Eurocopa

A badalada geração não foi um bom time e a Bélgica fracassou quando mais precisou se impor

No papel, um grande elenco. Nos jogos qualificatórios, cumpridor das expectativas. Mas não adianta: a Bélgica não conseguiu provar sua força em altos níveis de temperatura e pressão. Depois de uma Copa do Mundo decepcionante, os Diabos Vermelhos deixam a Eurocopa sob críticas. Até fizeram boas partidas, é verdade. Contudo, os belgas não souberam lidar com a situação justamente quando precisavam ratificar o protagonismo. Quando viam um adversário acuado e necessitavam se impor para conseguir o resultado. Foi assim contra a Itália e os problemas se repetiram contra Gales. Desta vez, sem chance de se redimir. Para quem tinha o caminho aberto, considerando a qualidade individual, ver o coletivo inoperante desta maneira é uma frustração, independente da grande partida que os galeses fizeram do outro lado.

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Estamos aqui para falar de futebol, e não de videogame. Assim, desmerecer o potencial do elenco da Bélgica como se fosse apenas uma avaliação de números da ‘geração Playstation’ não passa de uma negação ranzinza. Courtois é um goleiraço. Alderweireld veio de excelente temporada com o Tottenham e não teve as melhores companhias possíveis, diante da lesão de Kompany, bem como das ausências de Vertonghen e Vermaelen nesta sexta. Witsel é um volante consistente, enquanto Nainggolan, mesmo nem sempre tão regular, se destacou bastante na Euro. Mais à frente, Kevin de Bruyne possui reconhecidos predicados na armação e Ferreira-Carrasco vem em ascensão notável. Eden Hazard, apesar da draga com o Chelsea na maior parte da temporada, vinha recuperando o seu melhor. Lukaku combina explosão e faro de gol. E o banco de reservas ainda oferece outras opções interessantes, como Mertens e Batshuayi.

Capacidade não é o problema. Mas também não estamos aqui para arranjar desculpas. E o fato é que a Bélgica não funcionou nesta Eurocopa. Alguns jogadores oscilaram na competição. Outros não conseguiram dar sequência ao que fizeram nos clubes. E mesmo a estruturação da equipe, como um todo, não teve o seu encaixe. Futebol é coletivo. Não adianta uma boa geração de talentos se eles não trabalham bem como um time. E, time por time, Gales teve muito mais fibra e organização em Lille.

Até pela badalação, seria natural que os adversários encarassem a Bélgica de maneira mais cautelosa. Fechassem os espaços e buscassem a vitória na eficiência de seus ataques. Só que os belgas não conseguiram encarar defesas bem armadas, provar a qualidade de seu setor ofensivo com a bola, mas sem brechas. Quando conseguiram encontrá-las, pecaram na finalização. Assim, o primeiro aviso veio contra a Itália. Contra a Suécia, as mesmas dificuldades, apesar do chute de Nainggolan que resolveu a parada. E o mesmo ia acontecendo contra Gales, pesando desta vez a competência dos adversários nas quartas de final para matar os Diabos Vermelhos. No mais, a desfalcada defesa também não se mostrou confiável, com Courtois salvando a pátria em diversos momentos.

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Mas aí você me diz: contra Irlanda e Hungria, a Bélgica ganhou por ampla margem. Como fica? Pode perceber que o caminho para ambos os triunfos foi exatamente o mesmo. Abriram vantagem graças às jogadas em velocidade ou às bolas aéreas. Quando encontrou pela frente adversários mais abertos, seja pelo cansaço ou pela busca do gol, os belgas foram fulminantes. No futebol, todavia, você precisa saber trabalhar em diferentes situações. E, justo na mais corriqueira ao longo da campanha, os Diabos Vermelhos não fluíram.

Marc Wilmots, claramente, tem a sua parcela de responsabilidade. Logo após a eliminação, o técnico recebeu as queixas públicas de Thibaut Courtois, descontente ao ver seus companheiros batendo a cabeça na parede. De fato, a falta de variação e de uma postura mais inventiva recai sobre o técnico. Basta ver pela “solução” diante das dificuldades contra os galeses: o (nem tão) bom e velho chuveirinho, especialmente após a entrada de Fellaini. E não dá nem para dizer que não conheciam os oponentes, no quinto confronto desde 2012 com os Dragões. De qualquer forma, também faltou à Bélgica um craque que botasse a bola sob os braços e resolvesse. Em muitos momentos, De Bruyne é quem costuma aparecer, mas esteve encaixotado em Lille. Lukaku mal pegou na bola. E, de quem mais se espera, Hazard, pouco se viu.

Os adjetivos à geração belga, por enquanto, voltam à gaveta. Porque o que mais interessa, as virtudes de um time, não dá para apontar. Ainda há tempo para se confirmar, pensando na idade de tantos destaques do time. Antes disso, é preciso reformular os métodos de trabalho e, neste ponto, o fim parece próximo a Marc Wilmots. Falta chão para que esta Bélgica possa se equiparar, em resultados, ao que o verdadeiro grande time do país conseguiu nos anos 1980. Ou mesmo no bom futebol que exibiu nos anos 1990.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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