Europa

Aposentado, Buffon vira um pensador do futebol e tem uma sugestão para deixar o jogo mais divertido

Distante de campo, Buffon acaba de concluir um curso para tirar a licença de diretor executivo

Gianluigi Buffon anunciou sua aposentadoria dos gramados em agosto de 2023 e tudo o que ele fez depois disso foi seguir respirando o futebol. Mas agora, com uma veia mais reflexiva e estudiosa, bem longe das traves, mas com o pensamento sempre voltado para elas. O lendário ex-goleiro campeão do mundo pela Itália em 2006 hoje segue ligado à Azzurra, como chefe de delegação da seleção.

Distante de campo, ele acaba de concluir um curso para tirar a licença de diretor executivo. A tese apresentada por ele é intitulada “Futebol, sociedade, experiências pessoais, uma mistura ideal para o meu paradigma de diretor desportivo na era da inteligência artificial”. E aos 45 anos, ele tem ainda mais ideias para a evolução do jogo, com direito a uma sugestão no mínimo inusitada: aumentar o tamanho das traves para deixar o esporte mais atrativo.

Buffon sustentou a sua ideia em uma longa entrevista ao portal italiano Tuttosport em que falou também sobre a seleção italiana, o trabalho de Luciano Spaletti na Azzurra e suas expectativas para a Eurocopa deste ano, na Alemanha. Para Gigio, o tamanho das traves não acompanhou o crescimento da estatura dos goleiros. E o ex-goleiro usou ele próprio como exemplo.

–  Eu estava conversando sobre isso com meus parentes e minha esposa outro dia. Quando comecei, em 1998, estava entre os cinco jogadores mais altos da Série A. No ano passado quando estava com o Parma na Série B, sempre estive entre os cinco mais altos, mas dos vinte e dois em campo! Quer dizer, as medições foram feitas em 1875. Para os valores da época, provavelmente as traves eram muito grandes. Então houve um intervalo de tempo de, digamos, 50, 60 anos em que eles estavam certos. Agora, vendo certos atletas, pode-se pensar… Por outro lado, até no vôlei se discute a altura da rede. Tendo duas irmãs jogadoras de vôlei eu conheço o problema. O saque está se tornando quase tão crucial quanto no tênis – disse Buffon.

Buffon na seleção italiana:

  • 214 convocações
  • 176 jogos disputados (recorde)
  • 172 jogos como titular
  • 4 jogos vindo do banco
  • 85 vitórias
  • 56 empates
  • 35 derrotas
  • 80 jogos como capitão

– Bom, de qualquer forma, eu não decido, há órgãos responsáveis ​​que certamente estarão a fazer perguntas e também a estudar as análises. É preciso dizer também que os goleiros são maiores, é verdade, mas os jogadores de campo são mais rápidos, mais imprevisíveis e mais fortes nos chutes. Os gestos técnicos sempre melhoram. Mas você pode ver o efeito do tamanho do goleiro nos chutes de longa distância: há 30 anos, para cada 50 chutes, você marcava dez gols. Hoje, se você fizer três, é muito. E de longe, é muito mais difícil marcar contra um goleiro de dois metros – concluiu.

> Confira mais trechos da entrevista:

Aposentadoria

Estou muito feliz porque lido com muitas coisas, fico com a cabeça ocupada tentando deixar novas ideias de lado e acima de tudo aprimorar minhas habilidades. E então, vamos lá, não é como se eu tivesse parado de repente aos 29. Foi uma escolha que já existia há quatro ou cinco anos: bastava escolher o momento mais adequado. Agora estou muito bem, tenho uma vida satisfatória, não só no trabalho, mas também em casa.

Grupo da Morte na Euro 2024

Tenham cuidado, pois a Albânia é uma equipa a ser enfrentada com uma pitada de sal. Até porque é o primeiro adversário. As estreias nessas competições são sempre um pouco delicadas e nervosas. Mas acredito que com tudo o que Spalletti e sua comissão estão trabalhando, se for bem recebido pelos atletas, a única preocupação será a condição em que chegaremos à Eurocopa.

Trabalho de Spaletti na seleção italiana

Spalletti é certamente um treinador atípico, tem características muito próprias: gosta de ser uma pessoa no centro do grupo, gosta de dar as coordenadas ao grupo, tanto técnicas como comportamentais, exigindo disciplina; busca sempre a coerência entre o que diz e o que faz. Ele transfere essa sua busca a cada momento e nunca deixa passar nada. Nós nos conhecemos desde tempos imemoriais, mas nunca de perto, agora é bom estar perto dele.

Gianluigi Donnarumma, goleiro da Itália (MIGUEL MEDINA/AFP via Getty Images)

Conselhos a Donnarumma?

Nunca! Eu nunca dou conselhos. Quando me perguntam, eu respondo contando minhas verdades. Quais são meus, obviamente, não os absolutos. Certamente (as críticas a eles são excessivas). E não estou dizendo que haja excesso de críticas, mas vejo um certo prazer quando os erros de alguém podem ser destacados. Os alemães têm uma palavra para o prazer sutil que sentimos quando as coisas vão mal para os outros: schadenfreude. Aqui acredito que o Gigio sofre muito, mas está estruturado e já superou muitas vezes esses momentos.

Os três melhores goleiros da atualidade

Três é muito pouco. Tirando o Courtois, que está lesionado e que para mim tem algo a mais, depois há seis ou sete que são muito fortes. Você sabe os nomes, eles estão lá.

Evolução de treinos “nivelou” os goleiros?

Não, eu diria que não. Para mim, um goleiro é composto de 20% a 30% de qualidades inatas e outros 70% a 80% da parte mental. O que significa a capacidade de entender como o jogo se desenrola, de se relacionar com os outros, de dar segurança a um departamento, são qualidades intangíveis por fora, mas são muito mais importantes que as físicas.

Foto de Eduardo Deconto

Eduardo Deconto

Eduardo Deconto nasceu em Porto Alegre (RS) e se formou em Jornalismo na PUCRS. Antes de escrever para a Trivela, passou por ge.globo e RBS TV.
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