O inferno são os outros: Bayern suportou a pressão e bateu um Galatasaray osso duro
O Galatasaray enclausurou o Bayern de Munique durante todo o primeiro tempo e contou com a pressão de sua torcida, mas o Bayern suportou o abafa em Istambul e teve mais fôlego para decidir na reta final

O Galatasaray não quer fazer figuração na Champions League, e a vitória sobre o Manchester United provava isso. Já nesta terça-feira, os Leões se dispuseram a intimidar o Bayern de Munique. A missão de encarar a torcida no Estádio Rams Park é uma das mais duras da Europa. Porém, a ambição dos turcos não se resumia ao apoio de sua gente. Durante cerca de 60 minutos, o Galatasaray teve uma postura exemplar em campo. Jogou com as linhas adiantadas, encaixotou os bávaros, criou um caminhão de finalizações. Só não teve a capacidade que se viu do outro lado. O Bayern conseguiu superar as dificuldades e segurar o abafa. Na reta final, quando os oponentes se cansaram, os alemães arremataram uma excelente vitória por 3 a 1.
Não foi o Bayern que costuma se esperar na Champions League – até pelos números absurdos em fases de grupos, com 16 vitórias consecutivas e 37 jogos de invencibilidade. Contudo, mesmo que o time não fizesse uma partida reluzente, quem condicionava os problemas era o Galatasaray. A intensidade da equipe de Okan Buruk impressionou. Faltou mais precisão nos arremates, diante das recorrentes chances criadas, quando os Leões ameaçavam uma virada no placar. Depois de marcar um gol logo cedo e sobreviver ao sufoco, o Bayern provou que possui mais qualidade e mais fôlego, numa reta final com espaços no ataque. Kane participou de dois gols, mas Musiala foi o principal condutor do resultado dentro do caldeirão em Istambul.
As formações
O Galatasaray vinha alinhado num 4-2-3-1 por Okan Buruk, cheio de nomes conhecidos. Fernando Muslera era o goleiro. A defesa tinha Sacha Boey, Davinson Sánchez, Abdülkerim Bardakci e Kazimcan Karatas. No meio, Lucas Torreira e Kaan Ayhan formavam a dupla de volantes. Os meias eram Tetê, Kerem Aktürkoglu e Wilfried Zaha. Mauro Icardi liderava o ataque. Se precisasse de mais recursos, o banco de reservas ainda possuía uma lista infindável de figurinhas carimbadas: Angeliño, Kerem Demirbay, Tanguy Ndombélé, Dries Mertens, Sergio Oliveira, Hakim Ziyech e Cédric Bakambu estavam à disposição.
O Bayern de Munique também estava escalado num 4-2-3-1 por Thomas Tuchel. Sven Ulreich continua no gol. Noussair Mazraoui e Alphonso Davies eram os laterais, com Kim Min-jae e Matthijs de Ligt na zaga. O meio reunia Joshua Kimmich e Konrad Laimer. A trinca de meias era desenhada com Kingsley Coman, Jamal Musiala e Leroy Sané. Harry Kane era o homem gol. Por outro lado, apenas sete jogadores compunham o banco dos bávaros, entre eles Thomas Müller, Mathys Tel e Eric Maxim Choupo-Moting.
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A pressão incessante do Gala
O Bayern de Munique sabia que um autoproclamado inferno esperava seu time em Istambul. E assim se sentiu desde os primeiros minutos, com uma pressão que não vinha apenas das arquibancadas. Se as vaias eram enormes a cada toque de bola dos bávaros, em campo o Galatasaray adiantava a sua marcação e apertava a saída de bola. Era uma postura muito agressiva dos Leões, firme em todas as divididas. Icardi teve um chute desviado logo aos quatro minutos, enquanto os alemães não conseguiam trocar tantos passes. Até por isso, o gol do Bayern pareceu tão importante, aos oito minutos. Na primeira boa jogada do time, as redes balançaram. Sané conduziu o lance pela esquerda e deu o passe rasteiro na área. Musiala fez o corta-luz e Coman guardou.
O gol poderia ter causado um baque no Galatasaray, que era superior. No entanto, os Leões não mudaram a postura e continuaram sufocando o Bayern. Os alemães se viam enclausurados em seu campo de defesa, à procura de algum contra-ataque que não vinha. Enquanto isso, as chances de empate dos turcos se tornaram instantâneas. Aktürkoglu tentou anotar um golaço de voleio aos nove, e Ulreich se esticou todo para uma defesa excelente. Pouco depois, o goleiro falhou ao soltar uma bola rasteira no meio da área e Aktürkoglu isolou com a meta aberta. Os Leões mantinham a posse de bola e acuavam o Bayern como raras vezes costuma acontecer. Mazraoui desviou uma bola de cabeça contra a própria trave, enquanto as chegadas dos anfitriões se sucediam.
O merecido gol do Galatasaray aconteceu aos 30 minutos, a partir de um pênalti. Icardi foi ensanduichado na área e acabou derrubado por Kim. Na cobrança, o argentino assumiu o tiro e destilou sua categoria com uma cavadinha muito sutil, em que Ulreich nem saiu na foto. E o gostinho de uma possível virada servia como outra motivação aos Leões. A partida ficou um pouco mais aberta aos contragolpes do Bayern e, depois de quase meia hora sem finalizações, o time voltou a tentar. Porém, as tentativas de Sané e Kane não foram precisas.
Do outro lado, o segundo gol do Galatasaray parecia mais provável. Aktürkoglu voltou a aparecer aos 38, mas Ulreich conseguiu fechar o ângulo do meia. Icardi também surgiu para uma boa cabeçada, que saiu por pouco. O argentino depois perdoou nos acréscimos, num lance em que Kimmich entregou o ouro. A intensidade dos Leões parecia ritmada pelo som que vinha da torcida. Além do mais, o time também se defendia bem. As coberturas eram bem feitas e neutralizavam os contragolpes do Bayern, também com uma boa leitura de Muslera quando precisava se antecipar.
Sobraram mais pernas e mais talento ao Bayern
O segundo tempo recomeçou mais equilibrado. O Bayern tentava preservar mais a bola e encaixou um ataque rápido aos cinco minutos, mas Sané bateu mal na bola. Do outro lado, o Galatasaray já respondeu com Torreira para fora. As chances dos Leões eram mais concretas. A primeira mudança dos turcos teve Dries Mertens em campo, no lugar de Tetê, numa atuação morna do brasileiro. Logo Torreira quase assustou numa bola parada, ao se antecipar e desviar de cabeça, acertando a parte externa da rede. O uruguaio, aliás, queria jogo. Teve uma bola em que Icardi até mais atrapalhou do que ajudou, quando Mertens parecia pronto a marcar.
O Bayern de Munique tinha sérios problemas para construir seu jogo a partir de trás. Demorava a mudar e dependia de espasmos. Mesmo assim, o talento individual dos bávaros é inegável e o preparo físico também fez a diferença, com o time mais inteiro no quarto final do duelo. Aos 18 minutos, Sané encontrou espaço pela direita e bateu rasteiro, para boa intervenção de Muslera. Kane fazia uma partida de poucas ações e, quando poderia cometer o crime, acabou travado pela zaga. Quando o Galatasaray se viu obrigado a recuar um pouco mais, diante da troca de passes mais consistente dos alemães, o volume das vaias se tornou ensurdecedor em Istambul.
Ficava cada vez mais claro que o Galatasaray sentia o cansaço. Não era uma marcação sólida dos turcos, que atrapalhasse as trocas de passes do Bayern. E num lance em que os Leões não estavam mais em seu máximo é que saiu o segundo gol dos bávaros, aos 28 minutos. Numa trama pela direita, Musiala teve muito tempo para pensar o que fazer na área. Rolou para Kane. Boey até bloqueou a batida de letra do craque, mas o rebote ainda ficou com o inglês e ele não costuma perdoar, de frente para o crime.
De uma só vez, o Galatasaray fez três mudanças aos 30 minutos. Angeliño, Ziyech e Baris Alper Yilmaz entraram. O time se abria em busca do ataque. Contudo, também dava mais espaços ao Bayern de Munique. A equipe de Thomas Tuchel até desperdiçou um contra-ataque, mas estava em sua fase mais confortável na partida. Bouna Sarr veio no lugar de Mazraoui. Já o terceiro gol, que silenciou de vez as arquibancadas, pintou aos 34. De novo foi uma troca de passes muito tranquila, sem empecilhos dos turcos. Kane retribuiu o presente e entregou para Musiala, em posição frontal. Bateu com segurança e ampliou a diferença.
O Galatasaray teria Ndombélé aos 35 minutos, mas parecia morto. Quase Sané anotou o quarto na sequência, em lance no qual pediu pênalti e não foi atendido. Já aos 38, Kane e Coman ganharam um descanso, com Tel e Choupo-Moting recebendo minutos em campo. A reta final da partida era protocolar, com o Galatasaray limitado a alguns suspiros. Se algum novo gol viesse, mais provável que fosse do Bayern. Muslera se esticou todo para espalmar uma falta batida no canto por Sané. Já no último lance, o Gala ainda teve um gol de cabeça com Bardakci, mas o zagueiro estava impedido. Ficou nisso, mais que suficiente ao Bayern pelas circunstâncias do jogo e frustrante ao Galatasaray pela superioridade durante grande parcela da noite.
A situação no grupo
O Bayern de Munique chega aos nove pontos no Grupo A da Champions League, distante dos concorrentes e muito próximo da classificação. Já o Galatasaray sofre sua primeira derrota e estaciona nos quatro pontos. O resultado auxilia Manchester United e Copenhague, que buscam tirar a diferença. Os turcos, ainda assim, continuam bem no páreo pela classificação.



