La Liga

Jorge Molina, do Granada, critica Superliga: “Se não podem gastar 200 milhões, que não gastem”

Atacante do Granada, de 39 anos, viveu a maior parte da carreira nas divisões inferiores e entende o valor que tem os clubes menores e as divisões que são a base da pirâmide

Algumas vezes as respostas a perguntas complexas são muito mais simples. Jorge Molina, atacante do Granada, é um jogador vivido. Aos 39 anos, defende um clube pequeno, algo que foi constante em toda a sua carreira. Até os 29 anos, nunca tinha jogado na primeira divisão. Perguntado sobre a Superliga, ele fez críticas e tratou de forma simples o problema dos superclubes não terem dinheiro para gastar em jogadores badalados: não gastem.

Nesta temporada, Jorge Molina faz parte de um Granada histórico, que conseguiu uma campanha de quartas de final com o clube na Liga Europa. Marcou, até aqui, 13 gols. Em toda a carreira, tem 193 gols. Esteve em campo contra o Real Madrid, nesta quinta-feira, uma goleada dos merengues por 4 a 1. Um confronto que, aos olhos de 12 dirigentes que articularam a Superliga, não é interessante o bastante. A ideia da Superliga foi anunciada e desmoronou em um espaço de 48 horas.

O time da capital é um dos principais articuladores da ideia de uma Superliga, com Florentino Pérez, seu presidente, como uma espécie de porta-voz. O Real Madrid é um dos que ainda sobraram na iniciativa, ao lado de Barcelona e Juventus. Os demais já pediram para sair: Atlético de Madrid, Arsenal, Tottenham, Manchester United, Manchester City, Liverpool, Chelsea, Milan e Internazionale. 

“Não é positivo para o futebol. As equipes com menos história e fazem bem as coisas devem ter um prêmio. Para nós, enfrentar o Manchester United ou o Napoli foi muito bonito”, comentou Molina em entrevista ao El Pais, sobre os duelos do Granada contra o clube inglês e italiano ao longo da Liga Europa. Perguntado se viu a Superliga como um desprezo, ele negou. “Não. No fim, todo mundo busca mais recursos econômicos e seguir crescendo. Mas o futebol é tão bonito devido aos times menores”, afirmou o atacante.

Molina, então, foi perguntado se acredita que o futebol precisa ser salvo, como alegou Florentino Pérez em entrevista sobre a Superliga. “Não. Está passando por uma crise, mas como toda a sociedade. As equipes têm que se adaptar. Se não podem gastar 200 milhões com uma contratação, não gastem”, disse o jogador. Uma solução simples, mas que é óbvia. Não se pode gastar o que não se tem, que é uma fórmula que os superclubes tem usado e abusado ao longo dos últimos anos, tentando um superar o outro – e inflacionando todo o mercado.

Molina é um jogador que passou quase toda a carreira em divisões inferiores da Espanha. Só chegou à primeira divisão aos 29 anos. “Sim, me custou chegar. Passei por todas as categorias: Terceira (que é, na verdade, a quarta divisão), Segunda B (terceira divisão), segunda e primeira. Pouco a pouco, fui escalando. Não é fácil que as equipes apostem em jogadores de divisões inferiores. Com o passar dos anos, pude conseguir e agora o objetivo é alargar um pouco a carreira na elite”, contou o jogador.

“Quando você é jovem, sempre sonha em jogar de cara na primeira divisão. Mas quando você está na quarta divisão, você não olha tanto como um objetivo. Você quer apenas desfrutar a render. Nesse momento, você só tem objetivos de curto prazo. Na quarta divisão, chegar à terceira é um êxito. E logo pensas que a segunda divisão seria incrível. E já a primeira divisão, imagine”, disse Molina.

Quando perguntam se ele cumpriu todos seus objetivos na carreira, ele pensa. “Sim, veja, sempre temos que ser ambiciosos, mas também pensar que, quando você se esforça ao máximo, tem que estar orgulhoso. Eu gostaria de ter chegado mais acima? Isso sempre. Você sonha com seleção ou ganhar um título. Mas eu estou satisfeito. Se com 21 anos, quando estava na quarta divisão, me dissessem que eu ia disputar competições europeias, eu te diria que você estava louco. Me custou chegar e estou orgulhoso da minha carreira”, respondeu o atacante do Granada.

Molina sabe que o seu tempo de futebol profissional está acabando, aos 39 anos. Apesar disso, ele diz que não gosta tanto de pensar no que será da sua vida sem ser jogador. “Penso pouco. Me dá vertigem. É que sempre fiz o mesmo. Parar será uma mudança drástica. Estou tentando aproveitar cada momento e, quando tiver que me aposentar, veremos”, conta.

Apesar de não pensar muito na vida depois do fim da carreira de jogador, Jorge Molina tem formação para seguir trabalhando em outras áreas, e talvez até dentro do futebol. “Eu ainda não sei [sobre o futuro]. Tentei me preparar. Tenho minhas duas carreiras (Magistério e Educação Física), o diploma de treinador e de diretor esportivo. Há um leque de possibilidades”, respondeu.

Para conseguir ter essas formações, ele precisou se sacrificar em uma parte da sua carreira. Dividiu a carreira de jogador com a de estudante, em um momento que jogou pelo Alcoyano, time que o formou e da cidade onde nasceu, Alcoi, e jogou também no Benidorm e Gandía.

“Eu tinha que pegar uma boa leva de quilômetros. Tenho recordações muito boas. Foi uma época mais sacrificada e sofrida que agora, ainda que, economicamente, não havia como comparar. Éramos três ou quatro que vivíamos ou estudávamos em Valencia e íamos de carro diariamente para treinar. São experiências que você aproveita. É muito mais sacrificado, isso eu também digo. Eu não mudaria. Economicamente, não rendia muito. Me servia para poder sair da carreira e ter alguma comodidade. Vivia em Valência em um apartamento alugado com dois companheiros. E em Alcoy estava na casa dos meus pais. O que me pagavam dava para os gastos”, contou.

Voltaria o Benidorm, foi para o Elche e foi quando passou a subir de divisões. O grande salto da sua carreira foi o Betis, em 2010, que pagou € 1,6 milhão por ele. Ainda jogou pelo Getafe, em 2016 a 2020, quando chegou ao Granada, seu clube atual. Atualmente, Jorge Molina tem contrato até 2022, até o final da próxima temporada.

 

 

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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