilhantou a trajetória da equipe que alcançou as quartas de final, uma campanha acima do esperado. E o Mundial da Alemanha basicamente marca um antes e um depois para o camisa 7. Vendido ao Chelsea, ele não emplacou na Premier League e veria sua carreira degringolar a partir de então.

O retorno de Shevchenko a uma competição internacional aconteceu em 2012, na Eurocopa realizada pela Ucrânia em conjunto com a Polônia. O atacante de 35 anos estava em fim de carreira, de volta ao Dynamo Kiev, mas ainda era o protagonista da equipe nacional. A seleção não teve vida longa no torneio, eliminada na fase de grupos, mas a única vitória saiu na conta de Sheva. O grand finale da carreira do capitão ocorreu diante da Suécia, numa virada por 2 a 1 em que ele anotou os dois gols. Logo após o torneio, o artilheiro anunciou que deixaria o futebol para se dedicar à carreira política.

Apesar da fama, Shevchenko fracassou nas urnas. Permaneceria fora da vida pública até iniciar sua trajetória como treinador em 2015. Naquele momento, mesmo classificada para a Euro 2016, a Ucrânia viu o contrato do técnico Mykhaylo Fomenko se encerrar. O presidente da federação, compadre de Sheva, considerou botá-lo no lugar. Diante das críticas públicas por conta da falta de experiência de Shevchenko, Fomenko renovaria seu vínculo para a Eurocopa e o velho craque seria o assistente. Isso não evitou uma campanha desastrosa dos ucranianos, que se despediram com três derrotas e nenhum gol marcado. Então, Fomenko seria demitido para que o antigo capitão assumisse as rédeas da seleção.

Mesmo caindo de paraquedas na missão, Shevchenko não demorou a apresentar suas habilidades. O atacante era uma figura importante não apenas por seu passado como jogador, mas também pelo contexto do país, no meio de uma guerra civil. E se a imagem de Sheva suscita grandes momentos da Ucrânia unida, nos vestiários ele também precisou resolver conflitos internos. Existia um claro racha entre jogadores do Dynamo Kiev e do Shakhtar Donetsk, com brigas dentro de campo e uma rivalidade extrema pela hegemonia no país. O ex-atacante conseguiu contornar esse entrave e reaproximou os atletas, o que ajudou na competitividade.

Shevchenko se mostraria mais que um gestor de elencos. O novo treinador aproveitaria a experiência adquirida ao longo da carreira de jogador para aplicá-la em campo. O primeiro grande técnico de Sheva foi Valeriy Lobanovskyi, considerado um revolucionário por seus trabalhos à frente do Dynamo Kiev e da seleção soviética. O veterano foi como uma figura paterna ao jovem atacante que lapidou, a ponto de Shevchenko, já depois da morte de Lobanovskyi, levar a taça da Champions e a Bola de Ouro à sua estátua em Kiev. Com ele, Sheva absorveu principalmente a importância dos detalhes. Outra influência é Carlo Ancelotti, o comandante que levou o craque aos seus maiores sucessos. A escola italiana se reflete nas escolhas táticas do ucraniano. Além disso, ele não dispensaria as lições de José Mourinho, mesmo com o fracasso no Chelsea. Sheva destaca a mentalidade do lusitano.

“Eu trabalhei com ótimos mentores. Para mim, Valeriy Lobanovskyi sempre foi um professor e um segundo pai. Ele nos transformou em jogador de futebol. E Carlo Ancelotti teve um grande impacto para mim. Eu ligo para ele até hoje para pedir conselhos. Ele é um treinador sábio e flexível”, contaria Shevchenko, em entrevista à Trivela em 2020.

Enquanto desenvolvia suas habilidades como treinador, Shevchenko também se cercou de outros profissionais qualificados. Seu assistente principal é Mauro Tassotti, lateral histórico do Milan de Arrigo Sacchi e de Fabio Capello. O italiano era o assistente de Ancelotti durante a passagem do atacante por Milão e se manteria no cargo também ao lado de Massimiliano Allegri. Outro assistente é Andrea Maldera, vindo de uma família de lendas milanistas e que foi diretor técnico dos rossoneri. Completa a trinca de auxiliares o ex-goleiro Oleksandr Shovkovskyi, nome histórico da seleção ucraniana e que acompanhou Sheva ao longo de sua carreira. O treinador de goleiros Pedro Luis Jaro trabalhou por 15 anos no Real Madrid, conduzindo Iker Casillas da base ao auge. O chefe de análise, Luigi Nocentini, ganhou fama no Napoli de Maurizio Sarri. E o preparador físico é Andrea Azzalin, responsável pela forma excepcional do Leicester de Claudio Ranieri durante a conquista da Premier League.

Nestes cinco anos como treinador, Shevchenko ganhou confiança e traçou uma linha de trabalho para a Ucrânia. A seleção não conseguiu a classificação à Copa de 2018, mas passou perto num grupo equilibrado, e o ex-atacante ganhou um voto de confiança. A decisão se provou acertada depois que os ucranianos conquistaram o acesso na Liga das Nações em 2018/19 e carimbaram sua classificação à Euro 2020, com a liderança no mesmo grupo de Portugal. O desempenho caiu de nível na elite da Liga das Nações em 2020/21 e também no início das Eliminatórias para a Copa, com a equipe afetada por um surto de coronavírus. O saldo geral de Sheva, mesmo assim, era bem melhor que de seus antecessores.

A Eurocopa da Ucrânia seria uma montanha-russa. O time peitou a Holanda / Países Baixos na estreia, antes de amassar a Macedônia do Norte no primeiro tempo, mas passou aperto na etapa final. Depois, no duelo decisivo com a Áustria, os ucranianos ficaram devendo demais. A classificação saiu na conta do chá, como um dos melhores terceiros colocados. E a resposta aconteceu nas oitavas, na franca vitória diante da Suécia, arrancada no fim da prorrogação – fazendo valer a vantagem numérica após uma expulsão nos adversários. Até que, diante da Inglaterra, nada desse certo nas quartas de final.

A Ucrânia pareceu sentir o desgaste de uma prorrogação tensa dias antes e também os problemas de lesão durante a competição. O primeiro tempo não seria tão bom, apesar de certa resposta do time após o primeiro gol. O início do segundo tempo, de qualquer forma, levou a equipe a desabar. Seria difícil tirar a diferença no placar e o esforço ficaria para evitar uma goleada maior. O gosto é amargo, apesar da comemoração junto aos torcedores presentes nas arquibancadas do Estádio Olímpico de Roma. Mas, passado o baque do baile inglês, fica claro como terminar entre os oito melhores da Europa já sai de excelente tamanho ao time de Shevchenko.

Sheva não teve problemas para mexer na equipe e mostrar repertório tático. Perdas de jogadores importantes resultaram nessas escolhas e o treinador até barraria uma estrela como Ruslan Malinovskyi. Não estaria de todo errado, pela maneira como a Ucrânia superou a Suécia. Diante da Inglaterra, todavia, suas opções não deram certo e a desconcentração no começo de cada tempo cobrou seu preço. Mas essa derrota não é suficiente para cravar uma avaliação negativa sobre o treinador. O saldo da Ucrânia foi bom e a equipe parece ter capacidade para voltar às competições internacionais durante os próximos anos. Há jogadores jovens com potencial e também uma qualidade coletiva que rendeu bons momentos ao longo da Euro, mesmo com oscilações.

E a representatividade de tudo se torna maior ao redor de Shevchenko. Uma boa campanha da seleção é um alento dentro da guerra civil que continua no país. A antiga lenda do ataque ofereceu novos motivos para ser aplaudido como técnico, por elevar o orgulho de seus compatriotas. O treinador muito provavelmente não será cerebral como o jogador. Mas preserva a liderança, a inteligência e a aura vencedora que mais uma vez permitiu à seleção ucraniana superar seus limites.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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