Espanha

Forma como utiliza Valverde dá a Arbeloa impressão diferente de quando chegou ao Real Madrid

Técnico do Real Madrid assumiu com status de 'gestor de egos', mas tem méritos táticos até aqui

Álvaro Arbeloa substituiu Xabi Alonso no Real Madrid no início deste ano como um “bombeiro”. A ideia era clara: depois de um técnico muito rígido em sua filosofia, adaptando-se pouco aos jogadores, o clube coloca um treinador de confiança, bom de grupo e com histórico na equipe, para acalmar os ânimos.

Entre acertos e erros, derrotas doloridas e vitórias marcantes, o novo comandante merengue tem entregado isso. Resgatou o melhor de Vinicius Júnior, frequentemente elogia os jogadores em entrevistas coletivas, dando-lhes muita confiança, e busca reunir o máximo de talento que tem à disposição ao invés de impor uma estrutura fixa.

É o perfil de técnico que no Brasil ganha o nome de “paizão”. É como Carlo Ancelotti, comandante do Real entre 2021 e 2025, período em que venceu dois títulos da Champions League com, além de méritos táticos, muita gestão dos egos do vestiário e extraindo o melhor dos jogadores.

Arbeloa, no entanto, tem mostrado recentemente uma faceta além de um cara bom de grupo. A utilização de Fede Valverde nas duas últimas partidas do Real Madrid mostra uma boa leitura tática, mas tem mais coisa que está na conta do profissional de 43 anos.

Valverde e Arbeloa em jogo do Real Madrid
Valverde e Arbeloa em jogo do Real Madrid (Foto: IMAGO / Alex Perez)

Como Valverde mostra repertório de Arbeloa no Real Madrid

Os movimentos do camisa 8 contra Manchester City e Elche na última semana são claras soluções do técnico espanhol para o contexto das partidas. Frente aos ingleses, o uruguaio foi posicionado como o atacante mais avançado do time na ponta direita, à frente até de Vini Jr e como uma forma de compensar que Brahim Díaz era o falso nove.

A estratégia era explorar a linha alta do time de Pep Guardiola, que pressiona muito no campo de ataque a partir de lançamentos para Valverde nas costas do jovem Nico O’Reilly, como foi o gol que abriu o placar e transformou uma partida difícil em favorável aos Merengues. Ele ainda faria mais dois tentos, um na área depois de atacar a profundidade em jogada de Vini e outro, uma pintura, na direita da área.

Arbeloa, no passado, reiterou como não gostava da dependência do time em atacar muito pela esquerda com Vinicius. “Sempre tendemos a buscar esse recurso fácil“, assumiu após ter perdido para o Getafe. A utilização de Fede compensou isso.

Estrutura ofensiva do Real Madrid contra o Manchester City
Estrutura ofensiva do Real Madrid contra o Manchester City (Foto: Reprodução/TNT Sports)

Toda essa dinâmica, obviamente, foi trabalhada em treinos antes da ida das oitavas de final da Champions League. “Tínhamos treinado bastante que, quando saíssemos jogando desde o tiro de meta, eles iam pressionar no mano a mano. Somos rápidos lá na frente e aproveitamos bem isso”, assumiu o jogador ao “Movistar”, destacando que seus ataques são um pedido direto de Arbeloa.

— Tento chegar mais à frente, é o que o treinador me pede, que eu ataque. Hoje tínhamos mais jogadores para manter a posse de bola e tentei atacar mais, e me deram passes incríveis.

Frente ao Elche, uma nova dinâmica para compensar as flutuações de Brahim como “nove”. No momento ofensivo do Real Madrid, a formação era uma espécie de 4-4-2 losango, com Vinicius Júnior como dupla de ataque de Valverde, enquanto Díaz recuava para ser meia. Dani Carvajal subia para ocupar o lado direito do ataque com a ausência do uruguaio.

Estrutura ofensiva do Real Madrid contra o Elche
Estrutura ofensiva do Real Madrid contra o Elche (Foto: Reprodução/ESPN)

Foi em um movimento por dentro no meio-campo, saindo da “referência” de camisa 9, que Valverde iniciou a jogada de um golaço. Ele tabelou com Brahim, abriu em Fran García, recebeu de volta na meia-lua para cortar um defensor e mandou no ângulo.

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Papel defensivo de camisa 8 merengue também merece destaque

Não só importante no ataque, Valverde também tem chamado atenção pelo posicionamento sem a bola. Com o City e Elche, ao invés de recompor na meia direita do 4-4-2, ele, em várias oportunidades, afundava na defesa para formar uma linha de cinco.

Nos primeiros 15 minutos com os ingleses, a descida era entre Alexander-Arnold e Rüdiger para acompanhar O’Reilly.

Estrutura defensiva do Real Madrid contra o Manchester City com Valverde como terceiro zagueiro
Estrutura defensiva do Real Madrid contra o Manchester City com Valverde como terceiro zagueiro (Foto: Reprodução/TNT Sports)

Com as dificuldades do lateral-direito em defender contra Doku, um driblador nato, o uruguaio passou a ser o ala. Não se sabe se veio alguma instrução de Arbeloa ou foi uma leitura do próprio jogador dentro de campo.

A estrutura do Madrid, que por vezes parecia até um 5-4-1 pela recomposição de Díaz, contribuiu para negar os espaços para um City que só tinha Rodri ajudando os zagueiros a buscar os espaços. A dedicação defensiva do time espanhol também foi louvável.

— Eles defenderam muito bem, muito solidários, muito recuados. E [tinha] a sensação constante de perigo nas transições — analisou Pep Guardiola ao “Movistar”.

Estrutura defensiva do Real Madrid contra o Manchester City com Valverde como ala
Estrutura defensiva do Real Madrid contra o Manchester City com Valverde como ala (Foto: Reprodução/TNT Sports)

Contra o Elche, Valverde não precisou se preocupar com um ponta driblador e só fechou por dentro, entre Carvajal e Rüdiger.

real madrid elche sem bola valverde
Estrutura defensiva do Real Madrid contra o Elche (Foto: Reprodução/ESPN)

Além do uruguaio, técnico do Real teve outras soluções

Valverde, entretanto, não é o único mérito de Arbeloa. A improvável utilização de Brahim Díaz como falso nove chama atenção. O marroquino ficou esquecido na era Xabi Alonso. Gonzalo García, nove de ofício, tem ficado no banco de reservas.

— O técnico pede que eu participe o máximo possível, que ajude na saída de bola, que gire, que ajude entre linhas e que esteja por todo o campo — revelou Brahim à Real Madrid TV.

Outro jovem potencializado tem sido Thiago Pitarch, de apenas 18 anos. O garoto estreou no último mês sob o comando de Arbeloa, treinador dele nos tempos da base, e passou a ser titular com a crise de lesões.

O técnico o testou como meia esquerda, função normalmente de Bellingham, Camavinga ou Arda Güler, na dura vitória de virada sobre o Celta de Vigo. Pitarch teve uma atuação muito abaixo, fazendo o comandante repensar e transformá-lo em uma dupla de Tchouaméni no meio. Com isso, conseguiu ser mais participativo e mostrar qualidade no passe.

— Arbeloa sempre me deu confiança desde o primeiro minuto, isso é muito importante para mim. O mister fala comigo e me diz para ter personalidade, para ser eu mesmo e para não ter medo — disse o garoto, também à RMTV.

— Sempre serei grato a ele. Arbeloa me diz para não desperdiçar a bola, para correr e lutar. E é isso que eu sempre tento fazer. […] Tenho uma relação muito boa com ele. Ele me parabenizou pela partida e disse para eu continuar assim — reiterou em entrevista na zona mista após a vitória sobre o City.

Pitarch marcado por Bernardo Silva em Real Madrid x Manchester City
Pitarch marcado por Bernardo Silva em Real Madrid x Manchester City (Foto: IMAGO / AFLOSPORT)

Nessas duas partidas, Vini também teve funções distintas. Contra o City, a ideia era ficar mais aberto pela ponta e ter duelos mano a mano com Khusanov. O segundo gol veio de um lance do brasileiro cortando do lado para dentro e enfiando em profundidade. Com o Elche, ele se posicionou por dentro, como um atacante.

E Mbappé?

Todas essas variações levantam uma questão: e quando Kylian Mbappé voltar de lesão? O francês treinou com o elenco neste final de semana e tem tudo para atuar contra a volta com o Manchester City nesta terça-feira (17), no Etihad Stadium.

O centroavante deve naturalmente entrar na função de Brahim, sendo mais fixo e caindo muito pela esquerda, o que pode gerar novas reclamações de Arbeloa com a concentração de jogadas pelo setor que também tem Vinicius Júnior. Valverde deve ter, novamente, papel decisivo para equilibrar o time, ficando bem aberto na direita.

As respostas virão a partir das 17h (horário de Brasília). O Real pode perder por até dois gols que avança de fase.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius AmorimRedator

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.

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